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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Terça afro: Pensamento e ação de jovens negras e negros na paisagem cultural de uma metrópole brasileira.

Terça afro: Pensamento e ação de jovens negras e negros na paisagem cultural de uma metrópole brasileira. Salloma Salomão Jovino da Silva*
Já brinquei com o termo Terça Afro. Poética livre, propus variações como trança afro, terço afro, transafro e por ai afora. De qualquer prisma o termo afro demarca a origem e o destino não de uma essência escura, mas de um conjunto de visões de mundo que não se coadunam com a matriz ocidental judaico-cristã. Por falar em ocidente, para os gregos antigos, Áfrico era a divindade relacionada a um mundo mítico e natural relativamente desconhecido e, situado geograficamente no sul do mediterrâneo. Antes que o continente negro fosse irreversivelmente designado por África, ainda experimentou outras nomenclaturas aos olhos estrangeiros. Aqui o Afro é então positividade e lugar político específico. Sobretudo, tem sido utilizado em situações de expatriação, exclusão ou domínio. Sim, afirma-se como individuo e coletividade cuja origem é África pode ser estratégia de inflexão da normalidade. Mais que alteração semântica, é reversão de uma tendência tida como natural. Poderia ser diferente, dado a persistência do racismo antinegro e das desigualdades estruturais do mundo contemporâneo? Seria de outro jeito no interior de uma cultura econômica que nasceu com “marcas de lama e sangue negro”? Sabemos que não. Melhor, temos consciência que não. São é numericamente a cidade onde reside a maior população negra no Brasil. É também a cidade mais racista, considerando a política de segurança surge como a mais insegura para uma família negra criar seus filhos. Onde a violência tem características de uma epidemia e as marcas de um verdadeiro genocídio. São Paulo recebeu levas de negros traficados internamente após 1850. Também atraiu levas de negros do norte durante seu processo de industrialização entre 1930-1980. Contudo, seus governantes estaduais perseguiram tão desesperadamente o branqueamento, que mantiveram aportes oficiais para acolhimento de europeus até década de 1960 (conforme nos informa George Reid Andrews (1998). Aqui São Paulo. Talvez por isso Terça Afro nasce nesse contexto, daquilo que Stive Biko definiu como Consciência Negra**. Qual seja, um impulso político e cultural capaz de mobilizar os negrxs do mundo, em torno de uma projeto de emancipação politica e racial definitiva e humanizadora. A consciência negra, entretanto, não pode ser aprendida em uma cartilha filosófica dogmática e fechada, como imaginam as mentalidades autoritárias. Justamente porque deve estar circunscritas a cada dinâmica politica, conjuntura temporal e contexto. Lá Biko lançou um petardo cognitivo que pode ou não ser capturado e submetido as novos desígnios. Mas aqui, tal é nossa condição diaspórica no Brasil atual, na qual o racismo antinegrx assume proporções monstruosas e perversas, que permitem analogias diretas com sociedade sul-africana, analogia é principio cognitivo. Cada contexto é único, mas vamos admitir que no quesito violência de estado, o sistema social brasileiro parece combinar todos os fatores que caracterizaram um regime politico racista e institucional. Não foi exclusivo da África do Sul, mas o modelo altamente racionalizado daquele país passou a ser conhecido mundialmente como Apartheid. Nossas elites daqui, sequer admitem a denuncia das desigualdades. Numa conjuntura de profunda desigualdade e racismo antinegro e antindígena que se reinventa, o que podem fazer jovens negrxs além de viver sob o impacto cotidiano da segregação? Qual função e propósito tem um grupo de jovens negrxs envolvidos com artes, culturas, memórias e identidades? Que tipo de ação tem condições de realizar frente ao niilismo, individualismo, narcisismo dirigido a eles pela indústria do entretenimento e do consumo em geral? Pelo que tenho acompanhado eles respondem a esses desafios produzindo micro antideologias e práticas políticas fundamentadas em quatro pilares: Negritudes, Sociabilidades, Artes e Afetos. Negritudes: Admitem a existência de pertencimentos diversos a origem africana e tomam como positiva a diversidade negra experiencial histórica e subjetiva. Fuçam e reviram as memórias, historias e africanidades. Visitam figuras humanas históricas vivas desaparecidas para um dialogo intenso com as histórias africanas e diaspóricas. Sociabilidades: Elaboram sofisticadas estratégias para um “estar juntos”, convivendo, partilhando, descobrindo, gerando tensão e relaxando as relações a partir da criação e execução de programas, projetos e eventos. Contornam conflitos pessoais e competitividades para partilhar horizontalmente os desafios e retornos (financeiros e emocionais) advindos de cada ação planejada e desenvolvida. Artes: Encontram nas linguagens codificadas como expressivas as estratégias e veículos para comunicar suas experiências e reanimar memórias negras abandonadas pelo espolio da guerra cultural-racial antinegra. Elaboram, fluem e intercambiam imagens fílmicas e fotográficas digitais; textos sonoros, impressos e virtuais; conteúdos e valores musicais; técnicas de registro e formas criativas e tecnológicas. Afetos: Lançam desafios para a aproximação direta, fomentam troca de gentilezas, mas não escamoteiam dissidências, medos e divergências. Politizam o carinho e violência, tratando da tendência ao isolamento como um fator de adoecimento que incidem sobre os urbanos, mas desumanizam mais aqueles socialmente abandonados.
