Free website - Powered By Wix.com
Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

São Paulo 1990 – Guinada da Cultura Urbana.



1990 – Guinada da Cultura Urbana.

A música R.E.P. (Ritmo e Poesia) destruiu simultaneamente e por completo a nossa ilusão escolar e ingênua da existência de uma cultura universal e outra cultura nacional genuína que nos pertencia. Fez isso por meio de  jogo interpretativo que combinava contrastes simplificados. Essa forma bastante didática, nos mostrou poética e musicalmente unidades sociais conflitantes e separadas da sociedade paulistana e  revelou a existência de duas realidades sociais urbanas paralelas, mas bem distintas, centro e periferia, mansão e favela. 

Lembrando Edward Dubois, agora penso que as fronteiras nem sempre invisíveis entre estes dois mundos eram mantidas por um véu ideológico de suposta integração e involuntariamente alimentado pelos setores mais escolarizados das populações pobres, esse era meu caso. A Escola ( instituição)  teve e tem seu papel de atenuadora dos conflitos sociais, com a inserção  de conteúdos culturais aparentemente neutros e supostamente universais na nossa formação. 
Luis ( LF do DMN) (2000. By Marco Aurélio Olimpio)
   
A Música R.E.P. e o Movimento Hip-Hop alargaram nossa concepção de consciência social e nos ofereceram uma ideologia política, que para a juventude pobre urbana que não existia antes, ou ao menos jamais advinda de dentro. Essa ideologia pode ser definida como sustentada em Quatro Pês (na línguagem do HipHop é 4P). Poder Para o Povo Preto e  Paz. Essa ideologia combinava, em termos de discurso a denuncia do racismo e da exclusão social, a fixava uma filosofia baseada nas experiências de desemprego, alcoolismo, degradação moral e contrapunha imagens do  cotidiano dos pretos pobres e favelados e as das elites brancas. Localizava a chave sociológica da dominação, as relações de poder e sugeria o empoderamento contra a pobreza e racismo.
As culturas negras urbanas quase domesticadas pela indústria do entretenimento e pelo folclorismo nacionalista,  que haviam sido primeiramente reprimidas com forças policiais e depois encapsuladas com artifícios intelectuais e transformada em folclore renasciam sob ímpeto imprevisível. No formato de cultura popular urbana o REP emergiu do setor mais degradado da sociedade brasileira, as populações jovens urbanas sem trabalho e de baixa renda. Favelados e periféricos jovens negromestiços ergueram a voz para denunciaram a opressão social e juntaram fragmentos de identidades negras trabalhadas em vários tempos e geografias da diáspora para fomentar uma ideologia nova e potente, que ainda hoje produz sentido e frutos políticos e estéticos.  Dança e política, canção e ideologia, estética e sociabilidade fazem parte de um repertorio próprio da existência diaspórica que os intelectuais cartesianos tem dificuldade e, lidar.  
O termo Periferia foi transformado em plataforma identitária, quer dizer lugar físico e simbólico agregador de coletividades diversas. Antes disso periferia era útil somente as mídias, aos tecnocratas da habitação e aos explorados do mercado imobiliário urbano. Coletividades compostas prioritariamente de negromestiços, mas não só, também migrantes nordestinos e mineiros, homens e mulheres, encontram na retórica e poética do R.E.P (embora marcadamente misógino).


 Kleber ou KLJ do Racionais Mcs. (2000. By Marco Aurélio Olimpio)
 
Tratava-se de uma dialética nova e que rapidamente se aprimorou a partir de São Paulo. Embora surgido como forma de entretenimento urbano dos sem-lazer e pouco escolarizados, os protagonistas do R.E.P o transformaram em movimento social e forjaram a emergência de politicas públicas de culturas, que antes se enceravam nas áreas centrais da cidade ou nas margens internas dos Rios Pinheiros, Tamanduatei e Tiete.           
Que a Cultura Hip-Hop tenha influências estadunidenses em termos musicais é certo e correto, mas a ideologia 4P foi forjada pela leitura objetiva e pelas subjetividades das experiências de opressão e segregação sociocultural e política negromestiça especificamente brasileiras. O racismo antinegro no Brasil, embora inserido na dinâmica do racismo mundial tem seus fundamentos, cores e traços próprios.        
Em termos de prática cotidiana difundia formas simples de autopreservação com base na amizade e na configuração de pequenas células de autossuficiência e produção cultural autônomas.  O núcleo discursivo da poética REP recaia na acusação veemente do Estado pela  violência, ainda hoje corriqueira, cometidas pelas forças de segurança  e para isso pedia a Paz. Mas não a mesma Paz, paz de cemitério dos movimentos da classe média branca, que podem ser traduzidos como melhores armamentos para política, mais liberdade para matar e maior sofisticação do modelo repressivo.
Principalmente  evocava a compreensão da ordem social para localizar a fonte da opressão, se não pressupunha uma revolução armada pregava uma reversão  total da hierarquia.  Forjava simultaneamente a mensagem moral de autoestima e autopreservação que fez muito sentido para um setor urbano totalmente desassistido pelas politicas públicas e menosprezado pelas organizações políticas tradicionais, os partidos. Esse fenômeno surgiu por volta do início dos anos 1990 e durou até por volta de 2007, quando uma terceira geração de Repers surgiu na cena da produção musical.


