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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre representações e estereotipias negras no teatro paulista




Sobre representações e estereotipias negras no teatro paulista,
Instituto Itaú Cultural-

 Terça, 12/05/2015 -  A convite do Grupo os Crespos Cia de Teatro

“Salloma” Salomão Jovino da Silva*
“Ora, no caso não há escapatória nem subterfúgios, nem ‘passagem de linha’ a que possa recorrer; um judeu, branco entre os brancos, pode negar que seja judeu, declarar-se homem entre os homens. O negro não pode negar que seja negro, ou reclamar para si esta abstrata humanidade incolor: ele é preto. Está pois encurralado na autenticidade: insultado, avassalado, reergue-se apanha  a palavra ‘preto’ que lhe atiraram qual uma pedra; reivindica-se como negro perante o branco, na altivez.” -  Jean Paul Sartre
 “Racismo vai de desenvolver primo com a colonização, ou seja, com o genocídio colonizador” - Michel Foucault                                                                                                                        
Quero agradecer o convite para participar desse evento e que também dar parabéns a classe artística e intelectual branca paulista, que em função desse evento, está sendo impelida a participar dos debates sobre raça, racismo, etnia, identidade e sociedade em rede no Brasil.
Não é meu intuito causar frustração naqueles que pensam ser este um evento bombástico e inédito. Mas em 1969 após Wilson Simonal lançar a canção “Samba do Crioulo Doido” de Sergio Porto ou Stanislau Ponte Preta, no Rio de Janeiro, um grupo de artistas ativistas negros liderados pelo compositor Martinho da Vila, reagiu delicadamente.  Eles entenderem que o conteúdo sofisticado da canção construía uma imagem negativa do compositor e do sambista negro. Criaram um anti-evento chamado “Nem todo crioulo é doido” e redigiram um manifesto público no qual refutaram todo tipo de estereótipo racial antinegro e abriram um debate quase mudo, sobre este aspecto silencioso e cruel da sociedade brasileira.
Grosso modo, a canção joga com a projeção imagética degradante de um compositor negro que, ao ser desafiado a compor um samba com teor histórico, sobre a política nacional pira e misturando tempos e personagens da História Oficial do Brasil, gera um samba sem sentido. A canção parodiando um enredo de escola de samba tornou-se bastante conhecida, mas o evento que o contestou não e desde então, por aqui, quando se está diante de algo que parece mal feito, mal organizado, ou de alguma idéia sem pé nem cabeça, os racistas orgânicos designam “Samba do Crioulo doido”.
Afinal o que é loucura a endêmica do negros mestiços, senão sinal mais potente da degeneração tal como pressupunham os racialogistas? O desajuste social mental associado a raça negra havia ingressado em todos os tecidos da criação. (Gonzaguinha ainda teria tematizado uma “Negra maluca desfilando nua pelas ruas de Madureira”,  nos anos 1970). Os manicômios, essas instituições e seus criadores no Brasil os médicos/antropólogos tem muito a nos dizer sobre racismo e cultura negras, por exemplo: Ulisses Pernambucano, Raimundo Nina Rodrigues, Artur Ramos e finalmente René Ribeiro, o mais francamente racista de todos. Apenas Roger Bastide analisou brevemente os altos índices de suicidas negros em São Paulo no segundo quartel do século XX, em um trabalho inconcluso. E só.   
Não se tem conhecimento generalizado das inúmeras outras canções de compositores negros feitas nos anos posteriores e que igualmente contestam tal imagem-síntese do “Crioulo Doido” cunhada por Ponte Preta.  Ile Aye (1974) Bahia, por exemplo, Somos criolo doido somo bem legal,  temo cabelo duro, somo breque pau”. Ou ainda Jansem Rafael (1970) Minas Gerais, “Stanislau que deus o tenha , mas este e o samba do crioulo que realmente endoidou, ao tentar entender a passada, a atual e futura conjuntura. E aderiu a um antigo costume de seus ancestrais, caçar  cabeças brilhantes.....”O caçador de cabeças.
A primeira publicação de “Reflexões sobre o racismo” de Jean Paul Sartre no Brasil é justamente do ano anterior, 1968. Sartre investe sobre a origem e natureza do antissemitismo moderno e do racismo antinegro e dedica especial atenção ao papel das projeções de imagens estereotipadas, na construção do medo e da ojeriza antissemita e antinegra no imaginário da Europa moderna. O pós guerra colocou a intelectualidade ocidental frente-a-frente  aos fenômenos do racismo e do antissemitismo. Mas no Brasil parece que tal encontro ainda está longe de acontecer. Fazer contato aqui é bem mais difícil, porque?
As figuras do negro e negra construídas na forma do grotesco, da caricatura, do ridículo, da estereotipia, da jacosidade, com estigmas associados à raça/cor negras  podem ser encontrado em um longo espectro temporal da produção dramatúrgica, teatral, cinematográfica  e televisiva brasileiras e mundial, desde o século XVIII até ontem. Aqui a sátira da pedinte negra está presente em programas como Zorra Total, ou em um quadro de outro jovem humorista global recém famoso, por exemplo. Quase nunca causa espanto, mas também não passa incólume.