Tanto na percepção de Beatriz Nascimento como em Abdias do Nascimento as experiências sociopolíticas designadas Quilombos, poderiam servir como plataforma tecnológica para redimensionamento da presença negra na sociedade brasileira. Isto é preconizavam como devir, uma nova forma de fazer política no Brasil, que valorizasse as matrizes culturais africanas presentes no nosso imaginário. Talvez por compreenderem criticamente o monopólio das elites brancas sobre as instituições culturais, sociais e políticas (partidárias) convencionais, vislumbraram uma rota de fuga para os descendentes de africanos, de forma que estivem fortalecidos e aptos para um novo tipo de confronto. A ação cultural, artística e política chamada Terça Afro é um diapasão afinado com os pressupostos de Biko, definidos como Consciência Negra e simultaneamente repercutem os Quilombismos de Beatriz e Abdias Nascimento e Quilombagem de Clovis Moura. O aquilombamento tem permitido construir autoimagem a partir de dentro e elaborar ferramentas de arqueologia cultural e tecnologias de combate ao racismo normativo e cotidiano. Um grupo de jovens urbanxs, autodefindxs como negrxs, que a partir de sua própria experiência, interpretam a realidade brasileira, girando seus binóculos digitais, para captar e processar os dados sobre a periferia da cidade mais rica do país. Constatam as continuidades dos diagnósticos feitos por gerações anteriores de ativistas. O racismo antinegro é rápido, dinâmico e foda. Turva a visão, se dilata, se readapta para manter as hierarquias estruturais e secular. Os afros-terços ao invés de encontrar uma capela segura para orar por um mundo melhor, buscar refúgio e esperança no além, ao invés de ingressarem nas filas dos comportamentos monótonos e previsíveis destinados a juventude, se erguem com altivez e passam a mobilizar outros corpos e mentes negras. Constroem novas sensibilidades políticas e estéticas. Refinam os fios das navalhas do discurso, retesam os fios das memórias e criam novas tramas de liberdade e valorização da vida. A base do trabalho? Rodas de conversas com convidados e abertas ao público. Numa primeira olhada, suas estratégias parecem ser bastante simples, mas não são, a saber: convivência, diálogo, criação estética e leituras/interpretações das experiências de si e dos outros. Aqui apresentam um qualificado painel dos resultados dos trabalhos que já realizaram. Trata-se de uma fotografia fragmentária, provisória e circunstancial do seu processo, que não caberia em apenas um tipo de suporte, posto que muito é mais amplo e complexo que as descrição que fiz acima. É dessa forma que podemos ler os conteúdos desenvolvidos nos textos apresentados nesta coletânea. Kiussam Oliveira em Literatura Infantil e representatividade negra, toca nos pontos fundamentais sobre a escolarização e alfabetização como potencia e também como uma das formas de enfraquecer a formação da autoimagem positiva entre os afrodescendentes. Explora o que define como Literatura Negra do Encantamento. Sua meta é refletir sobre o papel da ancestralidade para “dar conta de atingir estruturas psíquicas mais profundas de crianças e jovens negros/as”.
Já Maria Lucia da Silva no texto “Mulher negra é forte, quem ganha com isso?” discute os dados sobre a saúde da população negra no Brasil, especificando aqueles problemas as mulheres que incidem sobre as mulheres negras. Aponta a intersecção entre racismo e sexismo como dupla forma de dominação, constrói um quadro analítico cruzando dados empíricos e fontes estatísticas institucionais para mostrar o atual estado da arte sobre o discurso que projeta a “força da mulher negra” ante ao sistema público de saúde. Pra então concluir que: “Um dos grandes prejuízos para a mulher negra, resultante desta lenda, é a cristalização de uma imagem sobre si e a exigência de suportar grandes cargas objetivas e subjetivas sem reclamar, sem pedir ajuda e sem repartir. A afirmação de que “mulher negra é forte” poderia representar um ganho mas, quando ouvimos relatos de vidas, identificamos sobretudo perdas e danos.”. Gerson Sergio Brandão Sampaio e Samoury Mugabe Ferreira Barbosa versam sobre Juventude negra e a discriminação racial. Apontando fatores como educação, políticas sociais excludentes ou deficitárias de saúde e a violência racial como o principais fatores do racismo estrutural que atinge gerações subsequentes de jovens negros e negras no Brasil. Essa um dos temas bastante caros aos movimentos negros, que desde a década de 1970, tem aprofundado critica ao fenômeno que Abdias teria indicado como “genocídio do negro Brasileiro”, bem antes que as políticas de segurança baseadas no noção estadunidense de “tolerância zero” fossem implementadas por aqui. Em “Jovens negros”os autores buscam compor uma visão de campo e ao mesmo tempo redigir um contra-discurso que possa fortalecer o sentimento de pertença e ao meso tempo se contrapor aos meios de comunicação que cotidianamente normalização a violência racial e naturalizam as chacinas epidêmicas.
Em Territórios Negros na cidade de São Paulo Renato Kilombola reconstrói um panorama histórico da presença sócio-política e cultural negra na construção da metrópole e nos faz ver a Sampa negra, enunciadas por poetas e por outros pesquisadores das gerações antecessoras. Marcio Farias explora as criações e interpretações de Clovis Mora e Abdias do Nascimento em torno dos termo-conceitos: Quilombagem e Quilombismo. Trata de exercitar a reconstrução a partir das fontes textuais teóricas e referenciais de dois desses que foram os principais ativistas e intelectuais negros brasileiros do século XX. Whellder Guelewar e Ana Caroline se voltam para o próprio processo interno de elaboração e do projeto Terça Afro para formular questões em torno que designam: Novas formas pedagógicas possíveis. Destacam os encontros em as psicólogas Maria Miranda, Maria Lúcia e Clélia Prestes, do grupo AMME Psique e Negritude. O foco é a escola, percebida como local de sociabilidade onde as crianças negras sofrem com experiências racistas que afetam definitivamente sua psique, entendida como percepção do mundo e autocostrução simbólica. Em Lesbianidade e negritude, Jéssica Ipólito traz para e reflexão uma nova percepção de intersecção entre identidade sexual e identidade étnica, pondo em evidencia o I Seminário Nacional de Lésbicas (conhecido como SENALE), transcorrido no Rio de Janeiro na década de 199º. Define como tendo sido “um espaço de interação política, construído por lésbicas e mulheres bissexuais, com a finalidade de estruturar, refletir e discutir as demandas específicas das lésbicas e bissexuais.” Historiciza as organizações sociais especificamente voltadas a luta contra a intolerância comportamental da lesbofobia e construção de uma cidadania lesbiana. Explora as conexões entre racismo antinegro e as desigualdades de classe e gênero.