 Antonio Pinto, Sulei Chan e Salloma (2000. By Marco Aurélio Olimpio)


Auto estima, isto é: Somos negros e pobres e esse sociedade pra nós é foda, se liga nisso mano se quiser continuar vivo.  
Trabalhando incialmente ao nível das letras e atitudes com um discurso textual, visual e corporal relativamente simples e fundamentado em contrastes binários, que dividia  o mundo em dois polos, centro e periferia, boys e do gueto, polícia e otário, mulher e homem, negros e brancos, racistas e manos. Além da música e da dança a cultura Hip Hop conseguiu infundir nos seus participantes, ao menos na periferia de São Paulo, profundo gosto pela leitura e escrita, pelas linguagens das imagens, constituir uma nova cena de discussão política e de reflexão sobre identidades étnica e etária.  Podemos atribuir também a cultura Hip Hop uma percepção positiva da Escola Pública, como um local de segurança, expressão cultural  e ascensão social.
Um divisor de águas desse processo pode ser identificado no Programa “Rapensando a  Educação” desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação entre 1990  e 1991, foi concebido como uma interlocução entre a escola pública e as comunidades periféricas e mediada pelos jovens portadores de cultura Hip Hop na cidade de São Paulo. Traduziu-se na realização de uma série de oficinas de criatividade realizadas na escolas municipais: Grafite, Musicalidade, Dança e em diversas outras linguagens. Ainda hoje há uma memória significativa dessas ações que circulam oralmente pela cidade.
Na prática simbolicamente registra o encontro de ativistas negros antirracistas da geração de 1970, sobretudo ligados ao MNU ( Movimento Negro Unificado) com os jovens Repers, grupos Racionais MCs e DMN, através deles se inicia uma das colaborações políticas e criativas  mais interessantes dos Movimentos Negros Brasileiros Contemporâneos. Essa articulação rende frutos ainda hoje e em alguns momentos chegou a ajudar a definir as eleições na cidade de São Paulo, embora não haja pesquisas sobre participação politica partidária e tendência de voto da juventude urbana.
Esta ideia de que seria possível sobreviver do fazer cultural, fora uma hipótese testada pela geração do Hip-Hop paulistana da década de 1990 em duas circunstâncias, no município de São Paulo e em Diadema, uma cidade industrial na área metropolitana. Apoiados pela Secretaria Municipal de Educação, quando pasta era comandada por Mario Sergio Cortela, esse comboio de Repers, Mcs, Grafiteiros e Dançarinos de Breack circulou pelas escolas da cidade de São Paulo e região metropolitana mobilizando alunos educadores e ativistas.
Essa inovação estabeleceu um diálogo pouco comum entre cultura escolar e a cultural jovem extra-escola, nromalete vista com grande preconceito pelos educadores formais. As escolas públicas tornaram-se espaço formativo ocupado por educadores não escolarizados ou com baixa escolaridades, mas portadores de uma mensagem a qual a escola pública ainda hoje é capaz de assimilar.  Com palestras e oficinas de Grafite, Discotecagem, Musicalidades e Escrita de letras. No mesmo período a prefeitura de Diadema instalou na cidade um centro cultural designado a “Casa do Hip-hop”. Aquele espaço concentrou pesquisas estéticas e estudos sobre a cultura Hip-Hop no Brasil e nos Estados Unidos. Foi nesse contexto que se iniciou o reconhecimento social e profissionalização dos educadores culturais periféricos.
  A ideia chocante e potente de que os jovens negros pobres são sobreviventes no gueto não é retórica é uma elaboração poética de uma realidade quase sem poesia alguma.     
Diante de uma pressão social sem precedentes a juventude urbana paulistana, normalmente acuada entre a cultura do consumo, a violência de estado, a semicidadania e a violência social, encontra entre os dejetos  do “lixo ocidental”, as flâmulas que podem ser ressignificadas  e transformadas em modos de ser e estar no mundo. É nessa chave interpretativa que se pode focalizar nos movimentos culturais  negroperiféricos.
 Luis LF (DMN) e Pivete (Pavilhão Nove) (Acervo pessoal dos artistas, autor não identificado)
Suas figuras mais proeminentes começam a se constituir como um tipo  novo de liderança social e política e por isso passaram  a serem cortejadas pelas empresas médias e grandes de comunicação, universidades, corporações e instituições estatais ligadas a educação, artes e culturas.  Prêmios, convênios, títulos, fomentos não são exatamente estratégias de esvaziamento do conflito político-cultural, mas funcionam como tal, diante da fragilidade da nossa crítica.
Uma tradição cultural no Brasil é o fato das linguagens artísticas, nas suas cinco modalidades (Música, Dança, Literatura, Artes Plásticas, Teatro e Cinema) serem cultivadas e exercidas hegemonicamente por pessoas e ou instituições advindas das classes altas, salvo as exceções já catalogadas.  Isto posto significa reconhecer o caráter racial dessa hegemonia. Os eurodescentes são detentores do poder em todas as esferas da vida social, embora o discurso de pertencimento nacional, cuja ênfase recaia sobre o caráter transcendental da raça e na valorização da mestiçagem cultural, como uma forma de distensão sociopolítica.
Nem mesmo as mudanças sociais e políticas recentes, como maior índice de escolarização dos setores sociais historicamente mais empobrecidos e alternância política e a emergência de novas elites regionais e nacional foram a capazes de modificar substancialmente a concentração de status e poder das elites de origens europeias.
