SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. por dez anos foi Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico, Dramaturgo, Ator e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artísticos e de pesquisa sobre musicalidades e teatralidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diáspora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI. Elenco de Gota D'Água Preta 2019, Criador de Agosto na cidade murada.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O INSTITUTO

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O Instituto.
"Nem o frio distante de Lyon
nem o olhares frescos das cortesãs saciadas
nem a brisa imberbe durante a febre terçã
tem a voragem definitiva do arco em chamas que te alocará do chão."
Sanderval de Lancaster. (1356)


Como de costume tomamos café no pátio. Assim eram todas as manhãs, a não ser quando chovesse. De tudo a gente comia, queijos variados, frutas secas, bolachas recheadas. Todos meio-nus no átrio sacro e no mais puro silêncio. O barulho do sapato dele fazia um eco tão forte no corredor, que dava a impressão de que mil homens, em trajes de guerra entrariam por aquela porta. E se viessem, certamente eles entrariam armados. Mas não, nunca, somente gente pura e casta entrava e saia daquele lugar. A cruz de malta ficava lá, centro do jardim, uma velha senhora, guardiã atemporal.
Desde a adolescência nossa rotina s elaterou pouco. Para alguns de nós permaneceu mesmo depois da desinternação. Acordamos, oramos, fazemos o serviço de quarto, descemos para o salão e novamente oramos.  Depois é que vamos para pátio  esperá-lo.  Nos últimos tempos começaram a deixar que troxessemos coisas de casa,  as vezes até incentivavam, eu trouxe um velho terço e uma guia de Oxalá. O primeiro herdei de minha mãe e o segundo de meu irmão inciado na Umbanda.
Certo dia após a oração matinal nos autorizaram a vestir nossas roupas, inclusive roupas étnicas. Uma outra vez, há quase dez anos ele, em pessoa, nos surpreendeu ao dar uma aula sobre Legbará e Sumé. Imagine só, ele sabia de tudo, conhecia muito bem alguns segredos, cantigas, orações, sinais de buzios e risco no ar.
Na maioria das vezes ele chegava calmo, normal, magro, quase franzino. Mas era gigante quando emergia da penumbra do seu escritório. Primeiro deixava que a luz projetasse uma sombra do tamanho da porta no corredor. Parava um pouco, depois ingressava performático. Antigamente aquela me parecia uma porta enorme, talvez a maior porta do mundo, menor apenas que a porta da Igreja da Penha e por sua vez era menor, talvez um pouco menor, que a famosa porta do céu. Que nunca vi, mas imaginava, quando cria.
Quando eu cheguei ao Instituto imaginava ele e deus, juntos conversando. Deus, grandalhão e velho, branco e barbudo e ele com seu queixo fino, a cara sem pelo, a pele lívida dos santos de madeira policromada e as mãos de limpas de um intelectual, mais macias que couro de peixe sem escama.
Lá estava ele, tranqüilo, branco, médio e educado. Falava com todos em público, fazia questão de se dirigir a cada um pelo nome e sobrenome. (Desgraçado, cínico, monstruoso).
Quando em vez escolhia alguém. Era sempre o mais cheiroso, alvo e limpo e cochichava.  Ele chegava bem perto e cochichava o apelido que ele mesmo nos deu. E por vezes ria, mas ria comedido. Punha a mão no rosto para se esconder, mas ria. Era então quando pronunciava nosso nome secreto, era nosso segredo, ele brincava. Lembro-me que falava manso no pé da orelha e isso em mim dava um tremendo arrepio, eu já não era mais um menino.  (tarado sádico, excomungado).
O reitor fazia uma prelação breve. Retirava dois ou três de nós para uma oração mais longa em seu escritório, que ficava no terceiro andar do prédio. E somente os escolhidos, o bem escolhidos, os escolhidos a dedo podiam entrar em outra sala contigua ao seu escritório. Eu nunca fui lá. Quem já foi nunca me contou nada.
Naquela manhã chegou mais cedo que de costume, veio como pisando em plumas, não fez barulho. Apenas eu notei, notei não, senti, senti seu peito que ofegava, enquanto ele ficou um longo tempo nos observando por entre as folhagens. Pensei. Qual seria o motivo? Cansaço, medo, angustia? Sei lá. Era um homem encantador, previsível, meticuloso e tão estranho. Não dizer sei se era seu sotaque do sul meio cantado, ou quem sabe os resquícios de latim.
Ele vinha vigoroso naquela manhã. Algo maneira diferente de andar, na roupa tão bem passada, sempre escura, pesada. Parece que escondia alguma coisa por detrás das palavras e da roupa. Como posso explicar isso? Na maioria das vezes que o via e ouvia falar, sentia algo como ver um filme, cujas legendas expressam coisas totalmente divergentes das imagens, uma flagrante contradição entre gestos e expressões faciais dos personagens e o enredo da história.
Mas o que isso quer dizer?
É um estado da alma, como diria Lima Barreto, uma tecla sensível. Quando ocorre somos levados a desconfiar da nossa própria capacidade de tradução. Não sei se acontece com você, mas por vezes me vejo em situações desse tipo. Isso é muito diferente de assincronia, delay ou atraso, como as antigas transmissões de internet.  Suas abordagens me davam esta sensação.
O desconforto que me causava, era muito maior, que assistir a uma técnica mal apurada.  Por vezes penso que sou eu quem desconectava temporariamente. Surgia em mim uma espécie de desdém pelo tempo real da vida, um apego por fragmentos de segundos. Por exemplo fixação em uma cena ou uma frase.
Era tão repentino. Bum, uma imagem sem som, em slow. Depois voltava aos poucos até reencontrar o prumo e o sentido . Outras vezes via que as bocas se moviam, as línguas iam aos dentes, mas ficava um vácuo de semibreve, entre mim e as coisas, as coisas e o mundo.
Isso não importa, mas já que quer ouvir, vou contar mais. Ficavam e ainda fico fora de mim. É apenas meu corpo solto no mundo. Tenho quase sempre volume exato das coisas, mas não tenho as referências do som. O som é uma coisa esquisita. Me imagino como alguém que ficou sem ouvir nada a vida inteira e de repente, já quase idoso, pudesse ouvir. Ficaria louco?
A questão não é o som e a imagem, é a imagem e som do mundo. Esquece é muito delírio. Não vou contar mais, desculpe, vou retomar a tal história.  
Aquela manhã ele parecia especialmente diferente. Não escondia os olhares como alguém falsamente tímida, não media as palavras como um orador profissional que era. Contudo falava diferente, dois tons mais alto, rápido e estridente. Quero dizer, um tanto mais agudo. Seus trejeitos não eram propriamente efeminados, mas menos contidos. Levava constantemente a mão esquerda ao cabelo e parava. Mexia no lóbulo da orelha carinhosamente, reflexivamente, olhava para nós, através de nós ou para o nada.
Sentou-se e repetiu a ladainha costumeira, monotônico e entediante. Estava como de praxe, no trono, ou melhor, na sua cadeira exclusiva, na qual ninguém se sentava sob o risco de não sei o que. Ditou mecanicamente a prelação matinal.
De repente começou a contar porque havia construído aquele lugar, o INSTITUTTO. Falou sobre suas atividades acadêmicas, lembrou-se de sua mãe. Do nada começou a narrar a última partida de futebol que jogou no fim da infância. Ninguém acreditou naquilo. Seria uma peça, um texto novo, uma pegadinha?  Ele falava:
“Eu adorava jogar bola, o futebol, era única coisa que meu pai elogiava em mim, minhas qualidades de futebolista. Talvez por isso eu gostasse tanto de bola e ainda hoje gosto. Estranhamente meu pai percebeu em mim, o dia em que algo dentro mudou irreversivelmente, não sei como, mas ele percebeu. Minha mãe somente percebeu muito tempo depois, pouco antes de morrer.” 
E seguia...