Em “Continuidades bantu-africanas”, Tatiane de Souza Silvério vislumbra elementos civilizatórios centro-africanos nas culturas afro-brasileiras, especialmente na forma expressiva complexa conhecida como Congadas, Congados ou Congos. Interpreta tais influências, como permanências de singularidades africanas nessas práticas culturais e religiosas, negritando princípios civilizatórios como valorização dos ancestres e as formas de culto aos antepassados traz para a publicação. Carlos Machado sustenta que só uma Ciência Negra pode operar a “descolonização do saber”. Repudia a suposta valorização social dos negros por meio da cultura artística e o entretenimento e reflete sobre a projeção do imaginário racista sobre a incapacidade dos negros para a razão cartesiana, ou cientifica e levanta hipóteses do impacto disso na realidade contemporânea. As revistas de comportamento e a consolidação de estereótipos raciais, o pesquisador Dennis de Oliveira, visita jornalismo contemporâneo e estuda as publicações segmentadas, as revistas de comportamento e observa o mundo do consumo onde se pode observar padrões estéticos e estereótipos com conotações étnicas permanência do racismo da ideologia do branqueamento.Em dialogo com Muniz Sodré interpela a “disseminação de uma normatividade associada aos fenótipos brancos.” Recorre alternadamente a metodologia analítica qualitativa e quantitativa para demonstrar os mecanismo no racismo antinegro nos meios midiáticos, agora entendidos como importante ferramenta da manutenção da dominação racial.
*Salloma Salomão Jovino da Silva é Músico, Performer e Produtor Cultural. Pesquisador de Culturas Negras. Doutor em História Social pela PUC-SP com estágio no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. **Leia a matéria completa em: A definição da Consciência Negra - Por: Steve Biko - Geledés. http://www.geledes.org.br/definicao-da-consciencia-negra/#ixzz3q5znayoM

sábado, 28 de novembro de 2015

Escrituras, Cultura, Culturas letradas e percepções do racismo antinegro. Tudo junto e misturado?

Fonte- Acervo da rede web. Por Salloma Salomão Jovino da Silva Paulo Lins é certamente um dos escritores mais prestigiados do mercado editorial brasileiro contemporâneo. Não há duvida de que na forma, sua escrita colocou em cena um mundo social ofuscado pelos estigmas de miséria, violência e racismo. Diferente de Carolina Maria de Jesus, Lins experimenta com justiça e em vida, a visibilidade, o prestígio e trânsito sócio-espacial, pouco comuns aos criadores culturais negros e periféricos no Brasil. As culturas musicais e literárias urbanas brasileiras produzidas e relativamente evidenciadas dos anos 1990 para cá, tem tematizado e sido produzida por pessoas advindas das favelas, suburbios e periferias, não apenas do sudeste. Considero que Ilê Ayê, Racionais, Chico Sciense e Ba Kimbuta, assim como Paulo Lins, Sergio Vaz, Ferrez, Allan da Rosa e Jenifer Nascimento, descontando os tempos, os modos e paisagens, podem ser entendidos como cenas de um longa fragmentado e de difícil interpretação. Um filme sonoro, uma cacofonia emocionante. Uma película inédita e de epílogo incerto, cuja diretora é a história, essa deusa conhecida e estranha, que não sabemos a origem e nem compreendemos os desígnios. Nessa segunda-feira dia 13 de Abril, Paulo Lins fez uma visita surpresa ao Sarau do Binho em Taboão da Serra. O sarau é ambulante, mas faz algumas paradas, sendo realizado também no Espaço Clariô de Teatro. Lins estava bem descontraído e provocado pelo Binho, contemplou a todos com uma explanação livre e muito interessante de sua experiência como escritor e nos deu alguma idéia da percepção (não tão concisa quanto seus textos) que tem de história e cultura e sobre a sociedade brasileira atual. Entre outras coisas contou que, ao ser interpelado por canal de televisão estrangeiro a respeito de sua condição, de ser o único negro em um grupo de 40 escritores brasileiros, selecionados para a Feira do Livro de Frankfurt na Alemanha, respondeu não ter notado ou pensado sobre este fato. Contudo, ao fornecer dados de sua biografia, situou importância sociocultural dos morros e favelas cariocas e enfatizou a “Pequena África”, como parte do imaginário que influencia sua vida e obra. Após confidenciar que mora em São Paulo há um ano, encerrou a conversa com um belo e emocionado poema em homenagem a sua mãe. Há entre nós na periferia sul, um poeta muito bacana que quer criar a Academia Periférica de Literatura. Não considero impossível imaginar no futuro Paulo Lins, talvez como o segundo escritor negro, e o primeiro autodeclado, na prestigiada instituição: Academia Brasileira de Letras. A escrita ocidental foi seqüestrada e transformada em tecnologia de combate contra a desumanização de escravizados africanos pela primeira vez por Olaudah Equiano, um ioruba, que viveu, lutou e morreu na Inglaterra no final do século XVIII. Muito cedo textos técnicos e administrativos em português arcaico e latim foram produzidos por centro africanos ante aos contatos coloniais. Alfabetizados negros surrupiaram as técnicas de escrita musical aos eruditos brancos e produziram cultura música no Brasil desde fins do século XVII. Acompanhando Paul Gilroy, podemos mesmo dizer que, os textos abolicionistas de homens e mulheres negras que circularam no mundo atlântico, consistiram na primeira forma literária singularmente negra, confeccionada com utilização da grafia ocidental e tinham cunho artístico inegável, assim como objetivos políticos confessos. No Brasil atual as mais altas taxas de analfabetismo são verificadas entre os pardos e negros. A exclusão escolar é fato inconteste e o racismo antinegro tem uma função especial nesse quesito. A modernidade não existiria sem a expansão excepcional da escrita e da leitura. O racismo antinegro não seria não eficaz no Brasil, não fosse a exclusividade de escolarização média e superior dos eurodescendentes. Quem lê no Brasil? O que se lê no Brasil atualmente? O movimento dos saraus tem gestado um novo mundo de leitores e escritores nas periferias brasileiras. Aqui e acolá, pessoas e coletivos indicam a existência efetiva de uma nova cultura escrita apropriada por novos agentes sociais cuja escolarização formal não atinge o ensino médio completo. A faixa composta de novos e desconhecidos leitores desenvolvem hábitos de consumo