SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. por dez anos foi Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico, Dramaturgo, Ator e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artísticos e de pesquisa sobre musicalidades e teatralidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diáspora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI. Elenco de Gota D'Água Preta 2019, Criador de Agosto na cidade murada.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Cristianismo africano na antiguidade e influências coptas no rastafarianismo.

Cristianismo africano na antiguidade e influências coptas no rastafarianismo.
Professor “Salloma” Salomao Jovino da Silva (FSA) SP, Brasil.

Plano de estudo, para elaborar uma visão de contexto da África do Nordeste na Antiguidade, como sendo o território do cristianismo africano:
 1-Construir uma introdução com base na experiência cultural e musicalidades negras urbanas contemporânea e do reggae como mensageiro de Axum; 2- Reler Escritos de M’Bokolo, Ki-Zerbo, História Geral da África Negra, Sheik Anta Diop; Rever- Velho e Novo Testamentos e Escritos de Allain Corbain  e outros historiadores do cristianismo; 3-Rever e fichar textos e biografias dos criadores do pensamento Pan-africanista.

Um vídeo circula que na internet mostra sacerdotes coptas dirigindo o ritual do funeral de Bob Marley (www.youtube.com/watch?v=1rJr3IlTYBg). Alunos meus ligados em música Reggae, por vezes me abordam com perguntas complexas sobre Marcus Garvey,  ligações entre os Maroons e a cultura Rastafari, também sobre a viagem de Sellassie a Jamaica. Vez por outra também me indagam  sobre as caraterísticas da  Igreja Copta, a história da arca no Lago Tana, a História dos falachas e muito mais. Questões que tenho demonstrado grandes dificuldades de responder a contento. 
Convivi e convivo com “Rastas” paulistas, baianos e cariocas que adotaram preceitos da cultura popular jamaicana sob o estímulo musical do Reggae. Mas, nem sempre, a imagem “rasta” se traduz imediatamente em adesão a ganja, ao vegetarianismo, a vida frugal, ao anticonsumismo e os tantos princípios filosóficos e contraculturais que caracterizam o rastafarianismo como uma das religiosidades negras da diáspora negra.
Desde anos 1980 observo que em São Paulo e em todo país de 2000 para cá, talvez e, ocasionalmente jovens não negros adotam visual “rasta”, sem com isso demonstrarem ter necessariamente qualquer ligação direta com o reggae ou com a cultura Rastafari. Alguns, por motivos que desconheço, mas aceito sugestões de Kubik (2012) e Bauman (2000) sobre identidades voláteis, evoluem para uma identificação transracial, policultural e neohumanista bem interessante com culturas negras.  Particularmente tendo considerar que, ao menos nível da superfície, esse fenômeno é um desdobramento da mundialização da moda. Uma vez esgotando o repertório visual do ocidente a indústria de vestimenta juvenil vai buscar inspiração em “culturas exóticas”. Isso não é bom nem mal em si mesmo,  é a onda e nada mais. Mas, se a moda diz muito da sociedade contemporânea porque não olhá-la também com olhos de intensa curiosidade?
O gênero musical reggae foi  mundializado, sobretudo, pela performance estética e musical dos Wailers, sob a regência principal de Peter Tosh e Bob Marley, mas é muito mais que canções para embalar surfistas profissionais arianos queimados de sol. Não se pode desconsiderar que tal gênero foi inserido na indústria do disco e do entretenimento globais, desde finais dos anos 1970. Entretanto reduzi-lo apenas a isto é desconsiderar por completo a dinâmica daquilo que tem sido chamado, grosso modo, de contracultura negra , ou de cultura negrodiaspórica contemporânea .
Quando apresento em aula as imagens de grandes pesquisadores negros jamaicanos como Stuart Hall e Paul Gilroy e, brasileiros como o antropólogo paulista Carlos Rodrigues (Carlão do Maranhão) e da socióloga Gevanilda Santos, meus alunos demonstram surpresa por sua aparência com dread-locks. As tranças (“típicas” jamaicanas) masculinas e femininas além de fazerem parte de um visual negro utilizado como forma de afirmação identitária, dos anos 1970 em diante se constituíram uma referência simbólica, nem sempre direta e obvia à contracultura e ao que Gilroy chamaria da Modernidade dissidente, ou modernidade negra.
Ao buscar informações especificas sobre o cristianismo africano do Egito, Etiópia e Sudão na antiguidade e sobre a liturgia copta na atualidade, tenho me decepcionado com a quase total ausência de materiais bibliográficos, não somente em língua portuguesa. A constatação obvia é que o mercado editorial brasileiro e mundial continua sendo marcado por um eurocentrismo doentio. Se devido a pressão  atual exercida por um setor da classe média negra escolarizada, passou a se editar no Brasil, temas sobre a África genérica, contudo, estes temas a inda não incidem sobre a região nordeste, ou seja  a costa leste africana banhada pelo Mar Vermelho. (Segundo informação do pesquisador Rafael Galante, exceto os materiais didáticos do Ensino fundamental do Estado do Paraná, encontra-se alguma ênfase ao império de Axum).
Diante disso há não outra maneira, senão recorrer às fontes bibliográficas, nem sempre confiáveis, disponíveis na rede web: sites oficiais de embaixadas, blog de turismo étnico e blogs de estudiosos não acadêmicos. Restam ainda os bancos de teses de universidades europeias e estadunidenses, agora disponíveis, mas onde este tema também é parco, além de tudo sou capiau e periférico com pouco acesso, ou malversado na língua de outros colonizadores, que não os portugueses. Diante disso também lancei mãos as publicações em língua portuguesa sobre História global da África na antiguidade, em especial a Coleção da Unesco recentemente republicada no Brasil, História  Geral da África e autores como Joseph Kizerbo, John Reader, Jonh Illife, Cheik Anta Diop e Elikia M’Bokolo,etc. Por fim recorri também a literatura teológica e de História das religiões em especial história do Cristianismo e da expansão do Islamismo, para deduzir dai informações sobre as barreiras a penetração do islã e conflitos religiosos decorrentes disso, nas margens oeste do Mar Vermelho a altura do século IX.
Este texto tem natureza didática e esse é também seu principal objetivo, ou seja, um esforço em apresentar uma abordagem inicial sobre a formação e permanência de filosofias religiosas cristãs mantidas em comunidades do nordeste na África entre os séculos II e XVI e, no limite, tentar entender o lugar da religiosidade copta na formação do rastafarianismo. Portanto não tenho certeza se chegarei a aqui, a refletir sobre as influências etíopes na cultura jamaicana, nem sobre a difusão mundial do rastafarianismo, ou mesmo sobre a trajetória e concepções sobre emancipação negroafricana de Marcus Garvey.
Esta interpretação é demarcada por minha experiência frente a formação familiar onde um cristianismo protestante pouco ortodoxo, conviveu com religiosidade tradicionais da mátria africana, leituras esotéricas de bolso e uma série de textos da contracultura como Gurdjieff, Carlos Castañeda e Herman Hesse. Quero dizer, meu imaginário religioso, antes do contato com o anticlericalismo e o materialismo histórico foi bastante inundado por tais referências.
Meu interesse é político e intelectual, além de aprender e ensinar história de frente para ao Atlântico, também recai na intenção de diálogo crítico com as forças políticas, midiáticas e econômicas fundamentalistas cristãs, de orientação neopentecostal emergentes no Brasil. Ao evidenciar a constituição primeira de um cristianismo múltiplo e africano, antes daquele disseminado na expansão ocidental, espero lançar ácido corrosivo nos preconceitos tolos e convenções esgarçadas, mas duradouras, sobre pertinência das guerras santas e intolerâncias renovadas contra as religiosidade negras não cristã. 
Além desses fatos recentes mencionados, quais a relações tem tido os negros brasileiros com a África oriental norte, acima do chifre, ou as margem do Nilo e do Mar Vermelho? Essas relações são simbólicas e algumas poucas vezes diplomáticas, outras vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Um exemplo disso tem a ver com a memória com um evento cultural e político ocorrido do outro lado Atlântico, no ano de 1966, e que conto a seguir.
Entre as memórias da cantora Clementina consta que participava do Festival de Artes e Culturas Negras em Dacar, capital do Senegal, onde, a convite da diplomacia brasileira, deveria representar ao acento africano da nossa “música popular”. Em um almoço oficial, mas, descontraído, Clementina foi abordada em língua estrangeira, por um cidadão muito elegante, segundo ela mesma. Diante da dificuldade da comunicação linguística e como tocava uma boa música ao fundo, a grande dama da música negra brasileira, tirou o homem para uma dança. A comitiva brasileira toda se pôs de pé, avexada e provavelmente constrangida. Afinal seu par era nada menos que um dos homens mais influentes na política internacional do continente africano, ao menos aquela altura, chamava-se Haile Selassie, e era o rei da Etiópia.
Esse encontro selava uma reaproximação simbólica de uma nova África resultada da dispersão sistemática de africanos pelo mundo desde o século XV e uma África histórica e profunda, para a qual a Etiópia contemporânea podia muito bem  representar, uma espécie de elo perdido com a as primeiras formações estatais do continente.
Essas aproximações simbólicas atravessaram toda segunda metade do século XIX, quando cordões carnavalescos baianos e protoafoxés, levavam estandartes saudando o imperador Menelik II e suas façanhas militares contra invasores europeus. Foliões se autodenominavam súditos dos Negus, sinônimo de soberano, enquanto Menelik aparecia também em São Paulo como título de jornal da comunidade negra.
Esses simbolismos Africanos Cristinos poderiam ser levados a seu limite se, por exemplo, investigássemos a assimilação no Brasil do Culto de São Jorge, patrono da Etiópia Imperial. Ou se conhecêssemos os descaminhos percorridos pela mãe de Jorge Benjor, da Adis Abeba até o Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Não, não há registro, nem menção fiável de que africanos da parte norte da costa oriental tenham sido capturados pelos traficantes transatlânticos e remetidos aos portos brasileiros entre os séculos XVI e XIX. Mas, não seria de tudo estranho se surgisse algum indício de tal fato, no aprofundamento sobre as rotas ocidentais dos capturados nas costas índicas e nos portos do Mar Vermelho.
As conclusões mais imediatas é que, diferente do que querem fazer crer os intérpretes dogmáticos, em primeiro lugar, o cristianismo não constitui um bloco monolítico de crenças, filosofias, rituais e valores religiosos, que atravessa o tempo e espaço mantendo-se intacto, sendo sempre igual a si mesmo há 2.000 mil anos.
Em segundo lugar o cristianismo católico ibérico que foi enviado para costa ocidental da África e para o Brasil através de Portugal e para toda geografia da América Latina   via Espanha, quase nada tem a ver com o cristianismo africano da costa oriental, cujos preceitos fundamentais ainda podem ser observados em comunidades cristãs  de uma longa faixa de terras, banhadas pelo mar da Eritréia, onde hoje encontram-se países de maioria muçulmana, com exceção da Etiópia.
Que países hoje ocupam o espaço geográfico das antigas sociedades cristianizadas da África oriental e qual sua situação no contexto africano atual?
Estes países nominalmente são: Sudão e Sudão do Sul, Eritréia, Djbuti, Egito, Etiópia e Somalia.    Aguardem mais.                            


