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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Cds Salloma Links gratuitos

https://soundcloud.com/salloma-salomao/sets/aurora-negra
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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Reza de Mãe. Livro de Allan da Rosa

COSTAS LANHADAS (Revides e Segredos antes do 13 de Maio)
Por Allan da Rosa (Santos)



O interior paulista era um paiol de pólvora nos anos antes do 13 de maio. O medo saía no mijo dos barões, donos de vastos alqueires, e dos advogados encastelados nos escritórios de luxo, mas também aterrorizava os sapatudos que tinham uma merreca de três ou quatro escravizados pras negociatas miúdas cotidianas, porçãozinha de três ou quatro mandados mal nascidos chupados na jugular, gente, carne com sonho e memória e raiva. Meras peças para alguns, a negrada sentiu a hora do arranque, da retomada de si, sem dó. Décadas antes do 13 de maio que cuspiu uma liberdade requenguela, cagona e manca, vogou um tornado em SP, uma tormenta de legítima defesa e de vingança nem sempre comida fria, que fazia fornalhas das hortas e espetava zagaias em quem tava acostumado a levantar o chicote, a pena ou a xicrinha de porcelana. Eram só um pedaço do mapa de sangue pisado e de dignidade remendada, as campanhas abolicionistas e as rinhas de tribunal onde reinava o amado e odiado Luiz Gama, proibido de entrar em muitas cidades e com a morte comprada uma penca de vezes mas que permanecia pilar na missão. As disputas em colunas de jornais liberais, monarquistas ou republicanos, os processos nos fóruns da hipocrisia que referendava com seu amém o direito à propriedade vampira... isso tudo era só um bocado da guerra que apavorou os abonados de São Paulo pelas estradas de vacaria, pelos chafarizes da capital e principalmente pelos campos de plantio, de tronco e de revide negro. A paúra arrepiava duques do café, azedava o jantar, trincava os lustres e ilustres. Milhares de pretos já tinham devolvido com fogo um pouco da fuleiragem, já tinham debandado pra outras paisagens paulistas com ou sem os tais papéis que lhes garantiam ser gente, gente encurvada por uma liberdade ganha ou comprada - e dessas tais cartas de alforria, que podiam valer só depois de muitas primaveras ou apenas na cidade onde foi carimbada, sempre havia o risco da má-fé que engrupia o dinheiro juntado gota a gota. Carta nula. Nossos avós seguiam varando rumo com os pés sempre descalços, mas agora levando nos ombros os sapatos que só gente livre podia ter, já que o pé não aceitava mais correias e apertos depois de uma vida pisando a sola direto no chão. Nos ranchos de meio de caminho, nas hortas novas, nas curvetas e nos becos urbanos onde se vendiam doces, se barbeava ou se carregava baldes e bacanas marcando o ritmo no lombo, rodavam as histórias dos acertos de contas com os fazendeiros. Histórias sem dó. Era nesse clima que, numa tarde em Capivari ou em Campinas, dois homens subidos de Santos já marcados com a queima na pele alertando sua rebeldia, depois da carga levantada desde a manhã, sentaram na sombra de uma mangueira. Mal a bunda assentou, súbita paranoia apontou o dedo lá da janela do casarão e o senhor gritou a acusação de levante. A madame que desfilava nos seus vestidos de cambraia e casimira, com suas jóias cintilantes veio até à janela ver a penitência nas costas dos seus escravos, a paga da insolência de tramar a morte de seus amos e a queima da fazenda. Negar não adiantou. Logo eles que ainda não tinham aceitado participar do que se armava pra dali uma semana com a malta de todas as fazendas vizinhas. Tomado de ira, o sinhôzinho veio empunhando o chicote. Mandou amarrar um, mas começou por sovar quem estava ainda sentado num tamborete. E descendo as chibatadas despejava uma ladainha sobre a ingratidão e o peso de administrar o mundo. Mas a cada lambada desferida nas costas do negro mais velho, ele ouvia um canto sussurrado em vez de gritos de dor. E despejava o rabo de tatu com mais força, xingando, tremendo, mas a lábia do mais velho continuava soltando um chiado ameno e ritmado. Ninguém diz se era curvado ou não que o angola recebia o arreio, mas a cada levada nas costas ele murmurava e se ouvia um grito, agudo, que vinha de dentro do casarão... Depois das tantas trinta vergastadas que o barão achou já ser lição, justiça pra ensinar sua propriedade a não desejar morte nem derrocada de quem lhe salvou de ser órfão, de ser mais um morrido de fome ou um demônio sem rumo; depois que acabaram as lanhadas que o barão, empapado de suor, derrubou na espinha do seu escravo, ele respirou, esfriou e viu que as costas do negro que cantava sussurrado estavam intactas, o pano arregaçado da camisa de napão não tinha um pingo de sangue. Por tanta raiva, o barão se preparou pra açoitar mais uma vez, com toda a força e medo que tinha e não tinha, mas atinou prum berro que vinha distante. Correu pra dentro da casa grande e ali ouviu uma longa agonia de último respiro. Viu, debaixo do vestido intacto de cambraia e casimira branca que desabotoava trêmulo, as costas lanhadas e arregaçadas da senhora dona que tombou gemendo no chão empoçado de vermelho.