livreiro pouco compreendido e até desconsiderado em quanto tal, inclusive pelos produtores e livreiros periféricos Esse mercado de consumo de livros faz circular obras, contra-ideologias, temas e, materiais ainda não capitalizados pela indústria cultural. Até quando? Algumas questões cruciais, a saber, são: Até que ponto os produtores culturais marginais, negros e periféricos estão produzindo valores culturais efetivamente novos e anti-hegemônicos e até que ponto buscam simplesmente estratégias para serem incorporados pelas estruturas institucionais da cultura dominante nacional? Até que ponto tem consciência ou não do abismo social e cultural que distinguem e separam os setores negromesticos e subalternos em relação às classes médias e altas dentro da sociedade brasileira? Até que ponto suas criações tomam esses mundos apenas como forma, mas não como conteúdo? Diferente da produção de Paulo Lins, a criação e circulação periférica de literatura, não conta com nenhuma estrutura profissional de propaganda e difusão. Talvez de fato nem possa ser designada mercado, nos termos em que trabalha a indústria cultural livreira. Exceto um ou outro poeta ou escritor consegue transpor a geografia dos Saraus e estabelecer diálogos e padrões de vendagem “autosustentaveis” e continuidade criativa. Entretanto, é possível visualizar um quadro futuro onde a leitura e escrita não sejam mais privilégio de classe de e raça, exotismo ou rara exceção no Brasil. Em função de uma realidade social cruenta Lins, assim como o cineasta Jeferson D têm que experimentar a estranha sensação invertida da síndrome de elefante branco. Os mecanismos psíquicos que cada individuo recorre para responder a esse fenômeno são investigados pela psicologia social do racismo antinegro (desde F. Fanon), que indica que pode resultar na inflação da alma, no qual o artista, escritor, ator, cineasta, cientista pode aproveitar para curtir um sentimento de iluminação e centralidade expositiva, pela sua condição de estrela (relativamente) absoluta, cujo brilho se reverte para dentro. De outro modo se poderia, diante desta situação, também podem ter a experiência de se perceber internamente dilacerados por um sentimento de incompletude da assimilação racial e cultural, quando se descobre que pesa mais a atenção sobre si do que sobre suas obras. Alguns verbalizam pouco sobre o fato de viverem assolados pela angustia de passar a viver em um mundo branco demais. Tenho coletado dados e impressões sobre dois diferentes tipos frustração entre criadores de teatrais negros engajados, por exemplo, quando buscam em vão o reconhecimento de suas obras pela crítica teatral convencional e pelo setor profissional a que pertencem. Por vezes não conseguem compreender que o sistemático desprezo que suas criações sofrem, se deve tanto ao inusitado do seu lugar e perspectiva, como pode ser também entendido como uma forma simbolicamente violenta reação do meio cultural hegemônico onde suas produções teimam em querem se inscrever. Um setor social e profissional que não admite a idéia de concorrência advinda de fora do círculo, por isso a denunciam como alienígena, estigmatizando-a pelo fato que não se enquadrar nos padrões “normais” de criatividade e fruição. Avisado por Guerreiro Ramos sobre o papel da autofagia entre nós, não mais podemos alegar ingenuidade. Também estamos bem atentos para a complacência estética e paternalismo político, social e cultural enraizados nesse padrão de sociedade que herdamos. Como podemos construir um modelo interno de crítica capaz de estimular a criatividade, fomentar a visibilidade e buscar a unidade política que necessitamos para suplantar a hegemonia da branquitude? É preciso sofrer de um nível elevado de alienação para não perceber as barreiras e fronteiras sociais, raciais e culturais que estruturam a sociedade brasileira. Nesse sentido o lema “tudo junto e misturado”, quando se faz habitar a boca de gente marginalizada, vem como forma de Ironia. Aliás, esse recurso lingüístico tem sido historicamente um dos melhores utilizados na literatura mundial negra. Haja vista seus níveis rebuscados em obras oitocentistas como de Mohamma Baqaqa, Maria Firmina dos Reis e Harriet Jacobs, ou ainda Alexandre Dumas, Frederick Douglass, Manuel Querino, sem falar nos mestres na arte da camuflagem e do jogo semântico, Machado de Assis e Lima Barreto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

NCA- Do vídeo popular ao circuito de criação e circulação do cinema-vídeo periférico.

NCA- Do vídeo popular ao circuito de criação e circulação do cinema periférico. Salloma Salomão Jovino. Ainda estamos na beira, mas já conseguimos sentir o frescor da brisa que vem da periferia da cidade de São Paulo. Podemos perceber sua caricia sobre a pele da alma, principalmente quando temos em mente uma necessária e urgente renovação cultural, que injete um pouco de alento, ânimo e saúde nas gerações paulistanas do presente e do futuro. Aqui nossa conversa gira em torno da cultura da imagem vista de fora para dentro, da periferia para o centro, dos sem-cinemas para as salas Cult do SESC, Unibanco e Belas Artes. Estamos checando os limites do jogo de manipulação de imagens étnicas sociais e de formas de (in)subordinação do cinema e vídeo. Há outros desígnios para as capturas e edição imagética, que não estão previsto nas cartilhas das escolas superiores de cinema, vídeo, propaganda e marketing, nem pelos catálogos das elites culturais e midiáticas. Essa troca de ideias aqui postas só é possível em função de 4 obras da videografia periférica dos últimos 15 anos, visualizamos também dezenas de autores e títulos de documentários e ficções experimentais lutando por espaço de criação e circulação a partir de periferias geográficas, socais ou culturais. Temos aqui, veementes indicações da necessidade de construção de um circuito periférico ou descentralizado, sistemático e regular de criação-exibição de cinema-vídeo em São Paulo e no Brasil. E isso somente pode ser feito com aporte de recursos públicos, dentro de uma política formulada para esse fim específico. Não são muitos os membros do grupo fixo ou aqueles circulantes e intermitentes colaboradores do Núcleo de Comunicação Alternativa ou NCA, eu os encontro constantemente por aqui, nos eventos da ponte pra cá e já os posso ver circulando bem além dos