Evidente que o negrx-forma, negrx-folclore, negrx arcaico da cultura popular, sugere a existência de uma manancial aparentemente inerte de conteúdos simbólicos, que muitas vezes tem sido explorados pelo teatro nacional. Em função de um limite cognitivo gerado pelo alto índice de racismo que contamina os juízos ( não apenas de brancos, portanto não há uma tendência natural de todos eles para isso), alguns estudiosos do teatro creem sinceramente que esse negro-forma é aparentemente vazio, por isso pode ser preenchido com os imaginários de brancura supra humana, pretensamente incolor e universal. Em tese a forma máscara do teatro de paulista recente, pintada, ou ensejada do negro-negra, não está diretamente ligada com os seres humanos negros, os descendentes de africanos, ou aos humanos de pele escura que habitam o Brasil.
 A estereotipia não é tão importante quanto a morte sistemática de jovens negros nas periferias dos grandes centros urbanos. Mas certamente ao se produzir ou perpetuar a desumanização do contingente social negro brasileiro, potencializa e naturaliza o genocídio.      
Um teatro sobre negros sem negros ou com apenas com um negro, também se pode ver na recente produção de Antunes Filho, tematizando Lima Barreto. Desde 1905, com publicação de Os negros” de Lima Barreto, se pressupõe uma escrita para corpos e mentes negras em cena,  desde lá há uma escrita e uma cena teatral brasileira invisiblizada por uma memória europeizante, míope e mesquinha. Mas quem estiver interessado pode acompanhar a historicidade de uma criação dramatúrgica e teatral negra ao longo do século XX e ainda hoje se deparar com uma produção vigorosa, embora de pouca visibilidade. Pode fazer isso buscando os escritos sobre Thereza Santos ou Abdias do Nascimento, ou indo direto ao site da Revista  Menelik 2 Ato, o livro das Capulanas ou a recém publica revista dos Crespos “Em Legítima Defesa”.
A saber: Capulanas, Os Crespos, Clariô, Coletivo Negro, Quizumba, Cia dos Comuns, Bando de Teatro Olodum, etc, são indícios de que a brancura doentia do teatro brasileiro, esteja com os dias contados.  Entretanto a classe artística paulista, tão mimada em sua condição de exclusividade, como elite intelectual branca e brancocêntrica estará disposta a fazer contato?
Quando intelectualidade brasileira terá a coragem de Sartre para mergulhar de verdade nesse campo tão delicado da construção da nossa sociedade?
Pensando nas máscaras dos Fofos e em termos teatrais, podemos definir tais representações negativas dxs negrxs como tradição? Em sendo uma tradição, deve por isso ser perpetuada? 
Ao se manter tal tradição e alimentarmos formas de representação, que xs negrxs entendem como racistas, estamos disposto a admitir que, efetivamente somos racistas como sociedade? Isso, ao contrário do que sustentam Kamel/Magnolli e seus adeptos? A onda negra virá em forma de tribunal racial?
Algumas dessas perguntas podem ser feitas a classe intelectual e artística brasileira, logicamente ser esquecer o quanto esta é hegemonicamente branca.  Qual lugar do racismo antinegro ocupa na produção cultural contemporânea?
Até quando a classe artística e intelectual hegemônica e branca, as vezes não branca no tom de pele, mas branca na forma de conceber arte e cultura e também o mundo, vai reagir de forma intelectualmente infantilizada e se fechar sobre si mesma? Uma vez acuada no alto seu castelo transparente e vai gritar a plenos pulmões que sua Liberdade criativa está em risco? E que a rua e internet agora estão cheias de negonas e negões raivosos querendo seu escalpo ou seu lugar  na cena ?
Ou de outro lado vai ser capaz de abrir um debate franco sobre a ausência de negros e negras nesses espaços de criação, produção e veiculação de arte e cultura? Vai admitir que alguns dos seus pressupostos estéticos contem equívocos, distorções e maniqueísmo raciais? 
Os gestores de cultura e a classe artística irá se abrir para entender o fenômeno novo do ativismo negro em rede e seu impacto sobre as formas de propagação das representações racistas antinegras?  Será que isso é o mesmo que censura?  Digo tem a ver com experiência politica de controle de informação exercido por uma órgão do poder, tal como foi nas Ditaduras?  Quando setores sociais tradicionalmente excluídos utilizam as formas de comunicação e pressão que estão ao seu alcance, para denunciar ou coibir  algo “normal”, porem moralmente inadequado, estão efetivamente censurando?      
Miriam Garcia (1982, 1993) nos informa como os personagens negrxs foram entrando ( sem estar) na produção teatral Brasileira, desde as obras de Joaquim Manoel de Macedo e Martins Pena. Onde xs negrxs apenas são sombras, figuras sem nome de escravizados que, sequer recebem uma rubrica, mas apenas menções vagas nas bocas de personagens humanos (quero dizer brancos).  
 Há uma historia gloriosa do teatro nacional e universal que é ensinada nas escolas e universidade. Até mesmo dramaturgos negros situados nesses lugares, parecem impotentes, incapazes de fazer menção as criações dramatúrgicas negras e incorporá-los ao seu repertório, ou trazer para escolarização artística reflexões poucas, mas importantes de, pr exemplo,  Roger Bastide nos anos 1970,  sobre o tema.  Talvez, no futuro alguns professores mais progressistas possam incorporar, ainda que tardiamente, ao menos o universalismo de uma Margot Berthold (1968). 
Creio que estamos diante do que Clovis Moura designou “dinâmica sociopolítica negra”, uma nova dinâmica que oferece um desafio para o racismo antinegro e também coloca em cheque as velhas formas do ativismo negro do século XX.     