COSTAS LANHADAS (Revides e Segredos antes do 13 de Maio) de Allan da Rosa
Por Salloma Salomão Jovino da Silva*
Tem algum lugar que o homem feito Allan da Rosa se demorou mais quando menino, entre a escola e o campinho, entre a casa e rua, entre a aprendizagem da vida e os textos escolares.  Não fosse isso não poderia arrastar tanta coisa miúda para lapidar e colocar nesses estandartes de veludo que ele, tropegamente, exibe na avenida de quando em quando. 



Não fosse o fio da navalha da vida, para quem aprende a viver em zona fronteiriça de não ser, não poderia assumir tantos compromissos em cantos extremos da cidade. Nem escapar as formas várias de autoanulação, jogando cartas com poemas de amores corpóreos e viris, em campos tão marcados por antagonismo mortais e redutores realismos.
Não fosse isso não poderíamos imaginar dele nenhum corpo de moleque pretuíndio bem nutrido de mandioca e banha de porco, atravessando a zona sul da cidade murada. Molek de borda e beira chacoalhando as madeixas pretas entre “brancos já pretos de tão pobres” e outras matizes marrons descaídas na pobreza lava. Driblar tudo e ainda trazer abraços pra nós das suas pontes digitais e imaginárias, feixes de ultravermelho no México, nos EUA e Mundo afora, com chinelo de dedo do Jardim Americanópolis. Polis americanas em favelas paulistanas, guias.

           Com Renato Gama, Adriana Moreira, Mariana Per e Melvin Santhana.

Ele ouvido de gravador K7 com fita que nunca acaba. Não é transcrição pura e simples, talvez sejam vidas passadas a limpo pelo lado avesso, sem auto-piedade, nem indicador de jurisprudente.  Fraseador reflexivo, devorador de negritudes gráficas e sonoras. Agora se sabe um observatório ativo de ambigüidades. Eu vou com ele até onde posso, quando canso, saio da roda. Já sou vovô.
O meu preferido nessa leva atual é: COSTAS LANHADAS (Revides e Segredos antes do 13 de Maio). Poderia estar numa lista de textos neo-abolicionistas pela temática. Mas insurge contra a linha narrativa fixada na benevolência senhorial. Também não embarca na idéia da incapacidade de revide, talvez seja porque tem em mente a tal luta de classes, mas não leva consigo o cânone da expectativa da intelectualidade branca  aplicada  a realidade escravagista brasileira e a sua inevitável frustração e conclusão simplista, mas duradoura.  Aquela que nos crucifica ainda hoje por algo que eles mesmos chamaram de “ausência de ímpeto revolucionário nas lutas negras no Brasil”.