espaços restritos aos pobres, pretos, periféricos e putas. Quero dizer que tomo conhecimento da circulação da produção desse grupo de pesquisadores de imagens e sons, em lugares que antes eram circunscritos aos produtores bem nascidos, filhos de intelectuais e cineastas, ou crias das grandes agencias de cinema, televisão e propaganda. Esse é um sinal de que uma efetiva mudança sócio-cultural está em curso. Os produtores culturais que falamos aqui são, em sua maioria, filhos de operários, netos de imigrantes e migrantes que foram obrigados a comprar terrenos mais em conta, nos arredores mais longínquos da metrópole. Somente mais tarde vieram as leis que os transformaram em clandestinos ou perigosos “invasores de mananciais”. Por sua origem étnica e social, qualquer coisa que produzam são, ideias e objetos criativos de antemão, marcados pelo signo da margem. Não é lamento, nem destino, é relação. Neste caso são jovens do sexo masculino e seus tons de pele que vai do negro mais retinto ao branco nórdico e se portam como irmãos, irmão de sonhos e lutas. Todos sabem sobre ao racismo que atinge a juventude e não fingem serem iguais, porque conhecem a política racial das forças de segurança e dos sistemas judiciários e carcerários. Tem na ideia de igualdade uma utopia, uma promessa de redenção e não uma ideologia mistificadora aprendida na escola eurocêntrica e nacionalizante. Jovens corpos-câmeras, corpos-computadores, corpos-ideias que atuam, criam, circulam juntos e misturados. Mas, não se iludem com o discurso oficial de tolerância e equidade da cidade, do estado e do país. Conhecem muito bem o racismo, as segregações e apartações de toda ordem, e por vezes tomam tais práticas e ideologias como conteúdo, que revertem em criações estético-políticas, configuradas em Imagem-tempo-som, chamemos videografia. Na paisagem onde vivem, vinte ou mais podem ser mortos pelos abutres em apenas uma noite, ante um silencio geral. Suas escritas são de baixo custo, baratas, tanto quanto suas vidas e de outros como eles, como nós. Antes que as câmeras de VHS se tornassem minimamente acessíveis, um jovem professor de Geografia morador do bairro do Campo Grande, chamado Jorge Alberto Prat, havia tido uma experiência como assistente de produção em cinema na equipe de João Batista de Andrade. Entusiasmado, juntou recursos próprios, amigos músicos e atores para filmar e editar em Super8, uma ficção denominada “O Tabaco” (1986). Durante algum tempo esta foi a única tentativa de criação cinematográfica naquele contexto, ao menos que eu tenha tido conhecimento. Evidente que os limites eram dados pelo altíssimo custo dos equipamentos, películas e revelação. Ainda hoje, o cinema produzido em película continua extremamente caro e inacessível aos de baixo. O que divide o acesso a uma e outra tecnologia é o mesmo que divide a cidade entre o centro e as margens externas dos Rios Pinheiros, Aricanduva, Tiete, Pirajussara, M´Boy e Tamanduatei. Escritas imagéticas das beiras. As primeiras câmeras analógicas portáteis de vídeo chegaram à zona sul, compradas pela administração pública e, emprestadas aos movimentos sociais das regiões de Santo Amaro e Capela do Socorro. Sou testemunha ocular,diretamente beneficiado com tal processo de alargamento. Naquele contexto os cineclubes rarefeitos faziam sessões nas igrejas e sedes de movimentos sociais no Jardim Primavera, Vila São Jose e Vila Remo. Eufraudísio Modesto, um capoeirista e Cantor Baiano foi um pioneiro nessas exibições itinerantes. Contudo, as primeiras imagens documentais e experimentais foram feitas por ativistas e fuçadores de imagem no contexto de um curso de Documentação e Memória Popular, realizado pelo Departamento Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura, sob a coordenação da professora Maria Célia Paoli. A demanda dos movimentos sociais e culturais reunidos era a criação institucional de um Centro de Memórias dos Movimentos Populares da Região e sua sede deveria ter sido a “Casa Amarela”, na Praça Floriano Peixoto em Santo Amaro. Avalio que o projeto não saiu do papel, porque a secretária Marilena Chauí e sua assessoria estavam mais interessados nos eventos internacionais para intelectuais acadêmicos que acorriam a Biblioteca Mario de Andrade e Centro Cultural São Paulo.Eventos regados a champanhe francesa, para discutir o Descobrimento e o advento do pensamento Iluminista na Europa, que pomposamente chamavam de “A Modernidade”. Ainda naquele começo da década de 1990 a Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP) cedia ou alugava seu vasto e diversificado acervo aos ativistas dos movimentos, negros, populares, sindicais, para organização de mostras e formações políticas. Muitos desses filmes eram históricos (sobre fatos e personagens da historia oficial do país) ou documentários financiados pelos sindicatos. Naquela época nem se fala em Fundos de Pensão. As preocupações giravam em torno de um uso fundamentalmente pragmático dos filmes e dos equipamentos, já que câmeras, mesas de edição e sistemas de exibição continuavam sendo extremamente dispendiosos. Quando a ABVP (Associação Brasileira do Vídeo Popular) inaugurou um sistema de edição em sua sede, naquela época situada na Rua Treze de maio no Bairro Bexiga, também chamado Bela Vista, corremos todos lá com sacolas de fitas VHS e uns rabiscos de roteiros feitos as pressas. Essa captura da tecnologia da imagem e som na periferia foi simultânea a percepção de que nós, os periféricos, erámos muitos mais que aquelas imagens estereotipadas que veículos de comunicação impressa e televisiva projetavam sobre nós. Essa mudança de sensibilidade também se operou no campo da criação musical. O REP (ritmo e poesia), como um dos elementos da cultura HIP HOP, embora de origem no norte, foi submetido a uma forja cultural muito própria dxs jovens negrxsbrasileirxs, ou seja, sua estética assimilou a experiência local, até ser convertida em posição política totalmente inovadora. Periferia agora é perspectiva identitária e política, modo de ver e de vida. A partir da Zona Sul, Periferia se tornou uma plataforma discursiva, onde pertencimento, criação cultural e especificidade da visão de mundo se coadunam para propor alternativas de auto organização ou também para fazer denuncia sistemática das desigualdades, violência de estado, marginalização social e do