http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ethio_0066-2127_2003_num_19_1_1044?_Prescripts_Search_tabs1=standard&

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. ( Edusp-2004) Resenha


Um mouro desvela os africanos no Brasil


Por Salloma Salomão Jovino da Silva
A escravidão é certamente o tema que mais rendeu monografias, dissertações, teses, ensaios e artigos na história das ciências sociais no Brasil. Desde o ultimo quartel do século XIX e início do XX, estudiosos de áreas afins debruçam-se sobre esse aspecto da formação da sociedade brasileira. Clovis Moura gerou abordagens que, ainda hoje, seguem no contrafluxo das tendências dominantes. Criou e alimentou polêmicas duradouras e frutíferas, seja em termos de temática, de metodologia, seja no apontamento das ideologias que perpassaram os estudos da escravidão.
Podemos dizer que dirigiu sua contraposição àqueles cujo prisma traduzia os olhares da casa grande. Talvez por isso experimentou dores e descaminhos profissionais de um pesquisador não acadêmico, comprometido com as demandas de seu tempo.
Abordou as múltiplas práticas de resistência à escravidão, em que anteriormente só se via banzo, anomia, conformismo e imobilismo social. Sua grande contribuição consistiu em trazer a imprensa negra, os grupos artísticos e culturais, organizações e movimentos político-sociais negros para o centro da cena.

Clovis Moura foi pioneiro ao estabelecer um diálogo respeitoso e produtivo com os grupos negros organizados, o Movimento Negro, em um tempo em que a academia brasileira desqualificava-os frontalmente. No “Mundo Negro” ou afro-brasileiro formado pelos movimentos sociais de recorte etno-racial, apenas uns três intelectuais eram tão respeitados e queridos, ficando patente que havia ali admiração e respeito mútuos. Por isso sua morte foi bastante sentida. Moura é muito atual, justamente, por oferecer balizas coerentes à compreensão da reedição recente do mito da democracia racial.
A escravidão ainda é merecedora da atenção dos pesquisadores que têm trazido novas perspectivas sobre a concepção de família entre escravizados, ressignificações de identidades étnicas e sociais no contexto da diáspora, práticas culturais entre escravizados e forros, trânsitos de africanos livres entre a África e o Brasil e outras.
Não poderia ser diferente se pensarmos os impactos sociais, econômicos e culturais da entrada de milhões de africanos em terras portuguesas nas Américas. Foi central o papel exercido pelo Brasil no contexto colonial/imperial português, e em termos gerais ainda se sabe pouco sobre os “colonos pretos” nos séculos XVI, XVII e XVIII. Predominam generalizações feitas com base nos eventos do século XIX e de leve toca-se nas mutações sem ruptura das rotas e mercados de tráfico de gente africana no mundo transatlântico depois de 1822.
Clóvis Moura, sua primeira esposa Iracema, e sua filha Soraya. São Paulo/1963