Com Mariana per
Tema dolorido e muito mal trabalhado na vasta literatura ficcional e histórica brasileira até hoje. Esse da escravidão nas grandes fazendas e um tantinho agora costurado do seu reverso, as lutas constantes, renhidas e difusas pela liberdade. Texto curto que nos leva a pensar na introdução de Flavio Gomes em História de Quilombolas, só que com ritmo de curta metragem.  


Com Michel Yakini

O desfecho da narrativa é surpreendente, não porque nos dá um gostinho leve de vingança, mas por introduzir um tema difícil demais para  ser tratado na nossa visão desencantada e materialista de  história.  Allan não se contenta em conhecer e usar forma invertida as ferramentas da História Escolar e acadêmica. Constantemente ele nos brinda com pequenas histórias negras daquilo que não foi, mas poderia ter sido. Então, ficcionar as já quase gastas filipetas e álbuns da escravidão negra e do racismo antinegro, é trazer para o centro da cena, subjetividades e utopias negras quase vencidas.  Mas nem por isso, desimportantes.

Salloma Salomão Jovino da Silva é músico, estudioso de culturas negras e professor universitário. Doutor em História pela PUC- SP e pesquisador associado ao ICS-UL,  Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisbo

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Ocupação Cartola no Itaú Cultural

Ocupação Cartola no Itaú Cultural em São Paulo.