racismo antinegro. Em 1990 um grupo musical local cantava “Estamos jurados de morte pelos policiais”, durante apresentação na Casa de Cultura de Interlagos, nos encontros regionais de “Cultura de Rua”, organizados por Pivete (Pavilhão Nove) Ângelo Flores e por mim. O REP nos trouxe muito mais que isso. Quero dizer, hoje sabemos que ele foi mais que uma forma contranarrativa. Foi o prenuncio de uma efetiva mudança cultural que encontrou nas linguagens artísticas e uso das tecnologias literárias, musicais e imagéticas, os suportes necessários para construção da paisagem cultural que vemos hoje. No campo da literatura creio nem ser necessário enfatizar as filiações entre Ferrez, Sergio Vaz, Allan Da Rosa e Robsoul com a cultura Hip Hop. Por ser São Paulo a cidade mais rica e luxuosa do país, é também por puro contraste aquela onde as iniqüidades se pronunciam de forma mais radical e aguda. Por ter a maior arrecadação tributária poderia ser também aquela onde se oferecem os melhores e mais abrangentes serviços públicos e a cidadania democrática e republicana se exercesse sob padrões mais razoáveis. Mas não, décadas a fio a coisa pública paulistana tem sido presa da gatunagem, da expropriação e do descalabro. Somente recentemente tem sido repatriado parte dos recursos desviados para contas em paraísos fiscais, durante as gestões Maluf e Pita. Milhões de reais de uma única obra, aquela de construção da Avenida Roberto Marinho que deságua na Rede Globo, limite das zonas Sul e Oeste. O córrego morto da Zavuvus corre no mesmo sentido no outro lado do morro da Santa Catarina. São Paulo é seguramente o mais rico mercado de entretenimento do país, cujo custo individual de um espetáculo ou evento da moda, pode valer até 2 salários mínimos e tem um contingente razoável de pessoas disposto a pagar para consumir. Seja em nome do status ou do sentimento de alta exclusividade. Hordas de jovens negros e pobres perdem seus capinhos para obras publicas, sem choro. É isso ou nada. De vez em quando, uma casa de cultura abandonada, aqui e ali um CÉU, uma Fábrica de Cultura, uma unidade do SESC. De outro lado equipes de baile, selos musicais de Pagode e Rep encontraram na periferia esses bandos de jovens ociosos e sem alternativa de lazer. Black Mad, Chic Show, Zimbabwe fomentaram ali seus empreendimentos. Alguns protagonistas dessa cena inicial, hoje ditam normas de comportamento e participam das decisões corporativas e públicas nas áreas de entretenimento, cultura a lazer, em instâncias que naquela época eram inimagináveis.Antonio da Silva Pinto, por exemplo, trabalhou nos governos municipal e federal, recentemente foi responsável na cidade pela “organização” dos fenômenos conhecidos como “Rolezinhos”. Por Rolezinho entenda atividades de lazer auto-organizadas por e para jovens pobres, que combinam formas de dança urbana, consumo e entretenimento. Desde 2012, grupos cada vez mais significativos numericamente passaram a se encontrar em estacionamentos de centros periféricos de compras e foram duramente reprimidos por seguranças privados destes estabelecimentos, como também pelas policias civil e militar. Alguns dos lideres foram seletivamente e misteriosamente assassinados, sem que as investigações houvessem chegado aos responsáveis direta ou indiretamente. O governo da cidade, por meio da ação do Ex-Secretário Municipal da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, tem buscado constituir uma estratégia de mediação entre empresários dos shoppings e as forças de segurança. As culturas periféricas mudaram muito em São Paulo nos últimos 20 anos. Essas mudanças vêm sendo estudadas a partir da superfície, sobretudo com cartilhas sociológicas empunhadas por jovens pesquisadores medianos, que situados nos bairros de classe média alta da zona oeste, olham de forma romântica ou pitoresca para as regiões que se espraiam além dos rios. Os Rolezinhos são apenas uma parte indicativa dessas mudanças, mas foi também aquele que mais causou impressão aos veículos tradicionais de comunicação. Evidente que o imaginário das “classes perigosas”, tão comum a história moralista da cidade, foi novamente acionado e aparentemente cumpriu seu efeito regulador. Outro sintoma menos saliente e midiático dessas mudanças pode ser localizados em outro campo da cultura urbana, no fenômeno dos Saraus e Coletivos de Artes e Cultura. Alguns são formas longevas de auto-organização, criação e difusão artístico-culturais, outras são ONGs oportunistas e parasitárias que penetram no território, atraídas pelas possibilidades de exploração de mão de obra e obtenção legitimidade necessária ao acesso de financiamento em agências nacionais e estrangeiras. Até mesmo o famoso empresário dos negócios de show, o apresentador de TV conhecido como o Luciano Hulk abriu uma ong por aqui, para fazer benemerência com dinheiro de renuncia fiscal. Quer dizer, tanto ele como Gilberto Dimenstein, Paula Lavigne e a família Setubal circulam nessa geografia em carros blindados seguranças particulares, mas não deixam de lucrar duas vezes. No geral,tais instituições têm em comum um discurso público de cunho paternalista-salvacionista e a prática sorrateira de apropriação da coisa pública. Seus proprietários têm livre trânsito nas grandes empresas de comunicação.Compõem suas equipes de coordenação captando executivos do entretenimento e educação.Estes formulam projetos mirabolantes para captar recursos privados e também os aprovam nas leis de incentivo fiscais e, sobretudo, celebram contratos milionários sem licitação, em escandalosas relações (não reveladas) com agentes do poder estatal. Mas essa cultura é a mesma das elites do império, que se readequaram a República, se esbaldaram nas ditaduras e costuraram novas práticas ao longo da redemocratização. São novas elites, mas a cultura do mando, prestígio e utilização privada das instituições estatais, continua algo inalterado. No entanto enquanto a cultura das elites se mantém inalterada as classes subalternas, parecem tem encontrado novas formas de sabotar o domínio. O REP abriu caminho para surgimento de um movimento literário cujos frutos tem animado novas gerações e é tão vasto, fundo e intenso, que não cabe aqui repercutir. Também a linguagem teatral foi seqüestradas organizações estudantis de classe média e hoje configura uma painel de quase meia centena de