Após décadas incansáveis de pesquisas sociológicas de tom histórico sobre “o negro brasileiro” e trabalhos históricos de recorte sociológico enfocando as “rebeliões das senzalas” e os potencias rebeldias do mundo da pobreza negra e urbana, Clóvis Moura praticava a interdisciplinaridade quando o termo nem existia, conforme o prefácio de João Baptista Borges Pereira.
Moura tornou-se, em função dessa visão abrangente, muito consciente das brechas nas pesquisas acadêmicas, dos anacronismos e equívocos vendidos de segunda mão. O Dicionário da escravidão negra no Brasil até onde se sabe é o único do gênero. Tendo em vista a dinâmica da língua falada e escrita, seu objetivo inicial era ir ao encontro das dificuldades do pesquisador contemporâneo no acesso das terminologias do século XIX para trás.
Como toda obra de fôlego, esta tem seus altos e baixos, limitações explicáveis, em parte, pelas dificuldades de um pesquisador à margem dos financiamentos, que, às vezes, abundam em campus ocioso. São apresentados fragmentos de documentos, relatos, legislação, narrativas, breves biografias de escravos e de potentados escravistas, além de uma significativa relação de nomes pouco conhecidos de abolicionistas, líderes de revoltas escravas de inúmeras regiões do país. O exagero mais evidente é a transcrição integral do projeto de leis para extinção do tráfico, elaborado por José Bonifácio de Andrada e Silva e publicado em Paris no ano de 1825, algo absolutamente desnecessário.

Clóvis Moura e o Prof.Zelbert L. Moore, Ph.D em Antropologia, na biblioteca da sua casa. São Paulo/2000.
Há flagrante ausência de dicionários de línguas africanas nas referências bibliográficas de várias palavras ou termos, inclusive de alguns falares africanos decisivos na formação da língua portuguesa do Brasil.  A palavra quilombo, por exemplo, de uso bastante recorrente na literatura escravista, é insuficientemente dicionarizada, embora se saiba de sua origem no tronco lingüístico niger-congo (banto). Mesmo trazendo um rigoroso inventário de vários tipos de formação social identificados como tal, falta a informação básica de que na África meridional, já no século XVII, um termo próximo, tchilongo, era utilizado para designar um espaço humanizado, ou seja, território.
Moura não deixa de expor sua tese ou ao menos algo que se tornou central em toda sua reflexão: o protagonismo dos negros na história do Brasil. No verbete “consciência cidadã do escravo” recorreu à literatura histórica mais recente, mais propriamente a João José Reis, para demonstrar a existência de uma “consciência étnica e social” entre os escravizados, durante uma revolta ocorrida na Bahia no final do século XVIII. Recortando um episódio atípico no qual a reivindicação escrava foi grafada (nos moldes do verossímil ocidental) – e por isso tornou-se documento histórico escrito para a posteridade – aponta que “neste caso especifico, eles estavam dando um salto qualitativo no processo de conhecimento de seu nível de exploração social e étnica, pois não se colocavam como cativos (objetos), mas como cidadãos (sujeitos), reivindicando direitos idênticos aos trabalhadores assalariados atuais, mediante contrato de trabalho” (págs. 111, 112).
Instrumentos de tortura como o anjinho ou o bacalhau são historicizados para recompor imagens de um mundo multiforme de sofisticada violência, em que estes eram artefatos de uso cotidiano. Instituições como as irmandades e confrarias de pretos e pardos, comissões de escravatura ou casas da roda nos dão uma mostra da complexidade do mundo escravista que não cabe apenas na dicotomia senhor/escravo. São pouco mais de oitocentos verbetes que compõem um mosaico da cultura escravista, a ser aproveitado por pesquisadores que ainda têm algo a dizer sobre o tema.

“Salloma” Salomão Jovino da Silva é professor e músico, doutor em história pela PUC-SP e pesquisador visitante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa.

Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. Editora da Universidade de São Paulo, 2004.




sábado, 29 de junho de 2013

Gosto muito do povo na rua.