“Vocês que me vêm hoje, não têm idéia do quanto eu jogava bem futebol. Apenas eu, entre todos os moleques do bairro tinha uma bola de capotão, era assim que se chamavam as bolas de couro e a minha durou anos. Todo fim de jogo, eu a levava para casa, lavava e passava banha de porco, para conservar o couro. Naquele tempo era um brinquedo tão caro e raro, que muitos meninos ficaram meus amigos, somente em função dela. Da bola. Olhem só, uma esfera de couro, cortada em gomos, com uma câmara pneumática por dentro. Bendita invenção inglesa.”
Ele se levantou enquanto foi crescendo no entusiasmo, estava quase gritando:
“O futebol, me deu ritmo certo para andar sobre a terra.”
Nisso já havia abandonado o tom inicial, falava apologeticamente, gesticulava, pregava, já era ali um homem de deus. Seguindo:
“Foi jogando futebol que ouvi pela primeira vez a voz da terra e seu chamado. Ao ir de encontro aos corpos dos oponentes em campo, meninos negros lindos, apenas garotos suados e puros, sonhei. Arcanjos de carapinha faziam milagres entre traves e riscos no chão.  Aprender e sentir os limites do espaço e dos corpos que eles impunham no meu caminho e principalmente experimentar a queda, era como poder ler de uma só mirada todas as poesias bíblicas.  
Nenhuma lição prática e filosófica foi melhor de que ralar face no chão e desfalecer na terra. Desfalecer com a face no chão e ver. Ver o mundo a partir dos olhos mergulhados na poeira, bem ali com o corpo esfrangalhado e os olhos rotos, rentes ao chão. Creio que foi essa experiência crepuscular, entre a dor e o insucesso, uma quase-morte, que me ligou definitivamente a terra e logicamente aos meninos.”
Silenciosamente pensamos: os meninos!??
“Sim, os meninos. Uma oportunidade para eles, um lar, um lugar sem dor, onde tivessem a chance de aprender e crescer. Os meninos são o sal da terra.
Falo verdadeiramente do pó da terra, dos pedregulhos, das plantas rasteiras, das arvores de galhos retorcidos e folhas grossas, essa dimensão da savana e do serrado, entre a exuberância e ausência de água e de mata e os seres humanos ali, mesmo depois de mortos. Falo sobre a terra, sobre nós e as outras coisas que brotam e morrem na terra inclusive as cidades, as idéias, as técnicas e as ideologias e os meninos.”  
Estava com os olhos cheios d’água quando parou. Ficou ali parado em pé, alguns instantes se deixou cair no trono. E ficou assim tempos esquecidos meio largado, quase imóvel. 
Ninguém de nós nunca havia pensado sobre isso, uma iluminação advinda de um jogo de futebol. Estávamos extasiados. Era arrebatamento puro. Podia ser um homem santo, um enviado no fim dos tempos para nos resgatar da nossa insânia coletiva, como um anjo vingador.
Mas algo me intrigava. Porque ele havia adotado aquela fachada de intelectual engajado? Ao mesmo tempo era o que se pode chamar de um grande homem de negócios, um tremendo empresário, um empreendedor, que sabia negociar magistralmente seus inúmeros contratos, como ninguém ele gostava de ganhar dinheiro. Percebíamos sem espanto, o quanto ele gostava disso. Já vi com bolos de dólares. Ele se torna mais excitado, amais ágil, mais falante, quase um moleque.
Com tempo nos acostumamos com suas aparentes contradições. Sentava-se com prefeitos, secretários de estado, ministros, reitores de universidade públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. Porque se deixava fotografar entre agiotas, traficantes, juízes e políticos tão francamente corruptos e acadêmicos sem expressão?
Dizia sempre:
“Nesse país se você não se apresenta como empresário bem sucedido, ninguém, ninguém mesmo te dá ouvidos ou te abre as portas. Precisamos das portas abertas”! Usou como exemplo os grandes assaltos as joalherias e bancos da cidade.
Pensei então, é isso. Ele mantinha aquela estrutura e aceitava passivamente ser caluniado como usurpador, demagogo, libidinoso e até mesmo bandido, porque seu propósito era muito maior. Mas e os meninos, que será que ele faz com os meninos e porque será que ainda mantém esta entidade tão dispendiosa?
No exato instante em que fazia secreta e silenciosamente tais perguntas, ele se voltou para mim, exclusivamente para mim e fitando-me longamente, com doçura e voz materna, disse:
“Se você tiver coragem para me fazer tais perguntas, prometo que responderei sinceramente cada uma delas.”
Entrei em desespero, gaguejei, abaixei os olhos e comecei a suar. Ele insistiu, chegou bem perto e disse:
“Acalme-se, hoje vou te dar a chance de desvendar todos os mistérios e dúvidas  que você alimenta internamente sobre meus propósitos, se ainda assim restar alguma questão mal esclarecida, por mais tola e pequena que seja, você será liberado para partir.”
 Alguns exclamaram: partir?! Ele nem se deu conta da surpresa geral. Todos nos olhavam assustados e igualmente confusos.
Contudo, ele falava de tal maneira sedutora e acessível, que me deixou emocionado... E com medo.
Nunca me passou pela cabeça, que alguém ou algo pudesse me impedir de partir quando quisesse. Por outro lado, sabia que todos aqueles que estavam ali, os mais recentes haviam chegado há pelo menos 20 anos. Todos sem exceção passaram parte da vida como internos em educandários católicos e foram escolhidos pessoalmente por ele, quando chegaram à idade de 16 anos.  Todos o idolatravam e fariam de tudo para não decepcioná-lo, embora seus métodos de controle não fossem muito ortodoxos do ponto de vista pedagógico. Ocasionando momentaneamente, medos, pequenas mágoas e descontentamentos entre nós.
Quem era afinal aquele homem? De onde veio e por onde andou? Quais eram suas idéias, crenças e valores? Porque havia criado o Instituto após a morte do poeta?
Sabíamos que antigamente o poeta declarava abertamente que não gostaria que suas idéias gerassem um novo credo ou uma nova escola.
Porque ele havia recolhido os pertences do poeta pelo mundo e transformados todos aqueles objetos de uso cotidiano e prático em relíquias santas? Porque cobrava verdadeiras fortunas para traduzir textos do poeta? Porque levou tantos adeptos do poeta a morte, ao silêncio ou à proscrição?
Ele encarcerou durante anos a última mulher e um filho bastardo do poeta em um dos aposentos do Instituto. Ouvíamos gritos abafados de um dos aposentos... Dizem que os dois vocalizavam palavrões piores que aqueles aprendidos na terceira chapada, onde funcionava a casa de quengas.  Sabe-se havia escondido os escritos eróticos do poeta, talvez os mais libertários.  Principalmente sabemos que aliterou os escritos mais ricamente poéticos do homem bom, transformando-os em escrituras proféticas. Por fim roubou as ultimas idéias do poeta e as reduziu a acrósticos.   
A liberdade que o poeta buscava por meio de um rigoroso exercício reflexivo, extraído das relações humanas diretas, diálogos e conversações não hierárquicas sobre a natureza do conhecimento a da vida, ele transformou em filmes, hoje são revendidas no Instituto e também em bancas de jornais, livrarias e lojas de conveniência de todo país e mesmo no estrangeiro.  Nós e o mundo o víamos como um intelectual profícuo e homem de deus. Líamos seus livros, teses, novelas e melodramas. Sua última preocupação era com jogos digitais que queria adaptar a partir de contos populares infantis.
Era sobre isso que gostaria que ele falasse, mas não ousei inquiri-lo. Ele exibia sempre fotografias de uma vida exemplar e um currículo imaculado. Sua arquitetura personalista estava espalhada pelo Instituto, desde a portaria até o terceiro andar, em todas as paredes do prédio tinham imagens dele, sempre abraçado com o poeta ou celebridades.
O que sabemos sobre ele advém de biografias breves, releases publicadas na internet. Nasceu em São Francisco do Sul, litoral de Santa Catarina.  Seus avos paternos eram de família  oriunda da Itália, da região de Cilerito. Pelo que se sabe esse nome tem origens remotas, século XV, talvez.
Naquela noite não consegui dormir, fui assombrado pelo real perigo da excomunhão. Sair do Instituto. 


sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Invenção do Dorímetro



Em pleno mês de Maio, em memória das vítimas da violência institucional e em homenagem a mais um negro humilhado pela PM na velha São Paulo.

Salloma salomão Jovino da Silva
Alguém certa vez, me perguntou sobre a dor, se não uma questão apenas de ponto de vista!? Essa noção absoluta de relatividade deve explicar um fato recente que surgiu na mídia. No primeiro momento pareceu tratar-se de uma fábula borgiana. Permitam-me contar...

Há tempos que uma equipe de renomados pesquisadores esta montando um aparelho que possa medir a dor. Inclusive já divulgaram que o tal equipamento será capaz de fazê-lo em caráter histórico e retroativo. Um chefe do laboratório deu uma entrevista muito esclarecedora para um famoso jornalista honesto, sustentando que quando o tal aparelho chamado “Dorímetro” estiver funcionando, vai ter fim esse papo de cota, reparação, escravidão, holocausto ou denúncia vazia de genocídio.

Segundo o Doutor Oto Krackauer, responsável pelas pesquisas, a partir de agora vai bastar medir a dor de cada pessoa, de cada nação, de cada civilização e comparar com outras amostras, para saber se “certas reivindicações” de reparação, justiça e equidade têm realmente fundamento ou não.

O objetivo principal daquele que já é considerado “o invento do século” é justamente a economia de tempo e papel que propiciará. O proeminente intelectual, que é ao mesmo tempo o proprietário da empresa que fabricará o equipamento, argumenta que “muito dinheiro será economizado em psicanalista, em pesquisa antropológica, arqueológica, filosófica e histórica." Sua ênfase recai principalmente nas duas últimas que, segundo o genial pesquisador, “nada produzem de útil mesmo”.

Observadores mais atentos dizem que no Brasil, o mundinho acadêmico e científico está em verdadeira polvorosa. Corre a boca pequena que em alguns centros de pesquisa, especialmente em países em “vias de desenvolvimento” está em curso uma verdadeira corrida maluca em busca de aposentadoria, assim como das últimas bolsas de estudo disponíveis para essa área denominada Ciências Humanas.

Eminentes cientistas sociais laureados fora do país, já se anteciparam e mandaram seus Currículos Lattes, com as devidas cartas de recomendações às ONGs de Empresas como Camargo Correia, Odebrecht, Banco Itaú, Unibanco, Andrade Gutiérrez, Natura, etc. Sob o risco de perder as verbas de pesquisa preferem vender seu requintado trabalho a quem poderá pagar alguma, do que ter de lutar por uma maior democratização do ensino superior.

Mantendo o anonimato, certo decano da USP, fala que alguns verdadeiramente pesarosos e dizendo adeus aos longos seminários internacionais as custa dos cofres público. Aqueles pesquisadores que já conseguiram manter algum prestígio ou privilégio, não mais poderão obter ascensão ou lucro com monografias, dissertações ou teses. Dizem adeus a questões que desafiam a compreensão, como sobre o surgimento e desenvolvimento de certa humanidade e os hegemonia branca no Brasil e na África do Sul. Nunca mais será possível um único centavo, para eternas elucubrações sobre colonialismo, imperialismo, hegemonia, escravismo, essencialismo, fenomenologia, existencialismo, revivalismo, religiosidade, cultura, civilização e outros tantos temas. Toda a economia de finaceira que o uso do “Dorímetro” favorecerá, será redirecionada para pesquisas sobre as variantes das cefaléias e produção de novos medicamentos pra o cancro-mole.

Enquanto o invento não vem, vamos assistindo a dor ao lado, a dor alheira, nos corrompendo um pouco com a dor silenciosa das pequenas e imperceptíveis gentes, essa dorzinha gostosamente imensurável. A melhor dor é a nossa, porque é dor mesquinha e intransferível. É dor extremamente pessoal, de foro íntimo, ínfimo.

Essa dorzinha individualista não pode rimar com as músicas ritmadas que se espalharam pelas margens do Atlântico. Certamente o gemido dos torturados pelos americanos e ingleses não pode rimar com o soul de James Brown, é certo que não rima. Não podem rimar com cor tão branca e a voz tão negra do Rithm and blues de forte Amy Winehouse. Rajada de metralhadora não é rufo de caixa da bateria, bumbo não é bazuca, baqueta não é bala. Nossa vingança adormecida é resultado dessa dor. Ela resume-se na certeza de que quem atira mata, mas quem mata, mesmo inocentemente morre um pouco também.