O máximo de organização que as lideranças negras obtiveram redundou na formação de uma classe média negra urbana ruidosa, cujo discurso  e praticas é até vigorosa, mas ainda incapaz de construir a unidade necessária a mudança estrutural que racismo também estrutural reclama. Ou seja sem mudar as regras do poder racial no qual o brancos figuram no topo da pirâmide. Em outras palavras não tem sido possível transformar o poder cultural e simbólico em poder político.
Tem sido o desafio e paradoxo dos movimentos negros brasileiros que obtém lugares menores nas estruturas politicas, porem não conseguem atingir o objetivo enunciado ainda nos anos 1930, que é construir um movimento unitário negro de âmbito nacional ou internacional (já que o racismo antinegro tem dimensão mundial). A fragmentação política tem sido o desafio mais recorrente e o mais o trágico dilema  da luta negra no país, algo constatado já na década de 1940, por exemplo, por um intelectual e ativista como Guerreiro Ramos.                 
Uma pequena minoria  dos intelectuais emergentes transforma-se tradutores e  mediadores dos códigos identitários contraditórios e difusos das periferias e da população negras, mas efetivamente seguem isolados nos pequenos grupos e onde são publicamente cultuados como figuras carismáticas e supra-humanas. Nos bastidores apresentam-se autoritários, mesquinhos e distanciados da massa humana que os revência. Cortejam figuras e instituições detentoras de recursos financeiros ou materiais capazes de promover seus feitos, seus bordões e sua imagem. Alimentam assim as relação paternalista como padrão de tratamento entre setores subalternos e as elites.
Embora parte do discurso recorra a figuras da revolta, levante e ruptura, na prática o que se vê é continuidade ou mudanças superficiais nos padrões de dominação social racializadas. Não obstante um campo de trabalho novo se configura nas periferias paulistanas. Os arteducadores são jovens de sexo masculino em sua maioria, muitos com escolarização de nível superior obtido na rede de ensino privado que muito prosperou na regiões pobres para explorar a massa de sem-faculdades.
Detentores de técnicas artísticas e conhecimentos práticos em música, dança, literatura, fotografia e  cinema digital esses educadores receberam um tratamento diferenciado do Estado, por meio de uma política pública elaborada às pressas, em meados dos  anos  2006,  para responder a pressão da opinião pública, quando ficou evidentes os massacres contra a juventude urbana cometidas como forma de retaliação, pelas forças policiais nos episódios conhecidos como “ataques do PCC).
Os trabalhadores artístico-culturais representam uma nova figura no cenário das periferias onde predominavam o desemprego estrutural, ou o trabalho informal, o bico.  Outra presença nas periferias é trabalho semiformal nas empresas terceirizadas e Ongs voltadas ao atendimento social, que completam os serviço público em forma de convênios. As creches em sua maioria são resultados desse tipo de convenio, o que revela a omissão sistemática do estado em relação a infância periférica.
As mães trabalhadoras recorrem aos parentes e amigos, quando não a cuidadoras informais que lotam suas casas e quintais de crianças, como forma de complemento da renda. Os que têm ímpeto empreendedor e algum recurso financeiro conseguem transformar essas práticas em pequenas creches e escolas, que atendem até 200 crianças em espaços onde não caberia nem a metade disso.
Os saraus ganharam força nessa época, mas suas raízes encontram-se na décadas de 1970, sobretudo nas atividades culturais das Cebs (Comunidades Eclesiais de Base), nos festivais e encontros culturais estudantis e nos eventos privados da elite paulistana. Entretanto na década de 2000 os saraus se constituíram em polos aglutinadores dos anseios de parte da juventude periféricas porque construíram uma ideologia e uma pratica social extremamente sofistica, que combinava produção artística-cultural e alternativa e modo de vida.
Considerações Finais
A modernidade é a maior invenção do mundo ocidental e ao mesmo tempo sua maior falácia.  As promessas e de equidade e liberdade jamais se cumpriram nem mesmo nas sociedades ocidentais mais opulentas.  Seu maior legado, ou seja, o humanismo, agora se transformou em lixo ou retórica. Lixo porque uma das caraterísticas reveladas na dinâmica da modernização mundializada é a capacidade de exploração estatal coorporativa ou pessoal de todo e qualquer tipo de recurso, até sua exaustão, deixando no caminho os desejos materiais e espirituais.  
O humanismo como forma de pensar a existência e diversidade humana e estender seus limites e para além da Europa branca e civilizada, na verdade se esgotou no quadrante norte. O Estado que se preconizava o árbitro  das iniquidades, efetivamente se tornou um senhor  arrogante, mas subalterno do capital e por pouco não foi totalmente esvaziado do seu poder normativo e agregador. O progresso técnico foi capturado irremediavelmente pelas corporações capitalista e os estado tornou seu refém.
Por fim o Humanismo foi atirado no lixo e por isso agora surge como estandarte nas mãos do excluídos  de todos os pontos do planeta. Nas periferias das periferias do mundo industrializado os mais subalternos e excluídos entre todos sujeitos sociais reivindicam pautas que foram catadas no lixo da modernidade. Aquilo que não foi capturado totalmente pelo mercado de consumo, qual seja, as linguagens artísticas, e educação escolar, o direito a diversidade, a cidadania,  o direito a existir nas cidades, agora figuram nas bocas dos sem coletes, sem empregos, sem casa, sem cultura e também dos portadores de estatutos rebaixados de cidadania ou de hipocidadãos.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Mestiçagem, branquitude e racismo anti-negro no Brasil-Uma cena do cotidiano