Gosto muito do “povo” na rua sim.
Carta ao Jovem Amigo Daniel Fagundes
Gosto muito do “povo” na rua sim. Acho que tem várias insatisfações no tabuleiro. Contudo, por enquanto é majoritariamente um setor médio, urbano e escolarizado. Isso não diminui em nada o movimento. Entendo que sair da letargia é muito importante e coisas aparentemente pequenas podem se somar e criar um sopro de renovação nas formas tradicionais de fazer política. Podemos superar as frases feitas, a política elaborada em cartilhas e teorias universais.
Alguns estão correndo para capitalizar pra si: pessoas, partidos, grêmios, Ongs. Faz parte do jogo. Por enquanto é um exercício, um instrumento ativo-reflexivo pelo qual podemos aprender a fazer público, tudo aquilo o que o é. Podemos sair de casa em nome de um indignação e perder o medo da multidão de anônimos (Os Usuários de concessão de serviços públicos: transporte e rodovias, saúde, educação, cultura, lazer, etc).
Podemos chamar a classe política soberba e ordinária para o pau, encurralando-a, desabonando-a, tirando-lhe os privilégios (os salários, bônus e foros especiais por exemplo). Podemos também confrontar a grande mídia igualmente ordinária, subalterna e sebosa. Podemos pedir a cabeça do Ali Kamel por exemplo. Também podemos dizer em voz alta para os grandes veículos de comunicação, que não aceitamos mais sua baba monopolista, nojenta e cotidiana.
Nossas redes mostraram-se efetivamente importantes e sãs. Mas por enquanto é um exercício para gente aprender a fazer política cotidianamente. A Política deve deixar de ser monopólio dos lobistas, profissionais dos partidos e teóricos academicistas saudosos, para se transformar em ferramenta de micro–revoluções.
A campanha das “Diretas Já” era dirigida por partidos, o “Fora Collor” foi assumido pela Grande Mídia, mas o silencio atual dos partidos e lideres é bastante sintomático, não acha? Sabe por que? Eles foram surpreendidos, porque estão ocupados demais gastando a grana dos PAC-Dermes das copas de ouros, em quanto gente se sustenta nos Ás de paus.
       Vou te contar: ontem no fim da tarde caminhava pela USP- Universidade de São Paulo, quando vi um grupo de operários saindo das obras da biblioteca José Midlin. Eram todos jovens e negros. Brincavam entre si, enquanto caminhavam pelas alamedas da maior universidade brasileira, em direção ao ponto de ônibus, onde os ultrapassei.
Pensei na assepsia racial existente naquela instituição, pensei em mim, nos meus filhos, nos meus netos. Na mesma noite ouvi pela rádio USP o reitor Grandino Rodas, destilar veneno contra as políticas afirmativas. Meu pai freqüentou três anos de escola intermitente nos primeiros anos do governo Vargas. Agradeci a solidariedade do FDP do magnífico Reitor. Pensei, nos trabalhadores na biblioteca de Alexandria. Meus avos viveram na mesma fazenda que seus pais haviam sido escravizados na quebrada das Gerais. Eu como aqueles rapazes tinha que portar um salvo conduto, carteira assinada desde os 14 anos, senão era pau.
·         Mas eu não parei para chorar, ninguém na minha condição para. Só choro em velório e passeata. em velório pela sensação de perda e em passeata pela sensação de força.
Ainda dias atrás, não mais ontem, com o cancelamento das aulas na FSA, tive a oportunidade de chegar mais cedo em casa depois de andar apelo centro de SP e me comover com as "marchas por melhores dias" e transitar a esmo, tentando entender  o que se passa. Ao ligar o Televisor e ver sempre as mesmas imagens, zapiei até selecionar a TV SENADO. Fiquei por alguns minutos ouvindo ao vivo o "histórico" SENADOR PEDRO SIMON.  SIMON Com sua retórica peculiar cobrava providências da presidenta DILMA e mesmo tempo construía uma capa discursiva para eximir de culpa o legislativo. É provável que a assistência da TV Senado, naquele instante fossemos apenas, eu e o câmera e talvez outro SENADOR NEGRO REPUBLICANO, o PAULO PAIM, que se encontrava no plenário cochilando. Negro e branco, ambos eleitos pelo RS, dois partidos apaixonados pelo poder, ambos tramam e se conluiam pra nos foder.
·         SIMON e PAIM figuras vazias de um congresso igualmente vazio, uma representação também vazia, e Simon discursando, discursando para moscas, até que a câmera abriu uma panorâmica para que eu visse o senador Cristovam Buarque. Buarque também solitário, com um olhar perdido no vazio do congresso.
·         Fiquei pensando o quanto eu admirei aqueles velhos senhores, um pela eloqüência, outro pela persistência e outro pela suposta luta pela educação pública. Ambos tentavam se esconder das fagulhas da fúria (pacífica) popular que explodiu em todo país. os imaginei como ratos gordos e velhos. Ratos que se lembravam do tempo em que roubavam queijos frescos na dispensa da CASA GRANDE e, que agora discutiam como fazer para manter os pedacinhos de queijos que conseguiram amealhar e carregar para seus buracos pessoais-locais-regionais.

Fiquei triste por eles e por mim que cri em vão nas mudanças graduais, nas idéias republicanas tipicamente brasileiras, na lisura das instituições, na depuração dos nossos defeitos como sociedade ao longo do tempo. Pensei nos republicanos que, Luis gama criticou a acabou sendo vítima.
·        
Fiquei sabendo que o presidente do PT, mandou que juventude saísse pras ruas para confrontar os ativistas anti-partidários e não para se somar a eles. Observei silenciosamente de dentro ao longo dos anos 1990, quando a política partidária (em SP) se transformou um jogo de cinismo e hipocrisia. Vi quando certa hegemonia interna impôs expurgos, centralização e criou Ongs, empresas de fachada e se irmanou da burocracia.  Apenas não percebi em que momento a agenda das organizações de trabalhadores foi seqüestrada pelo partido e que nunca mais a devolveu. Vi quando amigos de adolescência trocaram Grajaú, Pedreira, São José e J. Primavera por mansões na beira da represa, condomínios em Moema ou Flats nos Jardins.
Não falo da busca legítima pela prosperidade não, fala da ganância e da soberba mais rudimentar. Falo de perpetuação da cultura política baseada da apropriação do estado para negócios privados. Penso em uma fotografia tirada em pleno Largo 13 de maio, com Gabriel nas costas, e nós na campanha de um operário nordestino, que se fez uma das lideranças mais importantes do país e que chegou a presidência da república e foi sucedido por uma mulher.
 Mas e daí?
Observamos que na semana de protestos a policia aquartelada e zero chacina em São Paulo.
Intuímos que a evolução patrimonial de ex-secretários de transporte municipais e estaduais, nos últimos 20 anos, explica tanto o alto custo e mau serviço. Vamos seguir adiante, "agora já não nos importa mais o que acontece dentro do muros do palácio".
Imaginem essa onda civismo e de boa vontade se espalhando pelas assembleias legislativas, câmaras municipais, governos estaduais e municipais. Imaginem banqueiros, grandes empresários e instituições patronais de repente irmanadas desse clima de justiça e bem comum. Se acuado, o Congresso funciona 5 dias na semana. Se “sensibilizada”, a presidência governa para todos e com todos os ministros trabalhando. Se instado, o Judiciário cumpre pauta. Se denunciada, a polícia cria ações planejadas e quase age dentro da lei. Se o impulso durou só uma semana, imagine se durasse um mês, teríamos a tão prometida República e até o final do ano inauguraríamos um país, e talvez um país democrático, justo e soberano.
"Essa noite não alugarei os meus ouvidos pra nenhum cristão

Essa noite não emprestarei a minha vida para nenhum soldado"

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Coletivo Negro em pesquisa

Fragmentos de uma palestra ocorrida na CASA DA LAPA (COLETIVO CULTURAL E ARTÍSTICO)

Coletivo negro- Sobre a busca do “homem comum” e da impossibilidade de visualizar um ser humano universal.
A pesquisa atual do coletivo negro é sobre algo que denominam “homem comum”. Penso que: A linguagem não é uma forma neutra de expressão de idéias.
O Coletivo é negro, e é um grupo de teatro composto por jovens que se autodefinem como tal. São negros, pardos e pretos para o IBGE. Certamente são descendente de africanos, pertencentes a um ramo específico da diversa humanidade e vivendo na metrópole paulista. Uma parte da nossa conversa então é condicionada por estes fatos:
A- Os africanos foram espalhados pelo mundo já a partir do século XV, em função da expansão do ocidente. B- O tráfico e o escravismo formaram o mundo que vivemos e nossos ancestrais foram arrebatados por este evento histórico, como coadjuvantes ou como vítimas.