grupos e coletivos que se espalham em ocupações e cessões de espaços públicos e sedes alugadas de Piraporinha a Penha, de Grajaú a São Miguel, dos Morros da Freguesia até Perus ( Viva Quilombaque), dos fundos de Jardim São Savério até os confins da Vila Nova Cachoeirinha. Também as “Artes Plásticas” já não são territórios seguros dos museus e galerias de artes que se concentram num raio de 2 mil metros do MASP. A produção de materiais específicos de algo que podemos designar Artes Visuais, hoje circulam pelo Zé Batidão (local dos encontros da Cooperifa), Sede da Brava Cia de Teatro, Bloco do beco, da Casa Popular de Cultura de M´Boy Mirim e principalmente pela rede social, mas seus lugares de exibição são principalmente muros e fachadas de prédios. Entretanto, é no campo da produção videográfica que a coisa saltou de uma linguagem calcada no documentário tradicional, voltado a revelar a memória de uma cena ou personagem esquecida, para outro nível de criação, onde a questão estética tem sido cada dia mais central. Não que os materiais dos anos noventa o crivo da crítica interna não estivesse atenta a este aspecto, mas num primeiro momento a questão da memória e da documentação da história local recentes eram mais prementes. Isto porque percebíamos que uma experiência de luta e organização popular como características da região, que corriam o risco de desaparecer, com o processo de rápidas mudanças que se observavam naquele momento.Numa espécie de neofolclorismo periférico queríamos resguardar “coisas populares”, já que conceito contemporâneo de “periferia” não era tão desenvolvido naquela época. De fato, nas décadas seguintes a desindustrialização, a política urbana e despolitização mudaram completamente a paisagem sociopolítica e cultural dos antigos sertões de Santo Amaro. As indústrias que abundavam ao longo da avenida Nações Unidas e imediações da avenida João Dias, se automatizaram e migraram em massa para o interior ou para outros estados da federação. Outras simplesmente quiseram fugir a ação dos sindicados e seguir em busca de maiores renúncias fiscais. Nos seus lugares entraram os shoppings e condomínios enormes de classe média. Os moradores mais pobres,novamente foram empurrados para o subemprego e para as margens das represas e zonas sem serviços públicos, como para os limites das áreas semirurais. Em contrapartida alguns dos antigos sindicalistas e ativistas encontraram na política partidária, uma ferramenta mágica de ascensão social. De lá para cá ampliaram seu patrimônio de tal maneira, que atualmente, alguns daqueles residem nos bairros mais nobres da cidade, inclusive Higienópolis e se surgem na paisagem periférica é porque estão próximos os meses que antecedem o pleito eleitoral. Aliados com os antigos vereadores grileiros urbanos e donos de imobiliárias clandestinas, hoje compõem uma nova casta de mandatários locais, mas em geral se portam como aquilo que são:“feitores ausentes”. As imagens fotográficas e vedeográficasrecolhidas por muitos de nós (Helder Girolamo, AntonioPassaty, Jansem Rafael, Jean Pixaim, Kaká Werá, Antonio Pinto, Maga Lieri, Cladinei Domingues, Edson Hengles, Salloma Salomão, etc) nos anos 1990,narram os meandros desse processo de mudança social e cultural. Fotógrafos, videomarkers, cineastas ocasionais mantém ricos acervos particulares, apenas aguardam a oportunidade de doar seus materiais para alguma instituição pública, que seja capaz de digitalizar, preserva e difundir. O leitor me desculpe tanta divagação, mas achei necessário estabelecer um ponto temporal na reflexão sobre videografia e periferia sul. Alguns dos filhos de produtores culturais dos anos 1970-1990 hoje podem ser encontrados nos coletivos de arte e cultura que pululam na região. Apenas esse fato já poderia ser alvo de uma longa investigação e reflexão em torno da continuidade do fazer artístico-cultural periférico ao sul da metrópole. Entretanto o objetivo principal desse texto é refletir sobre a produção videografica do Núcleo de Comunicação Alternativa, a partir de quatro títulos: *Imagens de Uma Vida Simples – 2006, **Hip hop: África - Brasil, apenas um oceano entre nós – 2007, *** Pé no Quintal – 2011, ****Djandjuma: Nossa Essência – 2012. Pronto baixei. Assistindo os 4 filmes, distribuídos em um período dez anos não fica nitidamente desenhado uma evolução do trabalho, embora seja possível distinguir mudanças técnicas. Aliás, a própria ideia de evolução, hoje é bastante questionável se embaralhar os títulos não dá para saber qual nasceu antes de qual.Mas é espantoso saber que esses trabalhos iniciais foram construídos com parcos recursos humanos, técnicos, materiais e financeiros. Mais espantoso ainda é perceber o grau de investimento na pesquisa social e histórica que envolveu um prévio conhecimento de biografias como Solano Trindade e o artista negro Mestre Assis, parceiro de Solano na criação da Feira de Artes e artesanatos de Embu. Em “Retrato de uma vida simples” as câmeras refazem os caminhos de Solano em São Paulo desde os anos 1960, por meios de imagens e falas de seus parceiros e familiares. Demonstram, que descontando o contexto e cultural local colonial, o conceito de capital cultural de Pierre Bourdieu pode ser aplicado plenamente à produção intelectual de Solano Trindade, cujo saber fazer se desdobra nas biografias de seus filhos, netos e bisnetos e repercute também na produção musical, teatral e poética de protagonistas que gravitam em torno de uma centro cultural construídos em sua memória na cidade do Embu das Artes. Aos poucos imagens e sons vão descortinando e esquadrinhando a biografia de uma das figuras mais produtivas da cultura negra urbana do século XX. Entretanto ao aspecto mais importante do trabalho é a elaboração de uma narrativa que mostra o vigor de uma história cultural, que desprezada pelas mídias massivas e pelo mercado editorial, encontra na cultura imagética e videografica popular e periferia uma suporte de recuperação, permanência, disseminação e longevidade. Solano é um dos construtores da noção de identidade negra que temos como patrimônio. E ele estava junto com Gilberto Freire quando se organizou o Congresso do Negro Brasileiro em Recife em 1936. Também se encontrava no Rio de Janeiro quando Abdias do Nascimento, Maria Nascimento e Guerreiro Ramos organizaram o Teatro Experimental do