extraída do site- Milton Montenegro

Meu filho mais velho se casou ao som de Cartola, ao invés de uma valsa vienense. E foi por escolha dele e Marta.  Desde que conheci suas canções, em meados dos anos 1970, me encantei sem bem saber como e porquê.  Agora imagino, que pela suavidade e autocontrole de sua voz e de seu verbo. Entrou em mim um desejo secreto por uma poética bem submissa aos contornos da melodia.
Abrindo uma brecha na ideia. Justifico minha percepção de canções exatas: São especialmente aquelas que constroem imagens surpreendentes ou outras em que as palavras ou fonemas não sobram em relação a simultaneidade das notas.  Por vezes não dá empate, sobra ou falta uma coisa ou outra, como se fosse uma roupa comprada no estrangeiro, para dar de presente a alguém que se quer, mas não tem as medidas.
Fui ver e explorar a exposição CARTOLA no Instituto Cultural Itaú por três vezes. Cada uma saboreei detalhes que haviam ficado para traz na pressa, na taquicardia e ansiedade de chegar a uma impressão, um veredito. Cada vez que fui, encontrei um tipo diferente de gente na visitação, a julgar pelas aparências. Mas quase nunca a tipologia caraterística de certos eventos culturais de elite, gente branca alternativa, estilo Perdizes e Vila Madalena. Gente que fala difícil e nos olha com curiosa complacência.
Efetivamente considero que há uma intensa mudança cultural em curso, algo além daqueles dados mais salientes, que a mídia ressalta, com o código cifrado “Nova classe C”. Um desarranjo conceitual que já vem ocorrendo há algum tempo no país, parafraseando Caetano sem ser rígido, isso muito me atrai, intriga e estimula.
A exposição, tal como aquela passada e dedicada a Dona Ivone Lara, é bonita e simples, resume e também abre uma perspectiva abrangente sobre a vida-obra do artista. Uma mistura de museu antropológico, instalação e espetáculo ou cenografia de teatro. Um forma de jogo de cena sem ação humana evidente, os visitantes sãos personagens e atores. Os funcionários uniformizados parecem colados nas paredes,  quase imóveis, mas não invisíveis.
A exposição sim. Produz encantamento, interesse, deslocamento. Sim. Traz memória e nos induz a identificação e estranhamento, revolta e carinho.
É estranho ver naquele lugar relativamente elitizado, aquelas imagens fotográficas, cinematográficas e televisivas de alguém de uma obra tão singular e longeva, hoje aparentemente reconhecida. Contudo, por quase quarenta anos Angenor foi mantido à margem do mercado de produção e consumo de música. Agora ali, tridimensional e tão suave. Aliás como devem ser os mortos. Ele  já se vai tão longe estando ainda vivo. 
A exposição nos ajuda a constatar ou confirmar o já sabido, da condição miserável com as quais o excepcional compositor e cantor negro teve que lutar durante toda sua vida, para somente no final gozar de alguma visibilidade e prestígio. Eu sou pleno de Revolta e indignação.
A desigualdade e racismo típico são introduzidos na cena, apenas por um detalhe. A  exposição de duas fotografias irônicas de Walter Firmo. Perspectivismo curioso e machadiano, duas imagens retidas por entre buracos e frestas das latas e madeiras velhas, no morro da Mangueira, restos de casas, barracos. Não sei se propositais ou por acaso. Não sei se acerto da algum preto sacana infiltrado na equipe. Ah essa maldita consciência negra. Empatias boas vinicianas.
Caramba, essa é nossa memória e legado. A experiência negra na formação concreta e imaginada da sociedade brasileira contemporânea é feita dessa contradição tensa e quase sempre negada. De um lado tudo é exclusão, exclusividade e permanência. Do outro quase tudo é feito de recriação, criatividade e resistência. Isso é encantamento
Digamos estamos assistindo a uma espécie de irredutibilidade das culturas negras, em todos os microespaços da vida social, isso apesar do racismo sistêmico antinegro, que nos acompanha e se acirra mais ou menos, dependendo das circunstâncias, espaços e condições gerais.  Podemos chamar isso de deslocamento.      
Conversando com funcionários de baixo escalão da ilustrada casa, é evidente que Cartola, Dona Ivone Lara e outras figuras negras de proeminência, atraem um público que escapa ao perfil mais enobrecido e tradicional dos centros culturais que ficam no entorno da Avenida Paulista e Jardins. Mas também é bem verdade que os mais pobres e menos escolarizados tem avançados para as áreas nobres de cultura, entretenimento e lazer que eram antes mantidas exclusivas, com aplicação prática de sutilezas discriminatórias. Por exemplo, manter apenas funcionários negros nas funções mais subalternas e uniformizadas, funciona como um recado, de que os lugares de negros, mestiços e pobres nestes lugares se reserva apenas a condição de serviçais.  É muito difícil limpar os olhos educados com a codificação racial aplicada aos lugares e hierarquias. Isso é permanência estrutural de longa duração. 
O Itaú, parece ter realmente aproveitado ao evento do Blackface e desenvolvido um intenso trabalho de reavaliação do perfil de suas atividades e de seus frequentadores. Essa mudança na percepção das elites corporativas vem sendo ensejada por organizações negras desde a década de 1990, ou pelo menos, após o seminário coordenado por George Reid Andrews. Mas é justamente no núcleo duro das instituições e corporações onde há menos diversidade racial e maior rigidez na conservação do poder, prestígio e mando.
Desculpe. Voltando para exposição do Cartola no Itaú. Uma belíssima atualização da obra de Cartola com leituras de Jussara Marçal, Ellen Orélia, Raquel Virginia e Rico Dalasam. As letras das canções em natura, manuscritas, rabiscadas, em papeis reaproveitados com timbres de órgãos estatais desaparecidos, são registros históricos incandescentes, retidos em molduras envidraçadas.
Não pude deixar de memorizar a descrição preconceituosa típica da elite de esquerda brasileira ligada as artes, quando quer elogiar ou destacar alguém de origem negra ou pobre, ou como se prefere dizer, de origem humilde, para esconder concomitantemente as injustas desigualdades combinadas de raça e classe. O cineasta Cacá Diegues fala da participação de Cartola em Ganga Zumba, seu primeiro longa metragem de 1963. “Desconheço alguém na cultura brasileira, que tivesse uma atitude tão principesca diante da vida, uma posição tão altiva e até estoica.”
Essa ideia de nobreza ou fidalguia, de pretos e pobres, pode ser entendida como uma forma de dizer, que somente os especiais se destacam na paisagem extraordinária, de uma determinada área do conhecimento ou das artes. Especificamente estes seres especiais, aos quais são impingidas marcas comportamentais muito próprias as pessoas de alta estirpe.
Tipo alma não tem cor. Ou nobreza vem do berço. Algo sobre refinamento e polidez inata. Caramba. Isso é verdadeira negação de Norbert Elias e a negação da historicidade das culturas. É o cumulo dos valores aristocráticos e preburgueses. Diga-se de passagem, muito próprios da cultura elitista e neocolonialista brasileira. Uma saudade danada do império.
Quem entra numa loja de instrumentos musicais da LP, (Latin Percussion) instrumentos musicais ultramodernos de origem africana, não consegue ver ali, tecnologias sonicas ancestres. Mas são equipamentos musicais de alta performance, desenvolvidos por africanos, afrocaribenhos, afro-brasileiros e capturados por grandes corporações  capitalistas, que os retiram seletivamente do fabrico artesanal e os redesenharam para linhas de montagem industrial e comercialização global.
Os descendentes de africanos no Brasil, Argentina, Cuba, EUA, Colombia, França e Inglaterra, ao longo do século XX participaram ativamente na criação do mercado de produção e consumo de música, entretenimento e lazer. Raramente figuraram como donos de meios de produção e difusão, mas isso não quer dizer que sua atuação não contribuiu para formação de um universo novo de consumo, musicalidades e uma serie não comensurável de novos, valores, ideias e comportamentos, mas também tecnologias para criar, capturar e difundir música. Tudo isso teve nossa participação ativa.
É chegada a hora de valorização dessa participação, desse ativismo criativo, que foi abrindo caminho para um novo tipo de cidadania cultural, onde a memoria é tão importante, quanto a inserção profissional de jovens negros e negras em todas as esferas desse universo de beleza, poder e criatividade. Vida e obra de Cartola, mas também esta exposição nos serve como referência e alerta sobre as inúmeras formas de expropriação material e simbólica, como também de diálogo francoaberto e conflito ético. Hoje estamos bem atentos sobre nossos legados, diante dos usurpadores dos direitos reais já conquistados e daqueles de cunho subjetivo, que mantemos no horizonte. Isso é a verdadeira Modernidade Negra.