Por isso nosso protagonismo é mito difícil e caro.
Essa nossa conversa tem tudo a ver com estética e menos com História. Por um momento vamos pensar a criação artística pode prescindir da História em nome da liberdade. Portanto se eu divagar um bocado, me perdoem, mas me parece que o convite gera margem a isso, devaneio, criação, fruição livre do pensamento e quem sabe em meio ao delírio criativo haja condições necessárias ao redimensionado dos nossos paradigmas cognitivos e culturais. Herdamos isso, sejam parâmetros racionalistas e cartesianos, sejam outras formas de pensar o mundo, advindas das culturas afro-indígenas (mas que temos grandes dificuldades para acessar).
Nas artes é possível plasmar um ser humano-síntese, como ficção, como metáfora ou alegoria e isso pode ser pensado e realizado sem cair na armadilha de supor este (humano ideal) seria encontrável em estado físico palpável, cuja tangibilidade exista em alguma realidade social.
Por que todos os seres humanos têm suas existências concretas amparadas, de uma maneira ou de outra, nas tramas social-cultural e histórica. Embora elas determinem quase todos os parâmetros de sua existência e sua identidade, a margem que sobra é preenchida por algo que torna cada um uma alteridade em si. Essa pequena porcentagem de autoconstrução se situa em um campo indeterminado, é uma zona de sombra, onde mora o desconhecido, onde reside o mistério, o erro, o imprevisível e o acaso. Antes, porém, queria tomar as palavras que estão utilizando para chegar seus limites semânticos, já que dramaturgia, nos moldes que conhecemos somente se torna efetiva, sobretudo, quando há palavras e corpos em cena. Ou então é apenas literatura, uma a narrativa específica, mas literária. O teatro depende do empréstimo de corpos e hálitos para se materializar.



A palavra homem, ainda é capaz de sintetizar todas variáveis do gênero humano?
Quando falamos homem como sinônimo de humanidade não reiteramos o gênero masculino como norma e reificamos a posição de superioridade do masculino?
Nossa busca é pelo homem comum, o pelo ser humano ordinário de qualquer gênero?
Estamos em busca do ser humano “típico” que vocês denominaram homem comum? De onde nasce a idéia da existência de um “homem comum”, e o que ela significava no contexto do seu surgimento?
Será que existe um ser humano capaz de resumir em si, toda experiência e complexidade de um grupo humano?
Algumas correntes teóricas advindas do pensamento ocidental, que fixaram o estudo dos grupos humanos diriam que sim.



Algumas linhas do pensamento Antropológico, Sociológico, Psicológico teriam acreditado piamente, que era possível deduzir todas as variáveis dos comportamentos humanos localizando e isolando os fatores comuns, as recorrências e normas e ao mesmo tempo desprezando o que poderia ser considerado incomum, extraordinário e atípico. Nessa perspectiva somente seres machos capazes de grandes feitos teriam as características a priori e necessárias para serem considerados heróicos ou geniais, por exemplo. Não estamos falando de arquétipos, mas de idealização.

Esses traços geralmente proviam do sangue, da raça ou da classe social. As narrativas sobre Homens Excepcionais podem ser encontradas em revistas de quadrinhos, bíblias, livros sobre militares, mas também em artigos, teses, monografias de pesquisas históricas, antropológicas e sociológicas, aos montes.
Não temos como prescindir disso, embora possamos submeter este legado a uma crítica cotidiana, uma desconstrução hercúlea, verificando e denunciando suas falácias, contradições e falsos pressupostos.
As figuras exemplares do passado recente, diferem das celebridades atuais por conta da longevidade. E embora esbarrem na quase mitologia, são de natureza distintas em função do suporte de difusão de suas biografias.

Nós podemos ir um pouco além do que celebridade para estudar o que efetivamente deve ser celebrado por nós, uma celebraçam pro exemplo contra a amnésia cultural. Também podemos fazer isso usando as ferramentas transformadoras que este legado eventualmente possa oferecer. Ao fazê-lo negramente conscientes também ser leiais a certas estratégias que os a intelectuais orgânicos diaspóricos desenvolveram nos últimos dois séculos. Falo sobre os usos das tecnologias da imprensa, da educação formal, da literatura, da música, das artes em geral para disseminação do que poderíamos designar “Consciência Negra”, nos moldes propostos por Stive Biko.
Contudo é necessário salientar que estas ferramentas de estudo e conhecimento das humanidades desenvolvidas no ocidente no auge da sua expansão, partilharam também um certo sentimento de masculinidade triunfante de orientação bélico-militar. Essa orientação plasmou uma arrogância étnica que podemos designar simplesmente, Eurocentrismo, etnocentrismo europeu ( Veja, Joel Rufino do Santos).
De fato existem fatores comuns que podem ser localizados em diversas sociedades humanas e coletividades humanas, digo em grupos nacionais, éticos e sociais ( ou classe se assim alguns preferirem). Refiro-me ao que C.G. Jun designou em “La Strutre de l’inconscient”. O conceito de inconsciente coletivo parece-me que diz respeito a isso.



As condições mais gerais de existência podem servir como fatores de equalização das atitudes, valores e comportamentos. Mas quais os lugares para as atitudes e comportamentos tidos como atípicos, desviantes ou anormais?
O pensamento de matriz judaico–cristã que tanto influenciou nossa visão de sexualidade por exemplo, reservou um lugar discriminatório para as pessoas de desejo sexual ambivalente. Hoje definidas como bissexuais. Esse comportamento tido para nós como atípico não foi encarado assim em todas as sociedades. A mitologia africana nos dá mostra da existência de outros parâmetros de definição de normas sexuais onde homessexualidade e ambivalência sexual não ocupavam um lugar de estigmatização.
Segundo o controverso estudo de Dean Travish, “O amor na África negra” , no mínimo, pode-se dizer que, os europeus colonizadores demonstraram grandes dificuldades em assimilar e compreender os costumes sexuais dos antigos Dahomey, Wolof , Lango e Tonga no que tange a homossexualidade masculina. Inda não há um estudo razoável sobre o impacto da moral judaico cristão sobre as práticas e simbolismo sexuais africanos. Dado natureza complexa desse tema na cultura ocidental contemporânea, mas no Brasil as pesquisas realizadas pelo antropólogo e ativista Luis Mott são as referências mais difundidas. Em outras palavras, diferentes culturas atribuíram diferentes valores a comportamentos afetivos ou sexuais semelhantes.
Divagando, mas voltando. É nessa trama onde nos encontramos, nós negros e índios, brasileiros mestiços, americanos do sul, vivendo nas beiras da metrópole, na geografia da antiga real província de São Paulo, por conta da colonização, do trafico negreiro e da escravidão, talvez apenas por conta dele nos tornamos “Herdeiros” da história, da memória e cosmovisão e das tradições ocidentais.
Alguns intelectuais ocidentais foram precisos na compreensão e desvelamento das estruturas de poder, mas nenhum mergulhou tão fundo na dissecação do Estado, dos saberes científicos, dos mecanismos modernos de coerção e subjugamento quanto Michel Foucault. Mas podemos ir além. Existem várias formas de normalizar e normatizar os comportamentos humanos em grupo: O pensamento religioso se apresentou como uma das suas formas mais recorrentes, duradouras e eficazes. A Igreja. A Família nuclear. A Justiça, A escola .
A Justiça- Outra forma de normatização é a jurisprudência, a lei, seja ela nas sociedades tradicionais e de base oral, seja nas sociedade contemporâneas, onde se fundamentam em textos legais em prescrições os constitucionais.
A escola- Colocar as crianças em um caminho detalhadamente traçado, onde se ensinam os comportamentos, nessa caso as instituições escolares, tem por prerrogativa formar dutos normativos de idéias e atitudes.
A cadeia. O manicômio e Morte tem sido as forma de controle social mais utilizadas, mas nem por isso eficazes.
A arte pode funcionar, e já história recente demonstrou essa possibilidade, como uma sonda capaz de antever e gritar alto para os incautos sobre o advento das tragédias humanas, os
holocaustos eventuais e duradouros. A arte por viver na beira da insanidade transita entre mundos. A arte contemporânea pode restauradora do humanismo.