Negro. Foi pioneiro na construção de uma perspectiva do homem negro e da valorização da figura feminina negra. Capulanas Cia de Artes Negras se apropriaram da estética literária de Solano para reconfigurar um discurso de afirmação da mulher negra, algo absolutamente inaudito, tendo em vista o contexto periférico, antecedido apenas por Zenaide (Jadile) Silva que escreveu e encenou “Zumbi Mulher”, nos inícios de 1990. A obra de Solano ainda inspirou Coreografias de Gal Martins e seu coletivo de dança Sansacroma e novas criações musicais de Vitor Trindade seu neto e letras de REPs de seu bisneto Zinho Trindade. O filme do NCA capturou essa cena no momento em que acontecia. Por vezes podem ser pegos em discurso sobre técnica e se deixar levar pela intenção de justificar qualquer deficiência técnica ou de linguagem.Podem simplesmente contextualizar as condições de surgimento e circulação desses trabalhos, que já fazem parte da história cultural da cidade. Mesmo que as narrativas oficiais estejam viciosamente imbricadas nas produções das elites. Até que surgisse a cena da cultura Hip Hop e a música REP se constituísse uma voz altiva e ativa das coletividades periféricas de São Paulo,os arredores da cidade eram alvo da abordagem desumanizadora de jornais impressos e programas de rádio e televisão. Espetacularizavam a violência e remetiam as imagens sobre a periferia para ela mesma. Alimentando e realimentando a ideia de uma geografia perigosa, estigmatizando as populações e construindo o binômio pobreza/violência. Essa combinação de ausência de políticas públicas e estigma social justificaria tanto a ausência de investimentos, quanto o foco das políticas oficiais e extra-oficias de segurança e controle social. Por exemplo, legitimando a ação dos profissionais públicos da morte, policiais e pés-de-pato, matadores privados. O NCA e outros coletivos de invertem a lente dessas mídias e discursos e localizam os nichos de luta diária pela sobrevivência física e psíquica. Quais sejam suas próprias vidas. Também é surpreendente imaginar que jovens da periferia atravessaram o atlântico para vislumbrar culturas urbanas da África contemporânea. Segundo Daniel Fagundes Karoço, “ Os primeiros trabalhos foram feitos muito na raça, com câmeras emprestadas ou alugadas e na vontade sincera de registrar os fatos narrados.” Portanto estamos falando de uma experiência cultural e videográfica específica, que nasce na periferia sul de São Paulo, mas há muito que já não se encontra confinada nessa geografia. Qual a importância da extrapolação geográfica? Digamos que uma das caraterística fundamentais da subalternidade social seja, também, o confinamento geográfico. Aqui não se trata da apologia aos sistemas de comunicação digital, ou a comunicação w.e.b, efetivamente o deslocamento do corpo de sujeitos negromestiços para além daqueles territórios da existência da geração dos seus pais e avós. Alguns deles passaram a vida entre o trabalho fabril e o local de moradia. Erguendo barracos nos loteamentos dos Bochilieri nos confins do Santa Margarida, Angela e nomes afins. Mas é também um deslocamento cognitivo, o vislumbre de novas paisagens e outros lugares de criação, emissão, discurso e poder. Esse deslocamento na paisagem pode ser potencializado pela capacidade de fluxos de conteúdos via internet. Ainda não sabemos até que ponto são efetivos os vínculos extra-territóriais concebidos a partir da rede. Sambemos sim, que há articulações físicas entre e cena Hip-Hop de Berlim e o extremo leste da metrópole, a cena Capoeira da Zona Sul e Viena, isso porque acompanhamos os desterramentos de capoeiras, artistas e ativistas em novas diásporas. Geralmente migram em busca de melhores condições de criação e de vida. Quais são os temas da produção do NCA? Como funciona o sistema de criação e produção do grupo? Qual perfil social dos seus protagonistas? Que tecnologias dominam e que técnicas aplicam na construção dos seus materiais? As três primeiras perguntas, creio já ter respondido acima. Vamos as duas que faltam. Sem exceção seus temas giram em torno da produção cultural na qual estão totalmente inseridos, quais sejam: Música, teatro, dança, identidade, diversidade, negritude.Trata-se do formato documentário, mas dizer isso é pouco. Essa forma de documentário na qual os produtores encontram-se totalmente implicados como agentes produz efeitos muito mais complexos e duradouros do que a forma tradicional de exploração temática ou contextual, na qual o registro é feito por agentes externos.Seus trabalhos trazem um dado real e dramático, uma urgência calcada na brevidade das vidas periféricas. E esse fato se reforça quando fazem registros como os últimos depoimentos e imagens de Tarcísio Rosa do Grupo Fé, Mestre Assis do Embú, Dona Luzia Caetano e Daniel Alves do Ballet Afro Koteban. Seus contextos bordados pelas muitas artes da família Trindade, a dramaturgia e o teatro da Cia Capulanas de Artes Negras, os Saraus do Binho, da Roça, da Cooperifa, Do Grajau, do Clamarte e tantos outros que nascem e morrem nas beiras das represas, córregos e rios quase mortos. Suas cenas são grupos de dança e grafite, música e artes integradas. Seus registros nos alertam para uma postura de positividade e valorização da vida, que encontra na arte um sentido mais alargado da existência em sociedade. Há nesses trabalhos uma forma de potencialização criativa, que tem efeitos pedagógicos, políticos e estéticos. Porque ao deslocar nossa percepção para dentro, alteram o jogo do poder. Fazem isso criando em nós uma nova capacidade de representação de nós mesmos e dos outros. Destituir as classes superiores e as elites culturais da prerrogativa exclusivista e sua capacidade técnica de construir imaginários sobre nós, pode não alterar significativamente as relações de poder, mas certamente instaura o início de um outro tempo, no qual as desigualdades deixam de ser um tabu ou um dado natural. http://www.edicoestoro.net/entrevistas/18-cinema/50-daniel-fagundes-nca.html file:///C:/Users/Anna%20Raquel/Documents/Downloads/histo%CC%81rico%20NCA%20Novo.pdf https://www.youtube.com/watch?v=Lhf-B6pF8JA https://www.youtube.com/watch?v=UJ2yqbV0dkI https://www.youtube.com/watch?v=B3Rz7UWZcW8&list=PLkCkOvfu85yQBl6s0YIqjub9aQfOvkMdm https://www.youtube.com/watch?v=icwno4uJkSU&list=PLkCkOvfu85yQBl6s0YIqjub9aQfOvkMdm&index=4