Referências:    
ARANTES, Marco Antonio. Sartre e o humanismo racista europeu. Uma leitura sartriana de Frantz Fanon. Sociologias, Porto Alegre, ano 13, no 27, mai./ago. 2011, p. 382-409.
DOUXAMI, Cristhine. Teatro negro, a realidade de um sonho sem sono. Afro-Ásia, 25-26 (2001),313-363.
KIRAN, Leon. A cena negra.  Uma etnografia sobre teatro negro em Porto Alegre, Enter corpos, objetos e encontro. Monografia de Graduação em Ciências Sociais. Universidade Fedreal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010. 
LIMA, Mariangela Alves de. O teatro negro no Brasil e nos Estados Unidos. R E V I S T A U S P , SÃO O P A U L O ( 2 8 ) : 2 5 7 - 2 6 0, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6.
LIMA, Evani Tavares. Teatro negro, existência por resistência: Problemática de um teatro brasileiro. Repertório, Salvador, nº 17, p.82-88, 2011.2.
_________________. Um olhar sobre o teatro negro do Teatro Experimental do Negro e do Bando de teatro Olodum. Tese de doutorado , Unicamp, 2010.
NARANJO, Julio Moracen. Maria Antonia e Efigênia, gênero e sociedade no teatro negro caribenho.  Revista Brasileira do Caribe, São Luis Br, Vol. XII, nº23. Jul-Dez 2011, p.549-280.
MOURA, Christian Fernando dos Santos.  O Teatro Experimental do Negro – Estudo da personagem negra em duas peças encenadas (1947-1951). Dissertação – Mestrado. Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista – UNESP. São Paulo, 2008.