Obvio que falo de uma instância criativa idealizada. Nunca no Brasil a indústria cultural foi tão sedutora. Quando os recursos financeiros eram distribuídos no balcão para meia dúzia de cineastas, fotógrafos, montadores de espetáculo, tínhamos que passar o chapéu e percorrer a periferia de em caminhão de lixo para fazer cultura em São Paulo. (Uma vez, lá pelo início de 1980, voltando de uma apresentação do nosso grupo de Música-Teatro “Circo Novessência” no Bairro de Pedreira, caminhávamos pela avenida principal, quando o motorista-lixeiro nos ofereceu uma carona na boleia. Nós optamos por viajar entre o chorume).
Qual o lugar do personagem masculino na produção do coletivo negro? Nossa pesquisa visa extrair um personagem de uma o mais personas? Quais termos são mais adequados e que conexões eles mantêm com diferentes áreas do conhecimento?
Indivíduo, pessoa, personagem, personalidade, caráter, individuação e individualidade. A arte é um exercício de conhecimento da realidade social? A arte é um exercício de auto conhecimento? Que compromisso deve ou não assumir o Coletivo negro no seu processo de criação e difusão? Estes compromissos, estéticos e políticos vêm de dentro do próprio grupo e de uma correlação dentro e fora, simultaneamente?

Salloma salomão Jovino da Silva

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Coletivo Negro atualizado.

Não vão assistir a peça de coletivo negro.
Não aceito café frio. Entre, ela diz com doçura.... entre.   Não entre se não quiser ser assaltado pelos seus próprios sentidos, suas próprias imagens, contradições.   O mundo é colorido, mas as cores preto e branca contam muito dos simbolismos cromáticos e estereótipos raciais que mundo moderno elaborou e hegemonicamente disseminou pelo mundo durante as colonizações de espaços, corações e mentes.



Coletivo Negro é o nome de um grupo teatral, mas é mais que isso, é um pequeno bloco de existências humanas. Existências reais que se uniram em torno de um projeto estético e político e utilizam sues corpos para suportar estandartes de sínteses também humanas, agora em forma de trama e ficção, tipologias e  sínteses. Em são 6 (um na coxia) homens negros de tons graduados do bege-bérbere ao haussá e duas jovens mulheres de “granito denegrido”,  retintas e singulares, uma no centro outra na penumbra, mas ativa, dando suporte e dirigindo.  




O texto é quase poético-concreto e dilacerante, mas as imagens daqueles corpos jovens e negros em roupa branca de diferentes texturas já é em si, um desafio para aquilo que os olhos podem ver, mas também para o que o imaginário cristalizou. As soluções cênicas são impressionistas, econômicas, práticas e inovadoras, não há ali fiação solta, gambiarra, nem improviso, há efetivamente um conceito de economia criativa em construção e materialidade.



Dessa vez me impressionou muito a música....fragmentos de soul, blues e toques de musica litúrgica africana e afro-brasileira, para melodias para quatro vozes, sem grandes elaborações polifônicas ou intervalares, mas com efeito musical rico e de grande funcionalidade cênica.   




Mas sugiro que não vá assistir, fique em casa diante do computador ou assistindo zorra total no sábado e fantástico no domingo. É  bem cômodo.  As imagens de sociabilidade negra que o Coletivo arqueologicamente prospecta e em meio a música e o texto e projeta em tela em movimento,   jamais serão mostrada na globo, nem em novelas , nem mesmo no Programa Fantástico.  Essas imagens falam de histórias negras que não são atraentes para mídia, porque nos mostram em mais perfeito estado de dignidade.




Os fios das narrativas individuais que se entrecruzam na dramaturgia, estabelece um novo padrão de construção teatral  em se tratando de teatro negro. Rompe com tendência fragmentaria e vitimizada, cuja matriz seria literatura abolicionista oitocentista, matizada em textos de um Castro Alves, mas que inundou parte do imaginário dos movimentos negros urbanos e das práticas culturais negras. Um eterno arrastar de correntes e cânticos lamentosos, muitos dos quais eu também entoei, endossei e difundi até bem recentemente.



Essa emancipação na forma e conteúdo ainda embrionária, só é possível mediante a uma crítica interna, feita de forma criteriosa e afetiva. Uma crítica que leve em consideração a história sociocultural das artes negras nos séculos XX e XX, mas que também esteja tenta a genealogia dos discursos negros e, sobre negros.


Há uma fonte  literária critica e abolicionista, mas que foi rechaçada pelo cânone  literário nacional brasileiro do inicio do século XX: Luiz Gama. Sua escrita contundente e irônica ainda hoje soa petulante aos ouvidos e olhos conservadores.  Suas construções idealizadas em torno da figura mulher negra foram captadas e ressignificadas por Solano Trindade e Lino Gudes. Por fim reapareceu em caneta masculinas e femininas do Quilombhoje literatura, mas ainda de forma tênue e sutil. 

                     
Quiçá esta cena exploda seus limites para fora dos pequenos círculos de intelectuais negros e periféricos, abrindo caminho para novas expressões, novas cenas, novos sujeitos coletivos. Tomara que os protagonistas dessas experiências tenham gás e para fazer os enfrentamentos necessários na arena da disputa política na área da cultura e ainda guardem energia para continuar criando e expandindo os limites estéticos, filosóficos e formais da Artes Negras brasileiras diante do oceano criativo do atlântico negro.       

Texto construção.             



Coletivo Negro- O silêncio de depois.
Para assistir a peça “Movimento numero1: O silêncio de depois” produzida pelo Coletivo Negro, no Auditório do SESI,  eu e minha família enfrentamos uma saga, mas chegamos na ponta sudeste da cidade. A Vila das Merces, na geografia de São Paulo, fica entre as vias Anchieta e Imigrantes. Tenho me dado a esse luxo, sorver teatro, música, dança e cinema a preços baixos ou gratuitos no centro ou nos arredores da cidade e ianda vou com todas as mulheres. Vejam que nem tudo aqui é anomia, caos ou desgoverno.
No meio do caminho pra lá, ja perto da Casa de Cultura Chico Science tristemente semi-abandonada, parelhei o carro ao lado de outro estacionado em uma praça, queria pedir informação. O motorista se assustou, tive medo, um casal jovem e negro namorava. Caso fosse um policial neurótico sem raça-cor e coldre cheio, poderia ter sido facilmente alvejado por disparos. A "corporação", para proteger o seu, faria o resto do serviço: montagem de cena de confronto com pcc, armas nos corpos, testemunhas oculares seduzidas pelo medo e uma matéria tosca e incriminadora  veiculada na baixa imprensa servil. "Sim ele tinha passagem". Seriamos números do SEADE. Quem se importaria?