Sim. Em meio a todo debate sobre “origens” das musicalidades negras brasileira tem toda uma luta para se ter a acesso a memória cultural, para se poder acessar essa memória sem custo ante o flagrante avanço da mercantilização das memórias e práticas culturais negras. Há também diferentes gentes na luta pela repatriação de documentos sonoros levados para os EUA nos anos quarenta. Detalho aqui apenas uma tentativa de compreensão, de um mundo muito  complexo e rico da história dos processos de  identidades étnicas e culturas musicais na pós modernidade. Tudo visto por olhares negros e geografias externas.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sansacroma numa sala da Centro Cultural Osvald de Andrade. Sociedade dos improdutivos.

Sansacroma numa sala da Mario de Andrade. Espetáculo: Sociedade dos improdutivos.  
Veja mais : 
https://www.facebook.com/sansacroma

Sensações e tentativa de relato reflexivo.
 Fotos de Leonardo Brito.

Sons extremos. Bolos de corpos. Sons de bocas negras entupidas de pão.  Efeito muito interessante, grunhidos, animalidade e fúria contida. Nenhuma célula rítmica convencional. Seis  congas e seis músicos. Duas cenas separadas por uma cortina e iluminadas por seis pontos. Duas mulheres e um homem do meu lado. E do lado de lá o que há? Dois homens e uma mulher. Som eletrônico grave e contínuo de base, um não acorde. Máquina de gritos: “As borboleta tá o tudo cega no mar Branco”.    Brava gente brasileira.....entrou tom de violão. Fazendo trajetória melódica. 