Cena do Cotidiano:
Fazendo compras no domingo de manhã, eu e um senhor magro e gentil, branco e pele tostada pelo sol. Nos esbarramos entre as prateleiras. Ambos na gôndola de laticínios, ele pegou um produto e me pediu para ler o texto da parte de ingredientes para ele. Queria saber se tinha sal. Pensei comigo, deve ser diabético como eu e deve vir daí sua dificuldade. Li o rótulo e ele com um sorriso leve e um tanto envergonhado, primeiro olhou pros lados, depois pediu desculpas e meio sem graça falou bem baixo, que não sabia ler. Liguei a chave antropológica e perguntei porque não aprendeu. Já um pouco a vontade disse que começou a trabalhar pequeno em olaria, ali no Potuverá ( Itapecerica, grande São Paulo, Brasil), a escola era longe e que os pais não acharam que era importante frequentá-la. Depois de adulto passou a ter vergonha de demonstrar para todos que não sabia ler, afinal aprendeu a se virar sozinho. Memorizava a cor dos ônibus, das notas de dinheiro, e mais tarde aprendeu com uma irmã a assinar o nome e fazer contas básicas. Agora que trabalha como pedreiro e, anda sempre com uma calculadora no bolso, principalmente para usar quando vai medir e contratar o serviço. Faz suas anotações precárias e ao chegar em casa pede ajuda de algum filho, para fazer os cálculos mais complexos e redigir os orçamentos, me disse. Cada um pegou seu produto e em seguida rapidamente nos despedimos. Por algum tempo não pude deixar de me lembrar daquele rosto magro e pensar em várias coisas: sobre relações humanas; sobre educação compulsória atual no país; sobre a permanência das desigualdades de acesso a escolarização básicas das classes baixas atualmente no Brasil, sobre idéias e interpretações sociológicas que temos sobre as condições de vida dos brancos pobres, em contraste com as dos negros tal qual; etc. Nós pesquisadores negros e negras poderíamos também estudar melhor as formas de perpetuação do poder , prestígio e mando das elites brancas? Imagine que conseguíssemos acompanhar por aos menos 20 aos as organizações patronais como a FIESP, ou acadêmicas, como a USP, por exemplo?. Creio Ninguém precisa me avisar das especificidades do racismo antinegro no Brasil e das nuances de degradação a depender do tom da pele negra e índia. Mas também creio também que, do ponto de vista da reflexão política, antropológica e histórica, a esta altura, já não é mais possível pensar e grafar “brancos” como categoria homogênea.