 Calma!!!!! Esse não é um pequeno artigo sobre o viver negro em São Paulo durante a guerra entre as milícias e as gangues. É apenas um breve relato sobre um fragmento da Cena Cultural Negra em São Paulo. Quero dizer que, meu texto pode ser lido como se nada tivesse a ver com racismo violência e outras coisas desagradáveis ao público consumidor do entretenimento.
O COLETIVO NEGRO,  é um grupo de teatro composto por talentosos jovens negros (parece redundante, mas há teatro negro sem negros) cujo tempo de existência trajetoria mais detalhada desconheço. Formado por Aysha Nascimento, Flávio Rodrigues, Jefferson Matias, Jé Oliveira, Raphael Garcia e Thaís Dias.
“A peça do Coletivo Negro: “Movimento Número 1: O Silêncio de Depois...”, foi a materialização cênica do projeto de pesquisa cênico-poético-racial intitulado: “Quilombos Urbanos”, investigação essa que foi contemplada pelo governo do Estado de São Paulo, por meio do PROAC (Programa de Ação Cultural) em 2010 e teve em sua configuração a visita e troca de conhecimentos entre o Coletivo Negro e o quilombo Ivaporunduva.” http://coletivonegro.blogspot.com.br/p/o-silencio-de-depois.
Um pequeno, convencional e confortável Teatro de bairro, como eram antigamente o Paulo Eiró e Martins Pena. Ou ao menos foi assim que os vi, ao fim do governo Erundina. O ambiente bacana, sem tensão, muita gente igualmente amável, pouco público. O formato arena foi criado apenas com disposição de duas fileiras de bancadas para o público se sentar bem próximo, encima  do palco. Cenário, luz e figurino módicos e atuação monstro, texto idem. Ficamos bem perto dos atores, praticamente em contato físico com eles, creio que não por acaso.
O diretor e o escritor do texto estavam em cena, mas Jê Oliveira apenas operava o computador que emitia os sons gravados, ruídos do trem. Considerando o frescor dos anos, mano!!!!! O Jê Oliveira escreve bem pra caramba (me disseram que o texto é dele!!!, mas no material de divulgação não se faz menção). Alguns grupos tem aestratégia de diluir o protagonismo, talve zpara reforçar o esepirito asociativo e não fomentar egos facilmente infláveis.
“Em  2007, após a montagem do experimento cênico  ‘Um longo caminho que vai de Zero à Ene’, de Timochenko Wehbi, dentro do curso de direção da Escola Livre de Teatro de Santo André. Jé Oliveira, diretor da experimentação, começa a fomentar junto com os então artistas-aprendizes. A possibilidade de aprofundar a pesquisa que tinham realizado para aquele trabalho, cujo pano de fundo era a invisibilidade social.” Idem blog Coletivo Negro.
Essa linguagem, dramaturgia, pra mim é um mistério, por isso meu fascínio, não sei como orquestrar vozes, corpos, textos, luz, objetos, tudo para veicular algo coerente. O que mais me encanta nessa cena é perceber que se trata é uma juventude negra muito melhor que a minha. Melhor tecnicamente, melhor artisticamente, melhor politicamente, embora alguns dilemas e cacoetes da negritude das décadas passadas se repitam, insistentemente.
Então vamos lá: O texto nem sempre desliza, mas não confunde nem cai, se sustenta, segue e vai e no fim emociona mesmo. Difícil articular poeticamente cinco vozes dissonantes e complementares, vozes negras arquetípicas. Voz- África mãe e terra/memória, Voz-mulher negra/ventre livre, Voz-homem negro-traidor pai João, Voz- homem negro-heroi Zumbi=rebeldia, Voz-Instrumentos/contrabaixo/tambores e canto.
O texto que é então uma polifonia começou a ser destrinchado ainda na porta, durante a entrada do público. “O Silêncio depois”, nos quatro pontos do espaço cênico quatro vozes coesas, uma bem forte, feminina, grave, majestosa e máscula. Quem suportava essa voz? Sua dona era uma mulher, quase recém menina,  com cara de lua nova, envelhecida pela personagem A Antiga, ou África mãe.
Tratar a História não contada como corpos insepultos, nos remete a Walter Benjamim na tradição ocidental e em cosmovisões bantus. Os defuntos sempre perturbam ou ajudam os vivos.  O tempo inteiro são os mortos que destilam as varias faces do racismo anti-negro. A aguardente na nossa boca, prenuncio da overdose etílica, quando pode vira vômito na cara da sociedade. Quem tá disposto a isso? Sentar e ouvir tim-tim por tim-tim o “Negro Drama”? Mas o texto não é sobre a dor da inconsciência negra, mas do papel exercido pelos que se foram dessa concreta existência, “cemitério dos vivos", para a kalunga eterna, a água dos mortos. Veja: http://www.pucsp.br/ultimoandar/download/BrigidaMalandrino.pdf    
Não há linearidade no discurso, apenas previsibilidade no desfecho, embora sem fato histórico especifico. O pano de fundo é a linha de trem, que para ser instalada, precisa desalojar as precárias moradias e seus habitantes. Feliz alusão a tantos e infelizes desalojamentos de negros e pobres para  “passagem do progresso”, fato constante no Brasil desde o século XIX.
O desterro símbolo África, desterro sina Brasil contemporâneo, nós somos os estranhos de porta adentro, uma recorrência do processo de desenvolvimento econômico, exploração imobiliária e expansão urbana combinado com racismo ambiental (brancos no centro), fenômeno estudado por várias perspectivas. Raquel Rolnik, entre outros, foi pioneira no mapeamento e desvelamento desses processos. http://raquelrolnik.wordpress.com/1989/09/16/territorios-negros-nas-cidades-brasileiras-2/
A voz África mãe, corporificada na Atriz Thais Dias traz uma gestualidade que insinua afro dança, mas ela apenas indica comedidamente, é mimese e não coreografia. Esteticamente seria por demais obvio, lugar comum nos grupos iniciantes, essa foi uma ótima solução. Cumpre duplo papel de narradora e personagem chave, sua construção é encantadora e compensa com sua performance, a luz e figurinos ultra-econômicos ou quase precários.
As vozes homens negros traidor e herói (têm pauta relativamente curta, cumprem o exercício no jogo da bipolaridade, símbolo de consciência X alienação, recriando os arquétipos mais rasos do enredo. Conquanto os atores sejam excelentes e façam uma exploração bem limpa do texto, projetam, performam, transpiram, se desdobram, mas comparativamente é pouco denso, têm pouco espaço de manobra, porque o texto não permite.                 
Está também lá o arquétipo mulher negra, corpo-samba, libido-sexualidade. Ao mesmo tempo é ela a portadora da transgressão social do contato interétnico. Mas há tembém a interdição e a queda inexorável. Aqui a bipolaridade negra-branco se mantém também nos níveis mais elementares, nos enredos e desfechos construídos durante a década de 1970, que eu também não sei se superamos na vida real, muito menos na dramaturgia. N´so avançamos bastante na compreensão da diversiadde negra, mas ianda não estender isso a compelxidade dos bancos. Que brancos são esses no Brasil? Perguntou um ilustre professor negro de Minas Gerais, em uma banca de metsrado na UERJ. A sua questão dizia respeito anecessidade de colocar no nosso repertório de perocuapações os setudos sobre as branquitudes. As noções branca de pertencimento. Fora Lia Vianer, chegaremos lá?   