  


*Salloma Salomão é Músico, Professor e Historiador. Doutor em Historia pela PUC-SP investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pesquisador interessado na produção cultural negra contemporânea no Brasil.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Salloma Salomão Próximo livro CD- Notas tortas da madrugada: Canções e Letras.

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 Salloma Salomão

Próximo livro CD- Notas tortas da madrugada: Canções e Letras.

https://www.youtube.com/watch?v=RPUK0wYKsYo

Testamento sonoro. Salloma

Fotos de Wilson Cortez.

Se o futuro é feito apenas de finos fios de desejos, o passado só pode ser transcrito com lápis de sombras e brilhos... Meu tempo é esse. O relógio sob a retina não deixa dúvida e nem escolha. A música me levou a lugares que jamais poderia ter ido por mim mesmo. É maldição e dádiva, é cultivo e desencanto. E por mais longe que eu vá, Rio Branco ou Paris, Cocaia e Santa Cruz, Ilhéus e Dacar, ela é almadia. Araquari e Lumiar, Bela Vista e Grajaú, Penha e Copacabana, Guiné Bissau e Perdizes são sempre as mesmas canções-canoas. Ouço, ouça, Donana lavando roupa, Dusantos secando louça, Antonio fazendo flauta bambu  no serrote artesanal e arco-de-pua, violino compensado rangendo, tacho de cobre cheio de doce, cavaquinho plangente eletrificado. Só herdei as ferramentas e uma viola de arame. Pra que mais? Tenho tino, tenho timbre, tenho senso. Não posso negar, caipira preto é o que sou, trago sempre no bornal uma pitada de congo, uma viola DAngola, como um banzo do futuro. Meu lugar é o erro, aspiro a memória do mundo. Pausa longa, performance do nego Jansem “moleque zaranza” num festival lá nos fins dos sessenta. Umas fotografias rotas e outras rasgadas, prisma em preto e branco deles e saudade. Sempre é uma re-volta a cantiga do Dedé: "não me chame de negro da alma branca...” no festival de São Sebastião do Paraíso, num inverno qualquer de 1979, com João Terra, João Batista da Silveira, Vandré e Lord Bira da Silva.


O chão de terra é semeado de rasqueados de violas negras, calangos e pagodes roceiros. Ngomas são senhoras de couro e madeira, células rítmicas milenares, segredos abertos. “Moda de viola não dá luz a cego”, canções do sargento pimenta também não. Só entendi o grunhido da guitarra quando ouvi a Mbira envenenada de Francis Bebey. Sou caipira preto, fugitivo para um quilombo eldorado, mas a cidadela é murada, cercas elétricas indizíveis. Não fui a portobello road, mas ouvi a canção que me veio do Suriname, senti aqueles acordes consonantes do reggae e vi quando os primeiros rastas entram altivos na metrópole e desceram a Martiniano de Carvalho. Só eu vi que cidade parou Jorge Porttugal. As soberbas de São João Batista do Glória moravam lá.
Nem tudo no asfalto é duro. James Brown e Al Green moveram meus olhos e ouvidos para norte, bem depois que me veio os Black Panters, Richard Wrigth e James Baldwin Quando o amor me visitou, Ezir morava com a mãe num prédio nobre no Brooklin, mas não em New York, mas em Santo Amaro. Porteiro de pequeno porte me interditou a mando dela. Claro que não foi a primeira vez nem a última, que senti o frio que vem do norte. É preciso esquecer, mas não perdoar, ponho na canção o trauma, o medo e todo, todo lixo que sai de mim.
Tem uma coisa na canção que me alimenta, uma alegria contida, como uma oração presbítera em forma de canto de umbanda, amalgamados e fundidos. Desde o começo. Roda de pai oxalá foi minha primeira cantiga, defendida em um festival no ensino fundamental com Raquel e Ana de Lucas e Susana Pimentel, Violão e tambor, e só. Depois que veio e Inhola Trio. imagine a saga, uma flauta doce e dois batuques, fecharam escola para um show, cobramos ingresso e tal. São Paulo e Minas Gerais, mas “não sei se vou, não sei se fico”, minha dúvida e de Martinho, chegamos juntos. Ele pelas ondas do rádio, long play na eletrola de pilha, sob a lona preta no Jardim Miriam. Eu? Via estação luz, chapando os olhos nos arranha céus. Na escola um corpo de menina dança, cheiro, falo, sonho. Periferia e cordel, pastel de feira e japonês, Harume, Kaoro, Mario Nishigawa, Mitico, Ana Saiure, Akira S e che Guevara, diversidade total, humana e real. Descoberta do mundo e encontro. Cubo da feira, clube da esquina, Jorge Ben e Jorge Bruder, piscina cheia, lazer na periferia. Agora nomes parecem remotos, Raquel, Eugenio Vinci, Léa, Marcão, Valada, Marcinha anos setenta, uma escola uma quadra, um festival de música. Um pouco de futebol, ponto de ônibus, shorts cumprido, skate e ditadura.
Quando meu mano Abraão se foi , eu nem senti, já estava aprendendo a perder, a cair sem saber, a chorar pra dentro.
Do terreiro surtido nas Gerais à mesa parca, ao terreiro minguado na beira sul, arreia de brejo, terra morta. Pencas de bananas em fim de feira e a merda voltando pelo ralo, rua das laranjeiras na Catarina. Lá se foi o dedo do Gerson na máquina de concreto. Confesso que era um espetáculo o corpo nú daquela alemoa na janela.
Cinema toda tarde, coisa de menino nos olhos dos crescidos. Troca-troca e punheta, revistinha e fantasia. Eita molecada. Pula essa parte.

Um cobertor bem quentinho com dragão chinês estampado, nada se perde em são Paulo, obrigado Bete Ng. Como foi que um cobertor chinês atravessou os oceanos? São Paulo também tem carinho. Betão, Rubão, Broks, Claudionor. Corpos negros masculinos em profusão, virilidade do futebol, sou eu, Pelezinho, canela fina, fujão. Num mundo tão diverso, tudo era branco demais. São Paulo é poder, foder e cair. E sonho dantesco no semáforo. Cida Ângela, Zaire, tranças e contas no cabelo é orgulho negro, black power, irmandade e desejo, dançar soul no chão batido. Hoje não tenho mais medo de bala, corro em zigue zague, meu corpo não é fechado, também sei sangrar. Não vou morrer de tiros no campinho, de bola na quadra do Monsenhor JB de Carvalho, me intriga esse sobrenome. Agora é tudo área da Cooperifa, Marcio Batista, Sergio Vaz e Vaz de lima. Euller não conheceu Anastácio e Verinha, Beiçola e Neguinxim, Al green e Ray Charles. Bloco do beco e Originais. Samba soul e Nascimento, Melodia e Zamba Bem. Tudo Transa negra, pertença, danças e amores de bailes, caba quando chega o busum. Rituais, becos e muros do parque santoantonio (oh favela, canta comigo: “a subida do morro é diferente, o movimento é geral”, bem antes de racionais mcs). Um universo no corpo dela, bela Arlete, meu negro amor saltando pinguelas. Onde andará?

Viva Vilma correndo da morte, Carlo-Marco, Maria de ontem é Cristina da Paz hoje. “Viva a mata e os olhos verdes da mulata”. Saúdo seu zelo, porque seguem em cantoria no velho mercado. Pra mim um santuário, escola e palco do Circo Novessência e Na Corda Banda. Em plena ditadura da solidão, seguem amando a música que está em nós, cantando para ir vivendo. Lembrança lomga Inhola trio, mulatos quase brancos e velhos brancos bem racistas, mas pobres demais, sem força para nos apartar. Né Bubina? Né Kolchereiber? Nem Pusinkas, nem Mandim, nem Cremm, nem Bochiglieri. Meu amor nunca foi muito puro, confesso. Mas também quase nunca aceitou fronteiras reais, nem simbólica, 4 p paz. Filosofia Miltoniana: “Quero a quem quiser me amar”. Porque agora sei que só os afetos são eternos. São eles que continuam vibrando quando os nossos corpos jazem frios.

Eloquência da vida é Beto vovô e nega senhora, a índia mais linda que eu conheci. Vera é vera, passou bem cedo, choramos e catamos seus sonhos. Foram tantos outros que eu nem vi, não velei como Nenê. Não é morte, é ceifa: Sabão de Côco, Zédoido, Marcio Caveira, Zédimas. Falo sério sobre subcidadania, da sobrevivência em terra alheia que é sua. Nomes e listas nos bares, pés de patos e avatares, matadores de aluguel, a cidade é uma maquina de moer gente. Exceto Rolnik, os demógrafos nada sabem sobre nós, estudaram tanto, até que cobriram os olhos com teias rendadas de números. Meu Estanislaw ( não Sergio Porto) era um branco bem raro, bom de bola pra caralho, mas inviril e fingidor, cantou pra subir antes de nós e foi só. Descobriu e quis nos mostra que amizade não é amor, é lucro. Identidades em jogo de construção, operário Carlão, Frust, João Loruenço, Tchak, Banana-Ana, Chicão, Marilena quase fome, criançada, subemprego e marmelada. Para o poeta Nonô éramos todos metalúrgicos e nordestinos, provincianos em revolta, comunistas, proletários letrados, mas sem a grana do Caio Prado, do Carlos Prestes ou do Niemayer. Chico era um operário do BNH, no violão de sete cordas, ele está são e resiste e seus ainda correm leves na baixaria. Lá na igreja do padre Luis era seu Raimundo fazendo folia urbana, subindo e descendo morros escorregadios, sob os olhos da velha índia de pele negra, também registrada como Ana. 

É poesia do Chico não meu véi, é vida vivida nos Grajaús da vida, no lado que a cidade é partida, onde quase nunca se junta. As cidades são miragens, os bairros são teares. Eu sou besouro de pau, se pá, zunindo nos seus ouvidos. Feira de Santana e Bosque da Saúde, João Braga e Helo “oh quão dessemelhante”. “Triste Bahia”. Novela afro grega e mexicana, amores ameigos. Itaparica ta lá. Quando vamos voltar?  Não creio. Nomes de gente, gente com fome, Carlos Boquinha e Carlos Gianazzi eram, éramos  Gil/Caetanos da triste periferia. Triste Interlagos, Chico Czar fazendo turnê na Capela do Socorro, Parelheiros, inda ouço “os olhos tristes da fita rodando no gravador”.
Um neguinho foi esteio, elemento cumeeira Luis Rosa, Buda bantu. Plantou ruas de harmonias pra eu navegar com meu canto torto. Notas que eu sempre pus na beira, sem trena. Não só por isso sou muito grato. Lamentamos juntos nossos irmãos que jazem aqui nesses campos de asfalto, fuligem e lama. Canções são sempre maiores que nós, rompem o tempo ficam vagando e nada disso é eternidade. Tornar-se irmão do irmão, contabilizando as perdas e ir costurando sonhos e risos, sem vangloria, não é pra qualquer. É coragem sem tê-la. Oliveira árvore sã, seu óleo é sacro, cabocla-negra, senhora filha da velha aroeira, indígena parelheira, centenária. Pra cada perda uma poesia, para cada negra filha, uma ilha amarrada aos pés continentais. Amor é da nossa condição animal, sem ele não há como prosseguir.


Meu coração tava aberto quando ela chegou, perguntei seu nome, mas, nem ouvi, só mirava na sua boca. Algo estranho me ocorreu sobre sua cor rósea queimada do sol. Cor branca tostada na feira livre, seu cabelo dourado e seus olhos marinhos de TV colorida. Mas não me ative ao texto da interdição e exogamia. Racismo é ojeriza e ódio pelo humano que vem ao encontro e não pelo que se põe de costas. Como? Se eu não caibo em mim mesmo, se eu nem existo pra mim...como poderia existir para o outro? “Mesmo que os racistas vençam, ninguém poderá me roubar a memória, das marcas dos meus dedos em suas costas”. Há sempre uma mulher chamada Ana de prontidão, nome de baptismo, segredo da vida em desalinho, fêmeas soberanas.  
Tem muita alegria e vitoria espalhada além de santoamaro, Miranda dOuro é canto puro mundo inteiro, Maga Lieri com alma amansada pela dor, também canta humilde e divinamente. Conheci outras tantas mulheres negras, não na cor, no mundocanto, cujas formas ainda busco. Passarinhas negras como Sara e Geni, ora. Oração, inselença e Kalunga Zambi. Os fragmentos dos seus corpos geraram outros bem mais fortes, como de Danusa Novaes, Meire Palma, Nádia Rosa, Luan, Marcus e Marina. Desconhecidos de Filhas, filhas e irmãs. Detalhe: são portadores de cantos negros cultivados, herdeiros daquelas mulheres. Novamente famílias negras acolhedoras nas beiras de Diadema e Jardim Miriam, por onde passei ao chegar. As crianças vingaram, estão forras e a cidade os habita, ainda que vivam na beira.

Outros caipiras urbanos, de caralhos rubros, alma cheia e cabeça oca, broca ou fábrica de filhos. Não. Como eu, são apenas homens assustados e sustentados por dois falos e uma perna, um pau-de-fogo, uma paranga ou uma zumba. Sobre os filhos deles, não fossem as mães seguras e velhas, gente que cria e recria a si mesma, desde que o mundo é mundo, teriam sido engolidos pela enxurrada, tragados pelas ruas. Não me furto ao papel de juiz e serei julgado pelo por tudo que fiz e pelo que não fiz. Melhor assim, do que passar incólume.
Hoje eu sei quem sou e o que me tornei. Um homem negro. Meu ser está preso nesse corpo melanínico e fálico. Espasmos frouxos de desejo, relampejou na pele e o odor se espalhou.  Sinto daqui de dentro desse troço-móvel que a justiça, a polícia e os racista de todas matizes, simplesmente me odeiam. Apenas meus irmãos e irmãs tateiam cegos os escombros da cidade para me achar no corpo. Ele, apenas me sustenta no mundo e eu o sinto pouco a pouco me desencontrando. O mundo.

Como Jansem  sou alfaiate, a canção é a costura pacientemente feita entre a luta cotidiana e as vidas ao derredor. Banda Tribbu, Vândalos de Chocolate, timbres e sonhos, medos e tons, sons que arrebatam e fazem o corpo reviver. Em conjunto as canções formam flashs iluminados, nas rotas escuras da corrida encarniçada pela liberdade. Satranga de lima seria um caso a parte pela generosa reciprocidade e vigor. Uma lição viva de afeto, pelo gesto e pelo cunho francamente libertário de sua canção, pela radicalidade como viveu e vive seu amor pelos outros homens, desde quando se descobriu livre. Nos dois nas beiras gélidas do sena, canções, luzes e amores na cidade rica.
Me desculpem, mas os canabistas adeptos sinceros tendem a falar muito sobre o mesmo, mas ao menos não se quedaram em dog-máticos cruzadistas. Tendência avassaladora atual. Nessa margem externa dos pinheiros quase todos os bares foram reformados e convertidos em casinhas de cambio jesuíticas. Há muita música de transe e grandes amigos nossos, hoje vivem lá. Esperam a salvação ou campeiam algum trocado, a vida é dura mesmo. Constato apenas. Nesse caso específico não julgo e nem, não lamento.
Os girolamo-scantamburlo e schultz serão sempre parte de uma reserva afetiva interrracial e não importará o que acontecer daqui em diante, quando todos os racistas emergiram de suas tumbas, só pele, osso e DNA. Nego Jansem frisava o quilombo imaginário de santamaro e a noção do triplo pertencimento, sem saber das revoltas indígenas do século XVI, imaginário em expansão. Negros claros e brancos caídos, circuncisos ainda meninos Gil Assis, Chechetto, Sechanechia, Urbano, Binho, Telmo anum, João grande, Beto de Tore, Carrasco, uma quantidade infinita de nomes, certezas e tons de pele. Novamente canção, feixe de ego e cisão. Não é geografia sonora, é infixidez do território, seminomadismo tonal, zona fronteiriça entre a música e a dúvida, entre a dádiva e a maldição Bandas Tribbus. Tigrão e Célia, Magnólia, Eufra e Mauricio, meus mestres me ensinaram a arte de ficar invisível e a coragem sonhando.
Aprendemos pela experiência cotidiana, que por vezes o viver do lado de cá da ponte é marcado por um sentimento terrível de holocausto, que não cessa nunca, dezenas de vidas ceifadas numa única noite, é aterrador, sufocante. Circuncisos na vida adulto, eu, Caminha, Mano, Godoy, Suete, Salete, Tai, Elcio, Caçapava e os Fischer. A arte nos parece ser única coisa capaz de dar um contorno compreensível a essa nuvem de silêncios e narrativas sobrepostas, imagens recortas e sobrepostas, vidas quase fictícias, temporaliadades e geografias entrechocadas. Por conta das divisões internas, mal conseguimos saber de onde vem o chumbo. Sequer conseguimos sustentar um teatro livre como aquele da Bielorrússia. A arte aqui tem a ver com a urgência existencial das coisas frágeis, sopros envolvidos numa engrenagem, quase sempre desgovernada e cruel. Clarianas, Capulanas, Quizumba, Crespos e outros tantos negros coletivos, são bons presságios, um refresco para tanta vida vã. Jurema e Kaká um dia hão de ver.Verá, fomos poeira do mesmo rastro no tempo. Aqui vai em mim, Allan da Rosa e Fuzil, adormeceu Donanena. Um crescente fértil Mboy, Pirajussara e Zavuvus. Também tento ser semente ngaguelano no chão da Mombaça. Do quilombo ouro melinde, beleza e graça. Soul da nova tribo de Sumé-Zambi. Crico Novessencia agora é regra, circo-teatro-musica-dança lembra.

Pode ser por culpa da escola e das professoras que me deram trela, foram tantas, uma Alcione Abramo, outra Angelina. Nunca me escolarizei por completo, conquanto doutor semialfabetizado. Me fiz um juntador de letras, um catador de palavras e algumas frases com eixo. Sou letrista que canta. Como disse a educada Teles, portfólio de pouco verniz. Tavares é silvicola, menina boa e erudita, bem dita, bem vinda um caixeiro viajante, cordelista pós moderno. Então me dá licença! Quero entrar no seu campo de sentidos, para ver se minha vida ganha algum. Prometo não ficar rico, mas me perdoe se eu ganhar algum trocado nesse mercado de afetos e cismas. Estamos a caminho de Tonande Porã. Viemos em porões, mas humildade mesmo, só diante do Deus-Tempo. Único senhor medroso e também por isso, implacável.