Um estranho movimento é composto dos copros inclinados para trás. Formando algo incomum para o corpo humano, como se um vento forte atuasse sobre a parte superior do copro , enquanto os pés tentam se manter no chão.  Esse angulo de 50 graus é complementado por movimentos anticonvencionais. 
"Todas as doenças que estão hoje nos corpos"....poética fina. Retirada a cortina.  Melodia na voz.  Sequência rítmica 3 mulheres e homens. Um sola enquanto 4 mantém sequências. Congas mantém pulsões e sequências lógicas sobre base das congas e ilú em 9/8. Cede para timbres de Chocalhos e ganzá. Segunda sequência rítmica em 6/8.  Quebra. Volta acorde grave eletrônico. Um pulso leve de chocalho.  Nova sequência pesada em 12/8 com congas e djembes com acento de dunun.  Bolinhas de gude em diagonal uma cantiga, somente vocalize sem letra. Esquece e lembra.


Quando as grandes falácias dos diagnósticos médicos sanitaristas começaram a ser postas ao sol e questionadas em meados dos anos 1960, os índices de violência interpessoais e institucionais começaram a eclodir em um nível nunca antes verificado, ao não ser durante o tráfico e escravidão de pretos e genocídio dos povos nativos. 



Conquanto, casos isolados de minimização das práticas desumanizadoras da psiquiatria pública também puderam vir à luz, tal como os programas e procedimentos de atendimento adotados pela doutora Nise da Silveira, em colaboração com artistas negros, entre os quais Margarida da Trindade. Mas, foi apenas nos anos 1990 que emergiu um grito em favor dos Bispo do Rosário e Estamira. O Movimento antimanicomial, se alastrou no estado de São Paulo, sobretudo, a partir de um núcleo muito ativo localizado na cidade de Santos.



Um intelectual negro de grande sensibilidade ainda no final do século XIX entendeu o nível de exacerbação do poder da nova ciência dos comportamentos e anteviu as suas possíveis consequências, ainda na segunda metade do século XIX. Machado de Assis o escritor negro branquificado nas representações imagéticas ao longo do século seguinte, escreveu e publicou um conto originalíssimo denominado “O alienista”, no qual preconiza os efeitos da ciência psiquiátrica em uma sociedade racista, autoritária e escravista.  Contudo ninguém produziu um mapa mental tão bem elaborado da combinação entre saúde mental e racismo, que sua vitima mais ilustre e desconhecida no país, o escrito Lima Barreto. 


Sansa Kroma  é um termo encontrado  em três diferentes pontos do continente africano.  Na atual África do Sul, no Zimbabue  e em Gana. 
Sempre que queremos nos reconstruir na diáspora, procuramos um ponto de referência nas geografias culturais africanas para ancoragem. Coragem para contrapor um tipo de sequestro interior.  Em todas essas ancoragem a mensagem está relacionada aos corpos e musicadança. Fragmento de uma canção letra, traduzindo “deixa essa voz ser ouvida”. Entre os Akan, sansa seria ave de rapina, um tipo de falcão.


Estamos nós nessa luta contra o esquecimento do que fomos no passado, mas mas também tentando definir o que queremos ser no futuro.  Essa mulher negra Gal Martins, uma ave arribadeira, tentando viver entre falcões adultos criados com carne fresca no casarões da cidade murada.  Nós somos burregos novinhos, eles acostumados com voos panorâmicos. Ela talentosa jovem senhora, já matriarca na maneira de agrupar as pessoas, configurá-las em blocos criativos e seguir adiante.



Alegorias pintadas em seis corpos negros de diferentes formatos e texturas, nos ajudam a lembrar  e projetar nossa humanidade preta e periférica para além do discurso midiático. Ou mesmo nos alerta para a crueldade da alienação absoluta, para o desprazer, para a dor e morte lenta.
Também tinge nossos olhos de gozo rápido e espetacular metropolitano. `Precisamos desse entretenimento vero.   
A garota na fila pergunta  mãe: Mamãe porque os negros dançam?  Quase entrei na conversa. Diria que são rituais macabros, nós negros somos mórbidos, dançamos para esquivar das balas, mas tambem dançamos para sermos atingidos. Dançamos sempre, sem música ainda dançamos.    
Snasacroma sonora é música de requinte e nobreza, quero dizer, bem acima do discurso tradicional do acompanhamento da narrativa corporal. Mas a vi como elemento constitutivo da experiência psicossomática criativa. Eles sabem que não estão sozinhos na cena e é apenas questão de tempo para o fim da hegemonia.