Aysha Nascimento tem corporalidade delicadamente magra e quase fashion, a musculatura é torneada e de pouco volume. Não é alta, mas esguia e tem um timbre contralto de acento blues. Seu figurino é uma minissaia dourada de lantejoula e a blusa preta brilhante. Bem cavada nas costas, a roupa deixa à mostra sua musculatura, que vai dançando suave sob o decote. O batom leve no primeiro momento é depois borrado para destacar a arcada dentaria de propaganda de creme dental. Seus ressaltados no quase choro é raivoso, mas impotente, algo muito diferente da maioria das mulheres negras na vida real. 
Essa voz feminina traz carga de uma persona de ficção e de algum realismo, pode ser ouvida e também lida  como síntese de certo romantismo feminino, que não ficou nas fotonovelas, nem nas revistas distribuídas massivamente em bancas de jornal (Grande Hotel), para um público cuja leitura prescindia do texto. Essa cultura de massa também construía idealização masculina, obviamente o macho-branco, escolarizado, possuidor de bens e possível facilitador de ascensão. É esse que a Rainha encontra e desmascara, mas invés de revê-lo, se revela. Ela a ingênua rainha do carnaval. Ainda simula a tipologia de Lima Barreto, Clara dos Anjos. É ela retinta e denegrida, mas decaída na quarta feira de cinzas, chorosa e enganada.
Há ressonância de um tipo especifico de discurso feminista-negro, cujo conteúdo pode revelar várias camadas de mudanças e permanências sociais e culturais na vida brasileira nas últimas décadas. Porém não é uma pesquisa de personagens históricos reais, não é sociologia do "problema Negro", sim criação de personagem-pretexto para uma narrativa cativante e bacana.
Duas vozes-homens e duas vozes-mulheres, umas vozes baixo-canto-batuques e uma cidade partida pela linha de trem, com casas à margem. Urbanidade é proximidade, fricção, tensão e solidão. A plataforma de lançamento dos contrastes entre os vários grupos de habitantes,  cidade é uma tendência inexorável desde Tombuctu e Genova do século XIV. Talvez desde lá, haja o fato da luta pela reversão da dominação macha e o avanço do fantasma da solidão avassaladora que cerca as mulheres em geral. Os machos são de aventura e guerra, nos bastamos a nós mesmo, porque ainda somos as medidas do mundo. Mesmo um macho negro, que fica na fila social-racial atrás das mulheres brancas, ainda rosna viril. Cuidado comigo eu tenho uma arma engatilhada.
Hoje há circulando entre nós, na cidade e no país, felizmente, uma infinidade de eventos, poemas, livros, canções e filmes produzidos nesses circuitos  que redefinem as alteridades e os possíveis afetos entre os seres humanos negros bem especificamente.  Muitos atravessam a “linha da cor” e arremessam brilhos regeneradores nos pontos mais salientes de nossas feridas e também tocam nossos irmãos e irmãs não negros, criam e estimulam novas formas de expressão e sociabilidade, convivência e civilidade.

Também há eventos e textos que pairam nas "regiões mais abissais do sentimento" de revanche, algumas vezes ainda veiculam discursos predominantes de hiper-masculinidade e de homofobia. Uns outros, embora oriundos de gente da pele negra, são bastante convencionais nos enredos e em alguns casos carregados de tinta individualista-consumista e disseminadores de misoginia. Vamos também silenciar sobre isso? Tem algum canto teatral para esse tema? 
Alguém dentre nós se mostra contente, esperançoso e entusiasmado quando os marqueteiros usam imagens de famílias convencionais (homem e mulher com duas crianças)  em propaganda de margarinas, supermercado, controle de natalidade, bolsa família, empréstimo consignado. Só, que  invés de brancos, colocam pessoas negras. Alguém pensa secretamente, agora podemos ser vistos. Algum amigo solidário, mas um pouco alienado pergunta: mas as coisas não estão melhorando?   
Até quando vamos, negros e brancos, nos esconder da discussão  sobre os relacionamentos inter-étnicos?  Até quando devemos aceitar que o debate fique nos limites dos parâmetros da Miscigenação Apaziguadora, ou do perigo da Diluição Racial dos Negros? Fora desse absolutismo étnico quase facista, como deixar de reconhecer e valorizar a presença dos euro-descendentes nas fileiras anti-racistas? 
Pode ser que a montagem cause algum choque aos brancos mais desavisados ou negros complacentes, porque o release apresentado pelo SESI sequer faz menção a questão racial.  Verdade seja dita: esses (as) jovens negros (as) criativos (as), corajosos (as) e organizados (as), constroem novos patamares para identificação coletiva dos descendentes de africanos no Brasil. Há nisso algo que os conecta as experiências do teatro Experimental vai Guerreiro Ramos e Abdias  do Negro e do Teatro Popular proposto pelo Solano. Digo sao fios delicados tecidos  no sentido de uma auto-educação política, social e cultural que viabilize nossa participação não subalterna nesta sociedade.
Eles e Elas do Coletivo Negro vão além de uma pedagogia sócio-cultural proposta nos anos 1940, posicionam a pesquisa estética como norte e mantêm preocupações políticas, mas ao que me pareceu, não abrem mão da reelaboaração, busca da beleza, da delicadeza e da solidariedade. Isso aparece no texto, na forma e no exemplo.

         
Vamos ao teatro? O texto é lindo, nos instiga, desafia e estimula. Somos teatro e musica, letra e dança, somos vida, somos o quisermos, somos negros sim. Descendemos do Deus Áfrico, Nzambi nos fez. 
 Movimento Nº 1 - O Silêncio de Depois
Quando: Quarta e quinta, às 21h. 60 min. Até 29/11/2012
Onde: Tusp (r. Maria Antônia, 294, Consolação, São Paulo, tel. 0/xx/11 3123-5233)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos