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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Marcio Abreu e sua peça Preto se aproximam do Capão Redondo



 A compoanhia Brasileira de Teatro,  Marcio Abreu e sua peça Preto se aproximam do Capão Redondo

“Aqui não há negro, o negro do Paraná é o polaco”
Otavio Otavio Ianni*

“Tem gente que fica querendo perguntar como é ser negro”. (Fragmento do texto)
Preto

Atores com seus nomes artísticos ou de batismo falam direto com a plateia antes de começar qualquer ação. Ou melhor, não se percebe exatamente quando acontece a quebra. Mesa branca, sambinhas ou bossas pós modernas ecoam na caixa preta. Rosto negro em close enche a tela.
Atriz negra convida atriz branca a se sentar. 3 atores negros e 3 brancos. Inversão: Negra dá ordem aos brancos. Sobre onde colocar a mesa branca. Mesa branca e magia branca, contra as magias negras, Macumbas e Umbandas. Geralmente estamos à mesa para servi-los, mas não naquela noite, naquele texto.
Quanto tempo será possível manter essa inversão simbólica sem causar danos à imagem tão respeitada da Companhia? Essa é a parte mais sedutora do texto. Nos levar a crer que pode haver algum tipo de vingança, ou revide qualquer em nosso favor. Tem vários momentos com esse tipo de indicação.
Ao longo da história dessa Companhia, parece ser a primeira tentativa de contato. Não há negros em Curitiba (só vinte por cento do total. É bem pouco demograficamente né?).  Não há negros no Paraná. Os últimos foram avistados nos anos 1950 por Otavio Ianni (Raças e classes sociais no Brasil, Ianni,1966). Na memória social daquela província que pertencia a São Paulo, toda passagem de “negros ilustres” ou “escravos” fora quase apagada. Senão, não poderia evocar sua europeidade atual de cidade planejada.   Zacarias de Gois, André Rebouças e a primeira engenheira negra Enedina foram tirados a lima do bronze sobre o qual se pode construir uma imagem nórdica, mas doentia. Curitiba expandida é sudeste. 
Tela com imagens e sons gravados e captados ao vivo. O músico branco com guitarra e voz acompanhando  loops.  Os atores e atrizes andam de um lado pro outro e se dirigem a nós delicadamente.
A voz, o jeito e rosto de Renata Sorah são muito familiares pra mim, desde a infância. Ela entrava na minha casa toda tarde ou noite nas novelas. Já dormi com ela nas minhas fantasias juvenis e, é bom saber que heroínas brancas da TV e da Revistas de bancas também envelhecem. Eu também decai no tempo. Por isso hoje pudemos nos encontrarmos no chão. Entre Campo Limpo e Vila Prel, bem perto do metro Capão. Mas isso por si só não é capaz de gerar intimidade entre nós. Há camadas e camadas de objetividade que nos segregam. Eu a vejo sem maquiagem, mas poucas pessoas como eu, até então, devem ter habitado sua paisagem. A branquitude é uma ilha.
Renata se despiu do personagem e veio ela mesma na peça, ela quer aproximação, veio com uma trupe de Curitiba. Realmente é uma atriz fenomenal e foi colocada ali para isso, creio. Ela quer falar comigo e trouxe três pessoas escuras, que no texto  e ação representam os pretos.  Quem são os pretos? Ou melhor ainda, quem é preto?
Grace Passô é co-autora e atriz convidada. Cassia Damasceno é corpo negro nessa companhia de Jesus. E Felipe Soares, ator convidado. Abreu Parece ser inteligente demais, por isso nos poupou da negação corriqueira. Aqui não há fragmentos do discurso da mestiçagem que moldou a identidade nacional. Discurso que emerge, ante uma denuncia de racismo interperssoal ou estrutural. Ladainha do tipo: Quem é branco no Brasil? No Brasil não tem branco puro. Minha vó foi catada a laço, portanto todos somos bugres blá blá blá... nan nan nan.... São falas do senso comum usadas para causar interdição, mas aparecem nos textos deles. Traduzindo: negros, não venham aqui causar ou criar problemas. O Racismo é coisa das suas cabeças. 
O racismo antinegro quando não negado, é tratado como um fato meramente psicológico.
Efetivamente a subjetividade é uma parte fundamental do problema racial. Reduzi-lo a subjetividade é outra crueldade.  Teatro não é terapia, é entretenimento e diversão para massas urbanas, por mais politizado que queira parecer. Ou ao menos esse nível altamente profissionalizado da criação teatral subsidiada o é. Isso não é bom nem mal em si mesmo, é o que é.
Antes da TV, havia negros no teatro. Joelzito Araújo demonstrou  em sua tese, como a seleção racial atuou no meio televisivo. A tv excluiu os negros dessa linguagem (teledramaturgia). Se teatro sobreviveu entre nós,  foi em cidade pequenas congos e Moçambiques, Folias e Boi-Bumbás. Foi  também porque pequenos grupos e autores quase anônimos fizeram esforço zumbínico ou dandárico para manter teatros negros vivos. Uma linguagem a ser apropriada para falar coisas que essa sociedade nunca quis que fossem ditas. Senão seriamos apenas conteúdos para autores eurodecendentes expor corpos brancos borrados de preto, como fizeram, desde Sergio Cardoso até os Fofos. 
Mariana Mayor esta comprovando que em finais do século XVIII nas casas de Ópera houvera negros. Na medida em que sociedade brasileira se modernizou ou negros recuaram para o fundo da cena, até quase desaparecerem totalmente. Depois bastou inventar as narrativas da sua ausência e difundi-la nas escolas, por meio da disciplina “História do Teatro Brasileiro”.
O preto é a projeção.  Não as imagens na tela. Mas a imagens mentais. Elas independem daqueles sobre quem a imagem se projeta. Preto. No singular. Preto uno. Um só ser que pode abarcar, todos os seres, cuja tez nos lembre a beira da tarde até noite mais espessa. Isso Preto breu.  O Preto a parte dita e identificada. Por uma razão simples. O Branco é humano e universal. O teatro é universal? Nossa dramaturgia é universal? Um teatro e uma dramaturgia sem negros e negras (temas, autores, criadores, atores, forma e conteúdo) no Brasil há uma antidramaturgia universalista e outra brasileinistas. Ambas nos negam. São armas apontadas contra nós, são ferramentas de inviabilização, feita por via da invisibilidade, do apagamento e silencio imposto. Agora Marcio Abreu agora sabe disso pois ele entrou em contato. Quanto tempo vai durar não sei. 
O racismo é fruto e é sempre desequilíbrio. Será por isso que o diretor buscou trabalhar com uma noção de equidade? Três negros para três brancos, quatro mulheres para dois homens?
Em cena uma mesa, microfones com e sem pedestais. Um músico com um computador e uma guitarra na caixa preta de arena do SESC Campo Limpo. Tudo funciona, não há gambiarra. O ar condicionado não faz ruído como na sala FUNARTE. Para haver um bom teatro deve ter investimentos. E essa companhia tem e isso é bom. O atores precisam trabalhar, as atrizes negras precisam trabalhar. Ali são eximias, não se pode alegar concessão. Corpo, voz, texto, emissão e gesto, posição no espaço de encenação.  
Ninguém ousaria fazer perguntas sobre a diferenças salariais entre atores negros e brancos. Mas o IBGE e o IPEA demonstram que desvalorização salarial de negros e negras é um dos motores que perpetuam as desigualdade estruturais. Isso é hoje, nada tem que ver com a escravidão. Será que as desigualdades presentes na sociedade também se expressam no meio artístico? Mas, isso nada tem de teatro, é um outro campo, outro debate. As artes são imaculadas. O artistas em geral são bons e justos e apenas raramente são racistas.
Dois corpos nus, um de homem negro e outro mulher branca, todos os rostos aumentados na tela. Ainda equidade? Esse recurso da ampliação da voz-imago, vem da saturação intencional. No texto agressividade ensejada, engajada e controlada. Um ator negro e outro branco se estapeiam até a exaustão. Violência doméstica?  São 60 mil mortos por ano, durante anos. Uma guerra domestica sem dize-lo. Isso é concretude do racismo antinegro. Isso é concreto, mas indizível, E quando dito não causa nenhuma empatia.
O racismo antinegro no Brasil era invisível, agora é indizível. Leio inúmeros textos escritos por autores brancos sobre cultura negra, nos quais esse termo nunca é mencionado. Aqui também não é, mas tem uma pergunta balbuciada e essencialista. Como é ser?...
Estamos diante de uma espécie de estetização do racismo? Em parte sim. Mas calma, Marcio Abreu vai muito além de Brancos (O Cheiro do Lírio e do Formol”, peça dirigida por Alexandre Dal Farra e Janaina Leite). Encenada na mostra internacional de teatro, que assistimos já há alguns meses no Centro Cultural São Paulo. Há aqui um nível de elaboração e virilidade autoral, que lá não havia. Mesmo lá foi possível perceber o quanto o racismo também pode causa de confusão mental nos brancos. Era lá um exercício de visualização de si. Por medo ou qualquer outro mecanismo, não nos pode revelar o caráter relacional do racismo. Nem nos mostrar como é ser Branco. Aqui ao contrário. O dado de alteridade coletiva, ou de identidade da branquitude foi colocado sobre a mesa branca.  A mesa é branca, porque as cartas do jogo são brancas, todos nós sabemos disso.
Os negros são muitos e múltiplos, os brancos idem. Todo texto teatral opera redução do tempo, do espaço e das figuras humanas, ou mesmo inumanas, ou mesmo desumanas. Mesmo que se possa esconder os fios da construção dramaturgia e turvar nosso visão por aproximação entre o ator e o personagem, será possível revelar a farsa, porque continua havendo um jogo. Um jogo que me envolve e seduz, mas um jogo.   Um jogo que quer falar de mim, mas tem que colocar seus agentes em cena e de vez em quando revelar suas estratégias.  
Obvio que os brancos se tem como essência do humano. Os pretos são sempre localizáveis nos seus corpos pela polícia, pela milícia, pelo oficial de justiça, pelo censo e pela distribuição de renda e dos piores espaços urbanos, onde são raros os serviços de toda espécie. Os de cultura então nem fala. Saímos fisicamente do centro de Curitiba para a beirada externa da metrópole. Quase Capão.
Essa forma de compensação não é desprezível. Não adiantaria evocar a aproximação de Paulo Leminsk com Itamar Assumpção. Foi fruto de um outro tempo.  Como a sociedade age? Como a sociedade teatral age em relação aos negros, negros como experiência social e negros enquanto cultura? Momento sombrio.
“Toda noção  de preto no brasil, pretura como medo”. Mantem a imagem na tela mal iluminada texto sobre imagem. Voce vai buscar o fogo?
Um fogo primordial? Um retorno a selvageria? Aquilo que tem sido chamado de barbárie ou civilização. Muitos entenderam mal essa formação e associaram a noção de barbárie aos povos considerados incivilizados, mas na verdade estava associado aqueles modernos e altamente desenvolvidos tecnologicamente, capazes de produzir violência em escala industrial. É um erro interpretativo ou mesmo manipulação da questão original. O tempo todo é sociabilidade e violência, civilidade e barbárie. Mas desde a expansão ocidental os bárbaros são os outros.  
Qual seja, da Europa bélica e imperialista, colonialista e totalitária. Mas ainda assim, colocada nesse termos, civilização é barbárie. Aqui somos os bárbaros sempre, silvícolas, primitivos. Três terço da população não tem acesso ao saneamento básico.
Fragmentos do texto, tente juntar:
Depois cheguei atrasado. Como vai ser?
Renata- Eu nunca me preocupei com a minha imagem.
A dor da gente fica bonita onde?
Alguma pergunta?
A gente é capaz de sentir a dor do outro?
Renata Voce é livre?
Voce visualiza algo novo, uma revolução?
Renata: Sabe aquela hora que você me cospe? Aquilo grosso?
Diferença entre imagem da dor e verdade?
Perguntas que se propagam no linha reta insuportavelmente previsível. Mas não, o texto sobre para o andar superior. Torna-se hermético.
Descreve cena de sexo entre duas mulheres. Ator negro e branco se beijam. Racismo parece ser simultaneamente ojeriza e desejo, repulsa e ânsia de encontro. Essa ideia é bem bonita. Aqui é o lugar da dialogia. Todo resto é para se manter na linha discursiva usual da dramaturgia brasileira contemporânea, quase apolítica.
Atriz branca e negra se beijam
Uma mulher que não dizia uma palavra.
Descrição de uma cena de sexo entre duas mulheres
Eu tive que lutar muito.
Todos atores em cena.
Felipe nú.
Do que você não esquece nunca?
Que você é ri, ri, ri..........
Ator negro e branco com cabeção, dançam e brigam.
Uma mulher negra.... eu vou dançar pra vocês cantar pra você, lá no fundo. Revide. Ela se nega a cumprir o que todos esperam pelo texto secular. Mas ela se nega a cumprir o roteiro. No fim ela canta pra si mesma. Estamos rendidos.
Ficha Técnica
Direção: Marcio Abreu
Dramaturgia: Grace Passô, Marcio Abreu e Nadja Naira
Elenco: Renata Sorrah, Grace Passô, Nadja Naira, Cássia Damasceno,
Felipe Soares e Rodrigo Bolzan
Produção: companhia brasileira de teatro

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

De onde vem o ódio



ÓDIO. A Grande Mídia colocou no nosso vocabulário corrente a palavra Ódio, como sinônimo de caos, há pouco mais de um ano. A função de seu uso, entretanto, tem sido interdição do pensamento antinormativo. Mas, desde então vejo tanta gente boa e bem intencionada repetindo e repetindo e repetindo esse termo, sem refletir o que ele quer encobrir nessa nossa complexa realidade social, cultural e política.
Temos um congresso que elabora, aprova e implementa leis de trabalho escravo e apoio a emprego precário.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Temos quatro Famíglias que controlam os meios de comunicação em favor das grandes fortunas e interesses mais espúrios.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
A polícia, as milícias, as gangues e cultura da violência geram 60 mil mortes por ano. Mata-se mais gays, mulheres e jovens pretos-pretas.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Temos um STF que manda soltar bandidos confessos de colarinho branco e uma justiça que mantem em cárceres pequenos ladrões e jovens ativistas.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Temos um sistema econômico que penaliza os assalariados e premia os bancos?
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Temos Governantes diretamente envolvidos com Milícias e Tráfico internacional.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Temos uma classe média branca abertamente racista, e um conjunto de leis antirracistas que não consegue puní-la porque, as delegacias manipulam a interpretação dessa mesma lei.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Temos prenúncios nítidos de fascismo em todos os espaços da vida social, com amplo apoio midiático e de parte significativa da tal opinião pública.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Grupos de neopentecostais armados degranadam sacerdotizas de filosofias religiosas africanas e ostentam porretes, filmam e publicam na rede, sem reação do MP.
DE ONDE VEM O ÓDIO?
Infelizmente não sentimos ódio ainda. Mas leves doses de indignação, grandes medo e gigantesca impotência.
Se odiassemos ao menos um pouco as elites, por tudo que nos fazem passar e pelo que expressam nos odiar, os bourbons daqui já estariam, há tempos, no paredão ou no cadafalso.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Testamento sonoro.



Notas tortas da madrugada: Canções e Letras.




Sons de internet discada: Se o futuro é feito apenas de finos fios de desejos, o passado só pode ser transcrito com lápis de sombras e brilhos... Meu tempo é esse e todo passado é já esmaecimento, fonte de criação e dores superadas. O relógio sob a retina não deixa dúvida e nem escolha, temos, tenho que seguir. A música me levou a lugares que jamais poderia ter ido por mim mesmo. Ela maldição e dádiva, é cultivo e desencanto. Mesmo que eu não queira ficam ruídos me perturbando o ouvido interno. E por mais longe que eu vá, ela é almadia, canoa dos Awá. Araquari e Lumiar, Bela Vista e  Grajaú, Penha e Copacabana, Guine Bissau e Perdizes, são sempre as mesmas canções-canoas. Ferro riscando o vidro: Ouço, ouça, Donana lavando roupa, Dusantos lavando louça, Antonio fazendo flauta de bambu num serrote secular. Ele Antonio dos Bêta no violino de compensado, no cavaquinho eletrificado ou na sua viola de arame. Ele tocando pra si, em chinelo de dedo e calça rancheira. Não posso negar, caipira preto é o que sou. Bisneto de negra Jovina e outros homens escuros sumidouros, falos embrenhado na capoeira do serrado. Trago sempre no bornal minha pitada de Congo, uma viola D’Angola para atiçar notas mortas. Somos banzo do futuro. Maquinas de pedal cozendo: Réu confesso, meu lugar é o erro, pois aspiro a memória do mundo.  Pausa longa, performance do nego Jansem “moleque zaranza” no festival. Umas fotografias rotas e rasgadas, prisma em preto e branco deles e saudade. Sempre é uma re-volta a cantiga do Dedé “não me chame de negro da alma branca...” no festival de São Sebastião do Paraíso, num inverno qualquer de 1979, com João Terra, João Batista da Silveira, Vandré e Lord Bira da Silva. O chão é semeado de rasqueados de violas negras, calangos e pagodes roceiros. Ngomas são senhoras de couro e madeira, células rítmicas milenares, segredos abertos.  “Moda de viola não dá luz a cego”, canções do sargento pimenta também não. Sou caipira preto, fugitivo para um quilombo eldorado, mas a cidadela é murada, cercas elétricas indizíveis. Pia que pinga. Maquinas de fotocópia: Não fui a portobello road, mas ouvi a canção que me veio do Suriname, senti aqueles acordes consonantes do reggae e vi quando os primeiros rastas entraram altivos na metrópole e desceram a Martiniano de Carvalho. As ruas de Passos eram minhas desde a entrega daquelas marmitas no Cine astro. Campinho de terra, bola de meia, nada de beiçola ou tifum, eu era uma Pelezinho. As soberbas de São João Batista do Glória moravam lá. Quando o amor me visitou de prima, Ezir morava com a mãe num prédio nobre no Brooklin. Porteiro beje me interditou a mando dela. Claro que não foi a primeira vez nem a última, que senti o frio que vem do norte. É preciso esquecer, mas não perdoar, ponho na canção o trauma, o medo e todo, todo resto, todo lixo subumano que há no mundo e em mim. Tem uma coisa na canção que me alimenta, uma alegria contida, como uma oração presbítera e um canto umbanda fundidos. Sons do mato crescendo: Meu amor é afronórdica tesuda, cristiana  sem sê-lo, tem ombros de feirante, forte gaivota e frágil desnuda.  Desde o começo marcamos encontro na baquinha em Santo Amaro. Eu  e Dubois em altas alemanhas. Antes vaguei por Rodas de pai oxalá, foi minha primeira cantiga, fendida em um festival no ensino fundamental com Raquel e Ana de Lucas e Susana Pimentel, Violão e tambor, e só. Depois que veio e Inhola Trio. Imagine a saga, uma flauta doce e dois batuques, fecharam escola para um show, cobramos ingresso e tal. São Paulo e Minas Gerais, mas  “não sei se vou, não sei se fico”, minha dúvida e de Martinho, chegamos juntos. Ele pelas ondas do rádio, long play na eletrola de pilha, sob a lona preta no Jardim Miriam.  