Vimos pela internet em tempo real que os corpos despedaçados no Sudão e Nigéria, Kossovo e Bagdá depois de apresentados on-line, ficam meio escondidos em um ponto neutro da tela de LCD, permanecem lá por semanas, aparentemente intactos, enquanto nem mais sentimos cheiro, gosto ou gozo de nada. Não sentimos o também parte de nós nos corpos que boiaram no Mississipi, nem na pólvora gasta com moradores de rua na zona norte de São Paulo. Não sentimos nada, nem mesmos a ação do tempo, nem do refluir da História. Somos mortos-vivos poderosos, cujos funerais têm que ser refeito todos os dias.

Muitos como eu adoram ver os roqueiros velhos, ver os cabelos brancos e as pelancas de homens vitoriosos cheios de medalhas e prestígio comprado na indústria de cosméticos. Com o passar do tempo virilidade torna-se apenas jogo de cena, só há sensualidade na língua, no farfalhar das notas verdes e no brilho das medalhas. Minha conclusão é que o envelhecimento humaniza, mas não salva, a morte ridiculariza e somente a dor é esclarecedora. Por tudo isso e, até que o Dorímetro seja colocado em funcionamento, devemos incentivar os jovens de ambos os sexos para que memorizem o maior numero possível de datas e nomes de lugares e pessoas  e para que joguem brinquedos de morte enquanto dormem, que s entorpeçam de liquídos lícitos, poeiras legais e ervas sublimadas em laboratórios suiços no Brasil.    

Salloma Salomão Jovino da Silva é Doutor em História pela PUC-SP e Professor de História da África e Cultura Afro- Brasileira da F.S.A.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Capulanas Cia de Arte Negra lança livro em São Paulo

Capulanas Cia de Arte Negra
Síntese do texto recentemente publicado no livro EM-GOMA, São Paulo: Capulanas, 2011.  Disponível para compra.
Toda identidade humana é construída e histórica; todo o mundo tem seu quinhão de pressupostos falsos, erros e imprecisões.
Kwame Anthony Appyah
Salloma Salomão Jovino da Silva *

Capulanas é um tecido utilizado predominantemente por mulheres. Entretanto tal conhecimento na manufatura tem sido tradicionalmente habilidade masculina. Embora nosso imaginário insista no contrário e as relações econômicas desiguais entre as sociedades africanas e o resto do mundo pareçam confirmar, podemos dizer sem margens para dúvida que historicamente na África a tecelagem tem diferentes origens e elas são remotas, assim como seu comércio na longa distância. Enquanto os fardos de linho de cânhamo egípcio circulavam pelas margens do Mediterrâneo e Mar Vermelho atingindo daí o Golfo pérsico, tecidos do Gana, na África do oeste, foram utilizados nos funerais da rainha Nzinga, na África central. Também nas narrativas mais remotas, não é rara a imagem de um ser Pré-existente ou Incriado, como um exímio tecelão. Por analogia a criação é como a urdidura dos panos.
Talvez não haja metáfora melhor que o tecido para desfraldar uma bandeira de unidade-diversidade das culturas negras diaspóricas. Síntese e ao mesmo tempo ícone completo e complexo, que extrapola o caráter biológico e mecânico de uma certa identidade negra, para instaurar-se um núcleo de possíveis alianças, em torno de questões comuns. Unidade-diversidade já entrevista por pesquisadores generosos e visionários como Roger Bastide, Melville Herskovisk, Artur Ramos, Edson Carneiro, Stuart Hall e revisada por Gerard Kubik, Kazadi Wa Mukuna, John Thorton, Linda Heyoowd, Joel Rufino, Muniz Sodré, Nei Lopes e Paul Gilroy, entre outros.

By Salloma/Aruanda Mundi
Adrina Paixão
Os fios desse tecido Capulanas, é feito de memórias, sonhos em frangalhos, histórias interditadas, mas acima de tudo tramado com novos fios-utopias. Nós precisamos delas. Quando tais utopias são revestidas com panos de artes, elas se tornam muito mais reais e longevas, mais cambiantes, fluidas e dinâmicas. As texturas e elasticidade, cores e pertinência, a durabilidade, os signos e usos desse tecido somente podem ser reelaborados sob o símbolo básico da própria diáspora negra, a reinvenção.
No contexto atual dos movimentos culturais da cidade de São Paulo emergem vários novos protagonistas, sobretudo os Saraus e Coletivos Culturais. Saraus e Coletivos são noves genéricos para um conjunto variado de práticas culturais recentes, que eclodiram e se consolidaram na cidade e também na região sul. No seu bojo há produção literária, teatral, musical e cinematográfica, assim como artes visuais, performances, danças, e várias outras linguagens híbridas. Diferenciam-se dos anteriores tanto por um apelo a produção coletiva, como pela elaboração e apropriação de novas tecnologias culturais para empreendê-las.
By Guma
Capulanas
Capulanas é o nome escolhido por jovens atrizes negras para dar materialidade a sua Companhia de Artes Negras. Trata-se nominalmente das protagonistas de seu próprio enredo: Débora Marçal, Priscila Preta, Adriana Paixão e Flávia Rosa, todas oriundas de grupos culturais e artísticos que surgiram e atuam na região sul, na periferia de São Paulo nos últimos dez anos. Movidas por um desejo insaciável de aprendizagem e revisão estética, atravessaram as fronteiras do teatro e da cultura popular, da dança-afro e das musicalidades negras para instaurar uma dramaturgia autoral.
O grupo teatral Capulanas Cia de Artes Negras se destaca nessa paisagem e já recebeu 4 fomentos para sua produção teatral. Trata-se nominalmente das protagonistas de seu próprio enredo: Débora Marçal, Priscila Preta, Adriana Paixão e Flávia Rosa. Todas oriundas de grupos culturais e artísticos que surgiram e atuam na região sul, nos últimos dez anos. Movidas pelo desejo de aprendizagem e revisão estética, atravessaram as fronteiras do teatro e da cultura popular, da dança-afro e das musicalidades negras para instaurar uma dramaturgia autoral inspirada em várias referências, mas sobretudo, em Solano Trindade.
By Guma
                     Debora Marçal      


Embora outros grupos da região tenham enunciado o pertencimento a origem africana como uma peculiaridade, os registros sobre o discurso estético e político da Capulanas nos sugere uma ruptura com os demais. Ao colocar seu projeto dentro de uma continuidade que se remete ao literato negro Solano Trindade e fixar uma perspectiva negra e feminina, reelabora o texto do feminismo negro, cuja fonte é Lélia Gonzales e o faz entrecruzar com a concepção socialista de Cultura Popular de Solano Trindade. O resultado dramatúrgico e textual é algo totalmente inédito e estimulante.
Originalmente Capulanas é uma palavra de origem bantu (definida pelos pesquisadores como tronco lingüístico nigero-congolês), especificamente pertence ao grupo linguístico Tsonga que é falado na costa Oeste da África por quase 3,5 milhões de pessoas em Moçambique, Zimbábue e Suazilândia. Capulanas por aquelas bandas é o nome que se dá um tecido utilizado pelas mulheres para cobrir a parte inferior do corpo, uma espécie de canga. Ocasionalmente cumpre papel de sobre-saia podendo ser também jogado sobre os ombros como xale, turbante, anteparo de objetos levados á cabeça ou ainda as mães os usam para transportar os nenês às costas. 

By Guma
No passado os tecidos eram produzidos artesanalmente, mas desde o século XX passaram a industrializados fora da África e comercializado por lojas e ambulantes nas feiras dos centros urbanos. Seu impacto visual com coloridos e estampas diversas acabam chamando atenção dos estrangeiros, que o vêem como algo “típico”. O escritor Marcelo Dias Panguana publicou "À Volta de Capulana" capítulo do livro “As vozes que falam a verdade”, lançado em 1987. Regina Casé utilizou-se duma capulana para gravar programa sobre a periferia de Maputo, capital de Moçambique em 2006. Talvez não seja apenas coincidência que os homens usem saiotes em uma das práticas culturais negras brasileiras marcadamente teatralizadas, o Moçambique. Culto-Canto-Dança encontrado principalmente entre descendentes de africanos na região sudeste do país.
By Salloma/Aruanda Mundi
Priscila Preta


Debora Marçal, Priscila Preta, Adriana Paixão e Flavia Rosa, são depositárias e revisoras por escolha própria e por herança, de um repertório denso, múltiplo e complexo de lutas, memórias, silêncios, liturgias, negações e reinvenções milenares. Estão muito conscientes, negramente falando, dessa responsabilidade. Ao mesmo são construtoras de novas cosmovisões, que podem ser alimentadas pelo frescor e pela virilidade dos seus anos. Seus desafios consistem em compatibilizar tais experiências com as barreiras que poderão advir.
Os encontros semanais com duração de quatro horas contavam coma participação de: Naruna Costa- Atriz, Firmino Pitanga- Coreógrafo, Julio Moracen- Dramaturgo e Antropólogo, Salloma Salomão Jovino da Silva- Historiador e Músico. Eram intercalados por outras formações pontuais intituladas Onin, nas quais participaram  Cida Bento- Pesquisadora em Psicologia Social, Lisy Leiba Salum- Antropóloga,  Amailton Magno Azevedo- Historiador, Evani Tavares – Coreógrafa e Antropóloga,  Juliana Moraes- Antropóloga, Dona Nilde Gomeiro-Yalorixá, Marcos Ferreira Santos- Faculdade de Educação– USP, Regina - Coordenadora de Políticas Públicas de Saúde da População Negra de Embu das Artes-SP, Viviane Lima- Historiadora.
By Salloma/Aruanda Mundi
Flávia Rosa


Partimos da seguinte premissa: Nas culturas de matriz africana os corpos são atravessados por usos, símbolos e significados que entraram em conflitos com as visões européias. Até que ponto somos herdeiros de uma e de outra orientação cultural? Os conhecimentos, vivências e experiências sobre Artes, Identidade, Saúde, Doença e Religiosidade podem ser pistas dos (dês)caminhos do corpo no espaço/tempo e na cultura.
Foi emocionante perceber como estas jovens pesquisadoras, educadoras, atrizes negras estabeleceram compromissos mútuos no processo de auto-construção social. Como foram capazes de elaborar formas colaborativas de aprendizagem e auto-preservação psíquica e física. Suas experiências nos ensinam sobre o alcance do equilíbrio entre alteridade e individualidade, quando se estabelecemos plataformas duradouras e flexíveis.

        
São ventos frescos no terreno árido na longa história dos descendentes de africanos em São Paulo, no Brasil, no Mundo.  Ventos que simbolizam prenúncios de mudanças pelas quais ansiaram e semearam alguns dos que vieram muito antes de nós. Ventos de um tempo fecundo de alteridade, solidariedade e liberdade.  
*Salloma Salomão Jovino da Silva é músico e historiador, ativista do movimento negro e professor de História da África no Centro Universitário Fundação Santo André, São Paulo. Pesquisador visitante do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Tem atuado em projetos artístico-culturais e de formação continuada de educadores e pesquisado temas relacionados a História Cultural das Diásporas Negras e Educação Pluricultural. Co-elaborou o projeto formativo da Capulanas  Cia de Arte Negra.      

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Racionais, 20 anos (parte2)



Divulgação.....

Esses caras ensinaram de forma lúdica a molecada preta a erguer o nariz e dizer, "sou negro, periférico,orgulhoso de minha raiz, sou inteligente, crítico e bem envocado. Eu sou gente. Quando olhar pra mim ou falar de mim nunca se esqueça disso" Assinado: Racionais M'Cs. Racioanais anos 20, veja texto na minha página Mosaico Negro Blogspot.
Racionais Mc´s é Coopermusp!!!!

A Coopermusp tem a honra de informar que o grupo Racionais Mc´s, o mais importante grupo de Rap do Brasil também está em nosso time.
Dentro de alguns dias as músicas do grupo estarão em nosso portal onde poderão ser baixadas.O grupo abraçou a nossa proposta de criação de um novo modelo de distribuição de música.
Conosco também estará a produtora Boogie Naipe.
Muitas novidades ainda virão,aguardem!
Bem-vindos Racionais Mc´s!
http://coopermusp.blogspot.com.br/2013/05/racionais-mcs-e-coopermusp.html



Racionais a indústria fonográfica


Será preciso pensar e estudar um pouco mais sobre a profundidade e significado da crise que afeta chamada Industria Fonográfica, mas via de regra os músicos-artistas somente tem controle da parte criativa do trabalho, ou seja, a concepção do repertório de um Cd e do show. Todo o resto fica nas mãos de executivos. E o que é este resto? É tudo que determina o investimento e seu retorno, quais sejam: distribuição do Cd, sua publicidade , a imagem do artista ( produto), inserção do produto final no rádio, na TV e agora na WEB, pagamento dos tributos, recolhimento de direitos autorais, venda dos shows, etc, etc e etc. Desde o Cd “Sobrevivendo no inferno”, os Racionais são seus próprios executivos e, e ao menos de 12 anos para cá detêm um rígido controle sobre sua imagem veiculada na grande mídia.
Os mais ingênuos artistas e grandes arrecadadores de direitos autorais embarcaram na fraudulenta campanha dos “Direitos Autorais”, orquestrada a por gravadoras e entidades igualmente fraudadoras, sem saber que parte do mercado de “piratas” era alimentado pelas próprias editoras, gravadora e distribuidoras de música como forma de fraudar os cofres púbicos e os próprios artistas.
Reza lenda urbana que Racionais bolou uma armadilha para os fraudadores de Cd em São Paulo: anunciou a distribuição do Cd Sobrevivendo para uma data X, nessa ocasião segurou a saída do disco original e acionou  a Policia Federal, que no ato fez o recolhimento dos discos que já estavam nas lojas  e camelôs. Resultado, os Cds que estavam nas lojas eram basicamente iguais aqueles a serem distribuídos. Moral da História: como a “pirataria” poderia ter um fonograma (gravação original das musicas do Cd) e capas e encartes exatamente iguais, sem que alguém de dentro do “sistema” tivesse fornecido?          
Pode parecer pouco, mas artistas negros consagrados que eventualmente se viram caluniados (com razão ou não) pela mídia, pagaram um altíssimo preço por terem a petulância de obter visibilidade num país onde os negros ou são invisíveis ( mesmo quando multidões como nos eventos esportivos ou carnavalescos por exemplo)  ou são estereótipos (me refiro a representações  cinematográficas, em cidade de Deus e Cafundó, por exemplo). Não há meio termo.
Os Racionais tem uma forma altamente racionalizada de aparecer na Mídia, sem ser devorado por ela e sem ser vitima da super-exposição. Kljay já teve programa na MTV, Mano Brown na esteve no programa Roda Viva da Tv Cultura, mas o documentário mais essencial sobre o grupo que circula por ai, foi feito por eles próprios. Mesmo em episódios sórdidos como a acidente de carro na marginal ou incidentes de violência em um outro show são tratados com muita serenidade pelos integrantes do grupo. Será que aprenderam  a fazer isso ouvindo a histórias de Tim Maia e Wilson Simonal, Henry Salvador e Ataulfo Alves, Jair Rodrigues e Milton Nascimento?

Algo que também chama atenção o universo da criação, produção e distribuição de REP é que tanto no Brasil como nos E.U.A os músicos-criadores, chegaram a posição de executivos das empresas que os haviam contratado ou mesmo criaram suas próprias empresas.  Isso pode não parecer significativo, mas o meio musical foi um dos poucos espaços sociais na sociedade contemporânea brasileira e norte americana onde negros puderam disputar com brancos em relativa igualdade.  justamente porque oa início tais atividades não gozavam do prestígio social.      
      

Salloma salomão Jovino da Silva

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Racionais Mcs: 20 anos

Racionais Mcs: Há  20 anos, 4 jovens pretos estão na estrada


Salloma Salomão da Silva e Gabriel Rodrigues da Silva.
Imagem 1 divulgação: CP
Imagem 2  3 : Ana Raquel Rodrigues.
Holocausto Urbano, Zimbabwe,1990;
Escolha seu caminho, Zimbabwe, 1992.;
Raio X doBrasil, Zimbabwe, 1993;
Racionais MC’s CD, Zimbabwe, s/d;
Sobrevivendo no Inferno, Zâmbia, 1997;
Racionais ao vivo, Zâmbia, s/d.;
Nada como um dia após o outro dia, Zâmbia, s/d;
Mil trutas, mil tretas DVD, 2006.
Na quarta passada, fui ao Circulo Palmarino no Embu das Artes, ver e ouvir KL jay, o mago das pick-ups do grupo Racionais Mcs.    


Podemos dividir a musicalidade do Racionais MCs em duas etapas,  a primeira vai de “Escolha seu caminho até o “Raio X do Brasil”. A segunda fase é de “Sobrevivendo no Inferno” para cá. Essa divisão tem a ver com Discurso, Musicalidade a Imagem pública desse grupo completou 20 anos de atividades, se a gente contar como marco, a gravação e o lançamento de “Holocausto Urbano”, 1990.
O que mais me intriga é: como que 4 inexperientes jovens negros da periferia de São Paulo conseguiram entrar, sobreviver e modificar um dos meios profissionais mais competitivos da sociedade contemporânea? O mundo dos negócios dos shows.
Mas não se trata apenas da sobrevivência em um território acelerado e voraz, o meio artístitco. Podemos falar do desenvolvimento e sofisticação constante de uma linguagem musical e de vários aspectos do trabalho social-musical-político do Racionais MCs.
No começo era Edy Rock e  Kl Jay, zona norte de um lado e Ice Blue  e Mano Brown, zona sul do outro. Se juntaram e escolheram o nome do mais balançante disco de Tim Maia, “Racional”. Aquele disco que mais se afinou ao diapasão a Soul Music. Mas contraria e pateticamente é também um disco submisso ao projeto teológico e catequético da seita “Universo em Desencanto”.  Esse disco pra mim é um enigma, porque tem uma originalidade nos arranjos e maturidade nas interpretações que não existe em nenhum outro disco seu. Talvez o fato de ter sido feito fora da gravadora, o brazilian soul man, tenha tido a liberdade que sonhava, por isso pode ousar, sem ter de se submeter musicalmente as “tendências” do mercado. Mas vamos deixar Tim Maia para outra hora.
No inicio canções como “Negro limitado”, “Racistas otários” e algumas outras, têm letras alinhadas com o discurso do Movimento Negro. No segundo momento a Periferia assume o centro discursivo. Saem umas freqüências sonoras mais Public Enemy, para algo mais complexo, mais Tupac.  Escolha seu Caminho e Holocausto são muito parecidos musicalmente, onde eles usaram muito James Brown, mas musicalmente os samplers estão mais relacionados com o Gangsta. Predominam elementos do Funk e da Disco, as referências são principalmente os disco do Zap, sons negros norte americanos do final dos anos 1970. 

A atitude do gangastar norte americano não seria tolerada aqui, porque tem um apelo a sexualidade, consumo e apologia explicita a violência e às drogas.  Mas as letras do Racionais, embora as vezes falem de violencia têm um conteúdo inegavelmente pacifista ( Brown cantariaa " violentamente pacífico"), embora parte da mídia desenformada tenha lido o contrário. O primeiro sampler nacional é Tim Maia, ela a partiu e nunca mais voltou, Ela apariu e nunca mais voltou, até IBGE passou aqui e nunca mais voltou. Isso vai virar uma verdadeira escola musical, porque é realmente muito bom.
O rap é musicalmente revolucionário não só porque prescinde de altos equipamento de som e instrumentos caros para se construir um discurso ou e paisagem sonora. Mas se enganam a aqueles sabichões que pensam que é um gênero menos musical que outros. Quem já teve oportunidade de ver um Dj em ação, sabe que é necessário ter uma noções altamente sofisticadas de musicalidade, um percepção polirítmica complexa e sensibilidade harmônica  para recortar e colar simultaneamente seqüências  de contra-baixo para o pulso, frases de bateria para a estrutura e samplers de outros timbres vários para deixar a pista livre para o Mc poder lançar e dançar.
O imaginário branco racista teme um levante que negro, não suportaria jamais qualquer conteúdo sumariamente similar ao gangsta no Brasil. A conscientização social e etnoracial era um foco, as letras eram bem diretas. A mensagem tinha como meta as mentes da juventude negra e pobre de sexo masculino, é o alvo  da policia e do Racionais. Jovens negro, periféricos e machos, mera conscidência? Dirigida ao indivíduo atingia o grupo social como um todo:
“Fuja da violência, das drogas, fuja das coisas que parecem fáceis, assuma sua identidade.”
“O racismo é foda, o capitalismo é foda, a desigualdade é foda, fica esperto, se liga e não se iluda.”
As canções tornam-se fios de histórias que nunca terminam, algumas não terminam bem. Nem todas se relacionam a criminalidade, umas falam de vínculos de amizade, também entre jovens másculos, que batem no peito e pegam no pinto. Uma das posições  ou gestualidade teatral parecia simular apalpar as bolas.
No início quase não tinha metáfora, analogia, imagens, depois as mensagens ficaram menos moralistas e mais subliminares, mais filosóficas. Entram temas como a morte, a verdade, a sinceridade, a memória, passou a haver espaço para alguma delicadeza masculina, mas delicadeza, o machismo juvenil, deu lugar a uma certa maturidade.   
Desde o lançamento do DVD mil trutas corre boca miúda  a chegada um novo trabalho que cada ano é jogado para o seguinte, mas quem já ouviu os temas na internet "Mulher elétrica", "A mente do vilão" sabe que não será brincadeira, os rapazes não ficaram estes anos dormindo. Racionais circulam pelo país inteiro, vivem de shows que eles mesmos gerenciam.
Quando o Racionais fez um show no Carandiru, os artisitas tiveram contato um detento chamado Jocenir, que ofereceu o material escrito que deu origem ao Cd Sobrevivendo. Este cd é muito, não consegui ainda ter um análise completa dele por falta de tempo, mas uma hora eu chego lá. 
Racionais poderia ser acusado de americanismo pela incorporação de inúmeras referências da Black music dos anos 1960-1990 na sua musicalidade. Mas não podemos nos esquecer que Pixinguinha também foi metralhado pela crítica demolidora e nacionalista, após os 8 Batutas terem chegado de Paris, em 1924.
Perece que nossas elites podem copiar a constituição francesa e americana, imitar o estilo de vida parisiense e nova-iorquino, ou mesmo comprar mansões em Miami. Nossos artistas renomados podem incorporar qualquer baboseira estilística estrangeira, que é considerado moderno, comopolita e Cult. Mas crioulos analfabetos ou semi escolarizados, por mais talentosos que sejam, não podem dormir com essa pecha, não podem sonhar ou ouvir estrelas, curtindo um  Lp de Marvin Gay .
Talvez nossa admiração advenha de fatos muitos simples:  Enquanto nos EUA as primeiras universidades negras enviavam doutores para formação complementar na Alemanha, na segunda metade do século XIX, nossas lideranças ainda hoje brigam por migalhas que caem da mesa dos brancos poderosos.
Dominado por jovens negros abandonados pela política de assistência social e pela elite negra escolarizada e bem inserida na sociedade norte americana, os artistas do HIP HOP americano construíram um poderoso discurso ideológico e estético, con tudo o Hip Hop  como movimento estético nos EUA e Europa ficou apenas nos limites da indústria fonográfica e de shows.
 Podemos dizer sem erro que somente no Brasil o Hip Hop tenha se tornado um verdadeiro movimento social/cultural, melhor ainda, no Brasil DMN, Gog e Racionais conseguiram transformá-lo em ação social e política. Ele foi incorporado por Denis Produto loco, Paniquinho, Zinho Trindade e varios outros com ou sem evidência. 
Ao longo 20 anos algumas coisas mudaram na sociedade brasileira e muita água rolou embaixo da ponte do mundo HP HP mundial e brasileiro, Racionais Mcs não somente acompanhou essas mudanças, como dentro da seu universo ditou o ritmo e caminho dessas transformações.
      


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Jennifer relata: Nosso cinema tem sido caro e claro, hegemonicamente branco.

Essa é uma verdade incontestável, admitida até por gente reconhecida e sábia como Cacá Diégues, mas algumas criações recentes vão deixando nódoas criativamente negras, nessa história de assombrosa brancura.
Aguns especialistas em “Historia da arte” sustentam que uma obra artística é duradora quando o seu autor consegue captar um momento de mudança histórica e dá a este instante um significado especial através das obras, usando habilidades e  apuro estético singular. Não sei se concordo muito com tal idéia, porque ela descarta o aspecto relacionado das convenções que regem a avaliação da obra artística. De todo modo, Jennifer de Renato Candido, ao que parece, apresenta tal capacidade.




Trata-se de um enredo singelo, mas seu desenvolvimento escapa ao clichê e capta um certo movimento, uma mudança, um deslocamento bem atualizado do debate sobre identidade negra no Brasil. Esta é  a principal característica e ao mesmo tempo o grande mérito do Filme. O seu autor certamente tem muito mais para nos apresentar, sendo apenas questão de tempo.

As atrizes Juliana Valente (à esq.) e Gabriela Balmant em cena do curta-metragem Jennifer
O filme contou recursos para lá de parcos (menos de 100 mil reais), considerando os orçamentos dos maiores arrecadadores da indústria do cinema no Brasil em 2011, argh!!!! Tropa de Elite, com zilhões de dólares.
Deixem-me dizer de forma sintética como foi que vi o filme. Renato generosamente me doou um copia e em retribuição fiz um almoço no quilombo da Serra, minha M’Goma. Assisti Jennifer na companhia de minha mulher Cristina e minha filha do meio, Luiza. Isso ocorreu no último domingo friorento, depois de muito trabalho braçal. Fim de tarde e eu descansava para mais uma semana de “eterna labuta”, como diria meu filho Gabriel.
Com uma agenda despretensiosa e um elenco enxuto, o jovem cineasta negro paulistano, Renato Candido com sua Jennifer plasmou em imagens digitais o momento em que o discurso de identidade do movimento negro é deslocado por novos agentes sociais do seu caráter autoritário e essencialista anterior, para uma dimensão mais dinâmica e plural, no qual a identidade negra brasileira se submete as noções de processo, construção e diversidade.

Calma que eu vou explicar... Nos anos 1970 o Movimento negro era profundamente marcado pelos limites de um debate que se arrastava desde os anos 1930 e os grupos negros organizados estavam concentrados no sudeste, com organizações esparsas e frágeis no Nordeste e Sul.  Tentava atacar simultaneamente a invisibilidade do racismo e cunhar uma noção de pertencimento, onde a percepção conectada a cor da pele e a raça negra fossem os agentes aglutinadores.  Crente na idéia de que toda ação política depende de uma vanguarda, o Movimento Negro Unido (MNU) buscava, desde 1978, construir uma frente capaz de mobilizar a população negra, para o que se imaginava ser uma ação nacionalmente articulada e de “massas”.
Nesse núcleo discursivo do ativismo político negro de 1970-1980, havia pouco ou nenhum espaço para um pertencimento que levasse em consideração as trocas culturais, a miscigenação e ou o duplo pertencimento. Ainda assim vozes dissonantes se apresentavam, apontando o dedo para exclusividade do masculino negro e retinto que, ao que parece, dominou a cena nesse tempo imprescindível de denúncia, filiação partidária e reelaboração ideológica.

De fato predominava um caráter urbano e universitário nos grupos negros nesse período. Designados “elitistas” pelos detratores, não era essa uma acusação totalmente infundada. Entretanto é necessário salientar que tal problema era alvo de reflexão e debate no próprio interior do MN. Não obstante as dificuldades de ampliação somente puderam ser relativamente ultrapassadas com a ajuda dos partidos políticos e da Igreja Católica, que aquela altura, tinha um grupo barulhento de ativistas antiracistas negros inseridos nas fileiras. No início dos anos 1980 PT, PDT e PMDB trataram de acomodar algumas demandas do Movimento Negro. Alguns dos seus membros assumiram pastas e postos de pouco prestígio nos governos estaduais recém eleitos. Em 1989 Erundina criou a CONE em São Paulo.  
Renato Candido      
Entretanto na década de 1990 a música Rap e o movimento Hip Hop já haviam solapado e redimensionado o discurso de negritude, dando-lhe uma dimensão  contundente  e periférica. Talvez a música Rap tenha alcançado um publico e desenvolvido uma reflexão pública sobre racismo anti negro e exclusão social de causar inveja a alguns ativistas mais antigos. Não tardou para que algumas aproximações ocorressem. Salve Levi e Sueli Shan, entrincheirados em Diadema.
A estética Rap se nacionalizou e o Mundo Hip Hop rapidamente se expandiu e diversificou, assumindo novos textos e abrindo contextos. Racionais a frente do processo amenizou ao acento negro, assumindo a periferia, violência e exclusão como eixos identitários. A emergência do mercado paralelo de consumo de Rap e Pagode, no Brasil no fim dos anos 1990, muito provavelmente já era um prenúncio da crise que daria fim a indústria fonográfica nos anos recentes e, que já foi tarde.        
Acredito que essa digressão é necessária porque o filme Jennifer nos estimula a olhar a História das rupturas, ambiguidades e continuidades da luta negra antiracista no Brasil em geral e as estéticas negras em específico. A estética negra no cinema é, sobretudo, a mais descontinua e tênue, entre todas as linguagens artísticas. Nosso cinema tem sido caro, claro e branco. As imagens de brancura se reproduzem na tela, detrás delas e na sua assistência. Exceções existem desde os anos 1960, mas negros raras vezes são protagonistas nessa área de saberes e fazeres, que combina entretenimento e arte, consumo e política, cultura e banalidades.
Agora posso voltar para Filme? Sob pena de reduzir em excesso, vamos lá.
A narrativa fílmica de Candido tem como protagonista Jennifer, uma adolescente negro-mestiça da pele clara, moradora na Zona Norte da cidade de São Paulo. Estudante de ensino médio, ela divide seu tempo entre a casa, a escola de ensino médio e a lan house. Utiliza as ferramentas digitais para manipular sua imagem e parecer mais branca, mais velha e corpulenta nas fotografias postadas nos site de relacionamentos sociais. Seu drama maior é em relação ao cabelo, que vive alisando. Jennifer vive em uma casa térrea com quintal, com a mãe, uma mulher negro-mestiça jovem de pele mais escura. (É necessário mencionar diferentes tons de pele, porque são importantes na construção visual, fotográfica e textual do filme).
Tem uma rosa que surge sempre próxima de Jennifer, essa a é tal singeleza, poderia ser qualquer uma outra coisa ou símbolo. Há um mundo juvenil e periférico muito bem reconstruído no filme, é uma reconstrução humanizadora da nossa realidade social, na qual predominam a busca pela prosperidade, dignidade e inserção social. Embora as imagens midiaticamente projetadas insistam na estética da violência endêmica, no discurso da auto-exclusão e na reiteração dos sistemas de controle ( público e privado) das turbas mestiças e ignaras. Via de regra somos talhados como gente marrom, invasora dos bairros nobres, das praias, dos centros de compras e universidades públicas.
Jennifer não busca a brancura com desespero, mas sente a opressão da estética social embranquecedora e tenta da sua forma ultrapassar a “linha da cor”. Somente recobra a consciência negra adormecida em si, quando mãe ao perceber seu dilema evoca a figura da ancestralidade negra feminina representada pela avó. O desfecho não tem tiro, morte, nem separação, mas afeto e solidariedade.
Há uma delicadeza e sinceridade que transparece no filme, mas que também verifiquei em algumas canções dos Cds de Rap de Crioulo e Emicida, que me parecem ter ido muito além o enredo masculinizante e suicida, retoricamente viril  que até então vinha seduzido socialmente homens e mulheres jovens. Enredos estes que são produzidos, em sua maioria, por homens maduros e brancos que controlam as empresas de entretenimento urbano (Cinema, Música e Espetáculo).
O filme tem suas fragilidades aqui e ali, mas nem merecem registro.
Uma trilha que somente não é primorosa porque  a  captação de áudio foi um tanto precária. O elenco predominantemente jovem funcionou muito bem. A fotografia, o andamento, o som funcionam adequadamente. O enredo cumpre a meta e em algumas cenas familiares somos levados a uma empatia emocionante, como por exemplo a cena de Jeniffer respondendo a um cliente grosseiro,  quando já havia conseguido o emprego de caixa.
Tenho agora 50 anos e, ao invés de outros homens públicos velhos mal humorados e com olhos fixados no passado, como o rabugento Antonio Abujamra, por exemplo.  tenho visto e saudado o aparecimento dessas novas artes e ativismo negro, com um interesse  e entusiasmo vivo. Viva Daniel Fagundes, Rogério Pixote e Renato Candido. 

SILVA, Salloma Salomão Jovino da.



Média Metragem “Jennifer” - Vídeo 24p HDCAM
Realização: Odun Formação e Produção – Projeto VAI – Pró-Reitoria de Cultura e Extensão USP
Direção: Renato Candido
Com: Juliana Valente, Gabriela Balmant e Sidney Santiago
Sinopse: Jennifer, adolescente negra moradora de bairro periférico, utiliza recursos de edição digital de fotografia para tornar-se mais sensual e atraente a quem ela ama. Mas não conseguindo lidar com sua baixa auto-estima, Jennifer se dá conta de sua dificuldade entre ser e se simular.