 Os brancos colonizados até a medula, que se sentem herdeiros diletos de Pina Bausch, ainda mandam nos recursos materiais, técnicos e financeiros. Inda regem as definições do que pode  e não pode ser chamado de contemporâneo na produção cultural. Agora devem aprofundar suas pesquisas e alimentar melhor seus cânones porque a invasão avança.
Muitos elementos coreográficos do que hoje é chamado dança contemporânea foi extraído na forma de "pesquisa" sobre conteúdos extraeuropeus. 
É extensa a lista de artistas europeus, das mais diferentes linguagens, que ao início do século XX, diante do esgotamento das estéticas ocidentais, procuraram abrigo e inspiração nas culturas africanas, negras. Ou culturas exóticas?  
O professores de música mal intencionados reiteram a inovação e a hegemonia ocidental, mas omitem o que há de específico e efetivamente africano em Bella Bartok, por exemplo. O mesmo fazem os doutos de semiótica e artes visuais em relação aos dadaistas e cubistas.  
Em termos de conteúdos específicos,  alguns especialistas em dança apontam para configurações  dos Massais nos movimentos  aéreos mais enxutos e incorporação saltos acrobáticos sincronizados dos rituais Dogons em bales estudinidenses, desde 1950. Os ritmos ternários foram extraídos sobretudo das música-dança da África do oeste. Mas foi sobretudo a convivência de renomados dançarinos artistas   afrodiaspóricos como Katherine Dunham, Firmino Pitanga, Cleyde Morgan e Mario Gusmão que fizeram coreógrafos acadêmicos europeus vislumbrarem a possibilidade de criarem sequências polirítmicas combinadas, ( em 4 contra 3, por exemplo), ao invés das narrativas maquinais ou mecânicas, advindas do balés tradicionais. 
Os coreógrafos mais requintados deles, também entenderam que por detrás dos espasmos, transes e  danças rituais havia um manancial corpóreo imenso rico a ser sistematizado.  Mas estas formas de incorporação seletiva, roubos culturais e expropriação, na maioria das vezes não deixam rastro muito visíveis. A não ser para aves treinadas.    
Mas essa é uma outra longa história. Pode esperar.       



     
Gal Martins é coreógrafa da CIA SANSACROMA, uma intelectual negra, artista  formada nas práticas e reflexões das Artes do Corpo. Mora na região extensa Zona Sul de onde projeta seu trabalho para o mundo. 
   
FICHA TÉCNICA
Direção e Concepção: Gal Martins
Intérpretes Criadores: Djalma Moura, Verônica Santos, Ciça Coutinho, Flip Couto, Érico Santos e Aysha Nascimento
Orientador de Pesquisa e Provocação Cênica: Rodrigo Reis
Orientador de Pesquisa de Campo: Rodrigo Dias
Concepção e Arranjos Musicais: Cláudio Miranda
Direção Musical: Melvin Santhana, Músicos: Melvin Santhana, Fernando Alabê, Camila Alcântara, Pikeno PSS, Clency Santhana e Manassés Nóbrega
Figurinos e Adereços: Mariana Farcetta
Projeto de Luz: Almir Rosa
Montagem e Operação de Luz: Piu Dominó
Preparação Corporal: Mônica Teodósio, Djalma Moura, Gal Martins e Verônica Santos
Cenotécnico e técnico de audio: Fábio Miranda
Ensaiador: Djalma Moura
Direção de Produção: Selene Marinho
Assistente de Produção: Dandara Gomes
Assessoria de Imprensa: Marcelo Dalla Pria (Rhizome Comunicações)
Aproximação com o Público: Ciça Coutinho e Dandara Gomes
Fotografia: Raphael Poesia e Leonardo Brito
Colaboradores: Denise Dias Barros

Veja http://kdcah.org/katherine-dunham-biography/

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Alex Ribeiro fotógrafo de cidades submersas e desejos quase humanos

Cidades Submersas
Vivem no fundo das águas brasileiras, cidades castigadas no seu orgulho. Em certos momentos vozes de seus encantados habitantes ressoam em cantos, atravessando os ares sons de clarins, rufos de tambor; gritos, aclamações, aplausos, rumores confusos de festas, batalhas , préstitos.
                                                                                                          Câmara Cascudo




Acredito que o sonho dos fotógrafos verdadeiramente humanizados (especificamente os que se envolvem por via da imagem com o calor ou frio do mundo) é capturar os espíritos das coisas, por meio daquilo que as câmeras permitem. Efetivamente são incapazes de revelar coisa alguma, mas pela técnica de captura dirigida, pela imagem recolhida e retida em papel ou qualquer outro material, ainda podem sugerir algo sobre nosso desejo. Então a imagem fotográfica teima em querer nos iludir (e nós gostamos disso) com a verdade daquilo que foi, no exato instante que a íris vazou a luz na câmara escura. No fundo nos permite ver ou antever, tudo que poderia ter sido. Uma cidade é um espaço natural, que os humanos transformam em seu lugar. Aqui pode ter sido uma maloca, aldeia, garrancho de vila, comarca e no fim uma metrópole. Toda ela é estranha, confusa e outra. Ninguém conhece ninguém. Onde também ninguém se entende. Exceto pelas fotografias que torna tudo que distante, em imagines familiares.  


Ao meu ver as melhores cidades são aquelas embrionárias e ou as abandonadas. As cidades que só vi uma vez, de passagem, como Milton nascimento naquela canção. Penso também na beleza estranha de cidade inundadas por águas naturais ou represas por calamidades. Pompéia, justamente porque conserva alguma coisa da arrogância humana diante do tempo e da vida. A cidade de Mariana é um testemunho do nosso descaso e do descalabro do dinheiro em penca, no sonho dos exploradores sem alma. As cidades melhores, ao meu ver, são aquelas que terminam devagar, quando já desaparecem seus criadores, construtores, artesãos. São entes vivos que vão desmilinguidos aos poucos e morrem como os antigos habitantes. 



Tenho para mim que as piores cidades são justamente aquelas cientificamente planejadas, ou outras transformadas em polos de turismo, por onde muitos passam temporadas e pouca gente fica. São espécies de cenários teatrais e, normalmente guardam muito pouco daquilo que efetivamente foram um dia. As cidades são também tecnologias de convívio humano. Cidades desumanas são aquelas que ao invés de propiciar convivência e contraste, produzem opressão, medo e morte. Então as cidades mortas, mandam mensagens para aventureiros e deserdados, vendilhões e gananciosos. Elas pedem socorro contra a ação do tempo. Contudo não querem aceitar o fato. São cidades sem desejo. Os humanos emprestam suas almas às cidades quando colocam seus sonhos em picadas e quintas, ruas embrionárias, casas bem modestas, lugares acolhedores.












O poder, esse fato humano deplorável,  se instala, então as cidades migram dos moradores. Fisicamente estão ali na arquitetura monumental, mas já há muito que foram embora. Então os potentados as transformam em maquinas de oprimir e vender, maquinas de triturar grãos e sonhos, desejos e preceitos. Algumas se tornam embriões de impérios, registros materiais e arquitetônicos das mais variadas expressões das iniquidades humanas. 



Viva então os donos da terra chamados para sempre de “índios guaianás”. Pergunta sobre os mocambolas que construíram os casarões e estradas de pedras de Guaratiga à Ouro Preto. Se alguma pedra se levantar contra o horror, é que a cidade ainda há de respirar, ao menos mais uma vez, antes de apodrecer o ultimo caibro.

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Salloma Salomão é intelectual público e livre pensador.