Eu? Via estação luz, chapando os olhos nos arranha céus. Na escola um corpo de menina dança, cheiro, falo, sonho. Periferia e cordel, pastel de feira e japonês, Harume, Kaoro, Mario Nishigawa, Mitico, Ana Saiure, Akira S e Che Guevara, diversidade total, humana e real. Descoberta do mundo e encontro. Cubo da feira, clube da esquina, Jorge Ben e Jorge Bruder e o maestro Tarcísio um preto outro branco. Genão festival, Cabral e Meire, Adalto em piscina cheia, canções autorais, quem quer mais, lazer na periferia. Um envelhecido amigo arrastando a chinela da porta da casa até o portão elétrico: Agora nomes parecem remotos, Raquel, Eugenio Vinci, Léa, Marcão, Valada, Marcinha anos setenta, uma escola uma quadra, um festival de música. Jatos supersônicos: Um pouco de futebol, ponto de ônibus, shorts cumprido, skate e ditadura. Rangido de porta se abrindo. Do terreiro surtido nas Gerais à mesa parca, pencas de bananas em fim de feira e a merda voltando pelo ralo, rua das laranjeiras na Catarina, lá se foi o dedo do Gerson na máquina de concreto. Era um espetáculo o corpo nú daquela jovem senhora na janela do sobrado, cinema toda tarde. Eita molecada. Pula corda, sobe essa parte. Pisando em poças d’água : Um cobertor bem quentinho com dragão chinês estampado, nada se perde em são Paulo, obrigado Bete Ng. Betão, Rubão, Broks, Claudionor. Corpos negros masculinos em profusão, virilidade do futebol, sou eu, Pelezinho, canela fina, fujão.  Num mundo tão diverso, tudo era branco demais. São Paulo é poder, foder e cair. Cida Ângela, Zaire, tranças e contas no cabelo é orgulho negro, black power, irmandade e desejo, dançar soul no chão batido. Não tenho mais medo de bala, corro em zigue zague, meu corpo não é fechado. Não vou morrer de tiros no campinho, bola na quadra do Monsenhor, agora é área da Cooperifa, Marcio batista, Sergio Vaz e Vaz de lima. Euller não conheceu Anastácio e Verinha, Beiçola e Neguinxim, Al green e Ray Charles. Braço da eletrola no sulco: Bloco do beco e Originais. Samba soul e Nascimento, Melodia e Zamba bem. Transa negra, pertença, danças e amores nos bailes. Rituais, becos e muros do parque santoantonio (oh favela, canta comigo: “a subida do morro é diferente, o movimento é geral”, bem antes de racionais mcs). Um universo no corpo dela, bela Arlete, meu negro amor saltando pinguelas. Onde andará?  Viva Vilma correndo da morte, Carlo-Marco, Maria de ontem é Cristina da Paz hoje. “Viva a mata e os olhos verdes da mulata”. Saúdo seu zelo, porque seguem em cantoria no velho mercado velho. Pra mim um santuário, escola e palco do Circo Novessencia e Na Corda banda. Em plena ditadura, solidão, seguem amando a música que está em nós, cantando para ir vivendo.  Inhola trio, mulatos quase brancos e velhos brancos bem racistas, mas pobres demais, sem força para nos apartar. Guitarra com distorção: Né Bubina?  Né Kolchereiber? Nem Pusinkas, nem Mandim, nem Cremm, nem Bochiglieri. Primeira cama de mola, rangidos da cama dançando. Meu amor nunca foi puro, confesso. Mas também quase nunca aceitou fronteiras. Porque só os afetos são eternos. São eles que continuam vibrando quando os nossos corpos jazem frios. Eloquência da vida é Beto vovô e nega senhora, a índia mais linda que eu conheci. Vera é vera, passou bem cedo, choramos e catamos seus sonhos. Ecos de tiros e bombinha de mil: Foram tantos outros que eu nem vi, não velei como Nenê. Não é morte, é ceifa: Sabão de Côco, Zédoido,  Marcio Caveira, Zédimas. Falo sério sobre subcidadania, da sobrevivência em terra alheia que é sua. Nomes e listas nos bares, pés de patos e avatares, matadores de aluguel, a cidade é uma maquina de moer gente. Os demógrafos nada sabem sobre nós, estudaram muito, até que cobriram os olhos com teias rendadas de números. Meu Estanislaw ( não Sergio Porto) era um branco bem raro, bom de bola pra caralho, mas inviril e fingidor. Descobriu que amizade não é amor, é lucro. Identidades em jogo de construção, operário Carlão, Frust, João Loruenço, Tchak, Banana-Ana, Chicão, Marilena quase fome, criançada, subemprego e marmelada. Para o poeta Nono éramos todos metalúrgicos e nordestinos, provincianos em revolta comunistas, proletários letrados, mas sem a grana do Caio Prado, do Carlos Prestes ou do Niemayer. Chico era um operário do BNH, no violão de sete cordas ele está são e resiste. Lá na igreja do padre Luis era seu Raimundo fazendo folia urbana, subindo e descendo morros escorregadios, sob os olhos da velha índia de pele negra. Sons abafados de tambores: É poesia do Chico não meu véi, é vida vivida nos Grajaus da vida, no lado que a cidade é partida, onde quase nunca se junta. As cidades são miragens, os bairros são teares. Eu sou besouro se pau zunindo seus ouvidos. Feira de Santana e Bosque da Saúde, João Braga e Helo “oh quão dessemelhante”. “Triste Bahia”. Carlos Boquinha e Carlos Gianazzi eram Caetanos da periferia. Triste Interlagos, Chico Czar na Capela do Socorro, Parelheiros,  “os olhos tristes da fita rodando no gravador”. O neguinho é esteio, Luis Rosa, Buda bantu. Plantou ruas de harmonias pra eu navegar com meu canto torto. Notas que eu sempre pus na beira, sem trena. Não só por isso sou muito grato. Lamentamos juntos nossos irmãos que jazem aqui nesses campos de asfalto, fuligem e lama. Rabiolas de pipas no ar: Canções são sempre maiores que nós, rompem o tempo ficam vagando.Tornar-se irmão do irmão, contabilizando as perdas e ir costurando sonhos e risos, sem vangloria, não é pra qualquer. É coragem sem tê-la. Oliveira árvore sã, seu óleo é sacro, cabocla-negra, senhora filha da velha aroeira, indígena parelheira, centenária. Pra cada perda uma poesia, para cada negra filha, uma ilha amarrada aos pés continentais. Amor é da nossa condição animal, sem ele não há como prosseguir. Meu coração tava aberto quando ela chegou, só perguntei seu nome, algo estranho me ocorreu sobre sua cor rósea queimada do sol da feira livre, seu cabelo dourado e seus olhos marinhos. Mas não me ative ao texto da interdição e da exogamia. Racismo é ojeriza e ódio pelo humano que vem ao encontro. Como? Se eu não caibo em mim mesmo, se eu nem existo pra mim. Como poderia existir para o outro? “Mesmo que os racistas vençam, ninguém poderá me roubar a memória, das marcas dos meus dedos em suas costas.” Tem muita alegria e vitoria espalhada além de santoamaro, Miranda d’Ouro é canto puro mundo inteiro, Maga Lieri com alma amansada pela dor, também canta humilde e divinamente. Conheci outras tantas mulheres negras, não só na cor, no mundocanto, cujas formas ainda busco. Sara e Geni, ora. Oração, inselença e Kalunga Zambi. Os fragmentos dos seus corpos geraram outros bem mais fortes, Danusa Novaes,  Meire Palma, Nádia Rosa, Luan, Marcus e Marina. Filhas, filhas e irmãs. Detalhe: são portadores de cantos, herdeiros daquelas mulheres. Novamente famílias negras acolhedoras nas beiras de Diadema e Jardim Miriam, por onde passei ao chegar e voltei pelo Jabaquara um centro cultural. Televisão de válvula esquentando: As crianças vingaram, estão forras e a cidade os habita, ainda que na beira. Outros caipiras urbanos, caralhos rubros, alma cheia e cabeça oca, broca ou fábrica de filhos. Não. Como eu, são apenas homens sustentados por dois falos e uma perna, uma paranga ou guimba. Sobre os filhos deles, não fossem as mães seguras e velhas, gente que cria e recria a si mesma, teriam sido engolidos pela enxurrada, tragados pelas ruas. Não me furto ao papel de juiz e serei julgado pelo por tudo que fiz e pelo que não fiz. Melhor assim, do que passar incólume. Hoje penso que eu sei quem sou e o que me tornei. Um homem negro. Meu ser está preso nesse corpo melanínico e fálico. Sei que daqui de dentro desse corpo sinto que a justiça e a polícia, simplesmente me odeiam. Apenas meus irmãos tateiam cegos para me achar no meu corpo. Ele apenas me sustenta no mundo e eu o sinto. O mundo. Máquina de pedal: A canção é uma costura pacientemente feita entre a luta cotidiana e o mundo ao derredor. Banda Tribbu, Vândalos de Chocolate, timbres e sonhos, medos e tons, sons que arrebatam e fazem o corpo reviver. Em conjunto as canções formam flashs iluminados, nas rotas escuras da corrida encarniçada pela liberdade. Pele roçando a pele: Satranga de lima seria um caso a parte pela generosa reciprocidade e vigor. Uma lição viva de afeto, pelo gesto e pelo cunho libertário de sua canção, pela radicalidade como viveu e vive seu amor pelos outros homens, quando s e descobriu livre.  Nos dois nas beiras gélidas do sena, canções, luzes e amores na cidade rica. Ainda assim, canabistas adeptos sinceros tendem a falar muito sobre o mesmo, mas ao menos não se quedaram em dog-máticos cruzadistas. Tendência avassaladora atual. Nessa margem externa dos pinheiros quase todos os bares foram reformados e convertidos em casinhas de cambio jesuíticas. Há muita música de transe e grandes amigos nossos, hoje vivem lá.. Esperam a salvação ou campeiam algum trocado, a vida é dura mesmo. Constato apenas, não julgo e não lamento.  Martelo sobre a madeira: Os girolamo-scantamburlo e schultz serão sempre parte de uma reserva afetiva interrracial e não importará o que acontecer daqui em diante. Nego Jansem frisava o quilombo imaginário de santamaro e a noção do triplo pertencimento, sem saber das revoltas indígenas do século XVI, imaginário em expansão. Negros claros e brancos caídos, circuncisos ainda meninos Gil Assis, Chechetto, Sechanechia, Urbano, Binho, Telmo anum, João grande, Beto de Tore, Carrasco, uma quantidade infinita de nomes, certezas e tons de pele. Novamente canção, feixe de ego e cisão. Não é geografia sonora, é infixidez do território, seminomadismo tonal, zona fronteiriça entre a música e a dúvida, entre a dádiva e a maldição . Tigrão e Célia, Magnólia, Eufra e Mauricio, meus mestres me ensinaram a arte de ficar invisível e a coragem sonhando.  Aprendemos pela experiência cotidiana, que por vezes o viver do lado de cá da ponte é marcado por um sentimento terrível de holocausto, que não cessa nunca, dezenas de vidas ceifadas numa única noite, é aterrador, sufocante. Circuncisos na vida adulto, eu, Caminha, Mano, Godoy, Suete, Salete, Tai, Elcio, Caçapava e os Fischer.   A arte nos parece ser única coisa capaz de dar um contorno compreensível a essa nuvem de silêncios e narrativas sobrepostas, imagens recortas e sobrepostas, vidas quase fictícias, temporalidades  e geografias entrechocadas. Por conta das divisões internas, mal conseguimos saber de onde vem o chumbo. Sequer conseguimos sustentar um teatro livre como aquele da Bielorrússia. Serra o papo do vovô: A arte aqui tem a ver com a urgência existencial das coisas frágeis, sopros envolvidos numa engrenagem, quase sempre desgovernada e cruel. Clarianas, Capulanas, Quizumba, Crespos e outros tantos negros coletivos, são bons presságios, um refresco para tanta vida vã. Kaká um dia verá, fomos poeira do mesmo rastro no tempo. Semente ngaguelano, chão do quilombo da Mombaça, nova tribo.  Maria e Cristina da Paz Gomes, todos os Gomes e Olgins, marlenes e tiznau, nomes e sobrenomes de bambas. Mas homens que dançam também matam. Ronaldo  e Naldinho, Fl´pavio e Celinha, Irani e Solange, maria do nico, Margarida, Regna, João, Abrão, Maria, Rafael,   e batismos de sangue e canhão. Até quando? Toda palavra é excesso e um gesto é sempre feito de incompletude. Embrulho poemas em papel de pão: Escrevo eu meu computador de bordo, meu cérebro eletrônico coevo. Pode ser por culpa da escola, das professoras  que me deram trela, foram tantas, uma Alcione Abramo, outra Angelina, Antonieta, Maria  várias. Nunca me escolarizei por completo, conquanto doutor semialfabetizado e vingativo. Resquícios de oração: Me fiz em contracanto um juntador de letras, um catador de palavras e algumas frases com e eixo tenho me esmerado nisso. Notas e palavrões  escritos no vento: Também vendo quinquilharias variadas. Sou letrista que canta. Me dá licença! Quero entrar no seu campo de sentidos, para ver se minha vida ganha algum. Agora estou, estamos a caminho de Tonande Porã: Salve Zambi.