Óbvio que a reflexão pode descambar pro lado pessoal, afinal minha mulher é branca, etc. Tem mais de uns trinta anos que os movimentos negros elaboraram uma poderosa rede discursiva sobre mestiçagem e relações interétnicas, que ainda pauta muitas pesquisas. Reconheço portanto a importância da desconstrução da ideologia da mestiçagem. Mas será que atualmente podemos enfrentar esse debate a partir de outras referências, que não sejam Freyre, Fry, Viana, etc? Será que existe um caminho do meio entre estas duas tendências na leitura e interpretações sobre relações raciais no Brasil?     

Lia Vainer Schucman (veja: http://www.scielo.br/pdf/psoc/v26n1/10.pdf) está nos ajudando a compreender as práticas  racistas perpetradas por brancos brasileiros e mensurando o nível de consciência que eles tem sobre isso. Ficamos bastante tempo estudando, compreendendo e combatendo os efeitos sociais e psíquicos do racismo antinegro e sabemos como é delicado, tenso e difícil criar mecanismo de captura das atitudes de ojeriza racial antinegra no plano interpessoal, dado a natureza da nossa cultura oficial. Os dois planos básicos de expressão do racismo interpessoal, quais sejam, o público e o privado.  Por outro lado  está também nos mostrando o desafio maior que é no processo da luta antirarracista os brancos foram homogeneizados em um tipo branco ideal. Esse branco é efetiavemente é racista, racista orgânico ou ideológico. Mas e os brancos que não são, como podemos qualificá-los, reumanizá-los e extraí-los da massa branca do contraste e da denuncia?
Humanizar e qualificar os brancos brasileiros, talvez seja uma tarefa que o humanismo negro  tenha que se colocar, se quisermos continuar firmes e retos no projeto amplo de combate ao racismo. Ou aos racismos.       

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quem lê enxerga mais longe?


Lê quem enxerga mais longe.
 
"Quem lê enxerga melhor".  Povo lindo, povo inteligente. Refrão de auto estima periférica.  Encontros literários mensais comandados pelo poeta Sergio Vaz da Cooperifa, na Fábrica de Cultura do Jardim São Luis, Jardim São Luis, Zona Sul de São Paulo Capital.
Dia 17 de Julho, convidado escritor Sacolinha Ademiro,
“A escrita me salvou”. Chama a atenção esse miolo de um argumento recorrente de alguns escritores periféricos. Ouvi isso ontem algumas vezes da boca do escritor Sacolinha. A literatura que salva, já havia me chamado a atenção antes, mas agora fez ascender uma luzinha colorida em minha cabeça. 
Sediados em São Paulo,  ele, ao lado de Sergio Vaz (http://colecionadordepedras2.blogspot.com.br/), organizador do evento, Ferrez e Allan da Rosa fazem parte do núcleo masculino de maior visibilidade da produção literária emergente no Brasil. Ambos têm presença marcante no fenômeno cultural dos Saraus, que agora começam a pipocar em todo país. São altamente produtivos e com grande capacidade comunicativa, são muito mais que escritores tradicionais. São performadores (performers). Por duas horas vimos,  ouvimos e nos deliciamos com as historias e lutas de Sacolinha para  sobreviver as agruras de um moleque preto e pobre.  Para nem só sobreviver, mas para fazer-se escritor. Evento descontraído e um público feito principalmente de alunos e professores da rede pública da região do cemitério do Jardim São Luis. Essa é uma vitória nossa, semear poema ao lado de milhares de corpos de jovens mortos pela ROTA, pelos pés de pato e pela violência me geral.


 
Aí está o trunfo do projeto, da própria Cooperifa e talvez dos Saraus. Formar um público leitor onde, até bem pouco tempo, reinava a baixa escolarização e em suma a exclusão educacional. Vaz conduz a conversa e a entremeia com poemas seus e estímulos a participação da plateia. Os dois já são velhos parceiros seus caminhos se cruzaram nos ventos literários que se foram abrindo da beira para centro. Até que chegassem as casas publicadoras de grande circulação.    
Esse evento vai se configurando como um novo marco e vem representado em um formato diferente dos saraus, onde predomina uma atividade mais horizontal e coletiva ou talvez de verticalidade diluída.  Aqui tem algo de talk show televisivo e pelo visto funciona muito bem. Um pequeno palco, luzes, som, picape e DJ completam o cenário ao fundo , para no primeiro plano figurar Sergio Vaz e seu convidado. Imita e inventa, reinventa e subverte, tv ao vivo. 
Ao invés de consumo de valores, ideias e artes, produção e criação do lado de cá da ponte.  Ambos cumprem a mesma função de divulgação e legitimação da cultura literária produzida por pessoas de origem popular e periférica  e que encontram ou forjam na escrita e leitura uma nova sensibilidade urbana. Essa nova sensibilidade dos excluídos da cultura escolar não tem tradução fácil e nem pode ser catalogada com o simples termo “periférica”, porque olhada de perto tem muita complexidade, tonalidades, cores, rituais e símbolos que escapam as etiquetas do mercado literário convencional e das análises acadêmicas mais afoitas.

Minha perspectiva é daquele que está dentro e ligado. Isso pela minha origem africana e condição social rebaixada pela dominação racial. Embora escolarizado, sigo mantido e me mantenho à margem do mundo acadêmico branco e tradicional. Vou travando ao lado dos meus companheiros e companheiras de sonhos uma guerrilha cotidiana de assalto ao castelo universitário e Cultural. Mas como outros tantos Sacolinhas sou negromestiço criado sob o fio da navalha e correndo de pipoco em ziguezague.
O fato de ter completado a formação escolar, indo do ensino fundamental ao superior, por vezes causa estranhamento no meu meio social, por vezes sou visto como um alienígena e, tratado ou com desdém tolo e outras vezes com a reverência com a qual se trata os políticos profissionais.   
 


Tido e havido como impuro e híbrido, não sou santo  e nem casto, não sou gênio e nem tolo.  Estamos juntos, mas nem por isso misturados, a cidade é cindida, seus mandantes são cínicos, a sociedade bem bipartida e nem as ruas são compartilhadas. Quando ando nos arredores dos Jardins e vejo um grupo de policiais em cada esquina, sei que não estão ali pra me proteger, mas para proteger a cidade contra mim.  tal como Sacolinha, por mais que escreve, jamais consigo traduzir fielmente este sentimento.
Sobre a literatura dita periférica minha adesão é total, mas é também totalmente crítica, é fraterna e soma, mas não coaduna com paternalismo vigente e nem com complacência estética. Voltemos ao Sacolinha e tensão entre escrita e oralidade.
Também me chamou a atenção uma aparente preocupação de Sacolinha em apresentar suas referencias literárias, nesse caso suas ênfases recaíram em Jose Saramago e Graciliano Ramos. Mas também fez breve comentários sobre sua questão de ler os “clássicos”. Nesse sentido preocupa-me certa displicência localizável em algumas narrativas autobiográficas que fazem uma distinção hierárquica um tanto ingênua e radical entre escrita e oralidade, jogando a segunda praticamente no lixo ou tentando apagar as marcas de oralidade em suas escrituras. Com qual objetivo?
Não pretendo fazer a crítica do trabalho do Sacolinha Graduado, porque não tenho em mim a leitura de toda sua obra e que deve ter sua produção respeitada, consumida, comungada. Mas também como obra pública pode ser lida, discutida e interpretada como uma quebra da hegemonia cultural das elites sobre essa tecnologia, tão cara a modernidade. A sua criação, no bojo do movimento literário “periférico”, já merece nosso apoio, cuidados e zelos, pelo simples fato de nascer e se ramificar fora dos circuitos livreiros de elite. Mas isso basta? Creio que não.
Pela narrativa de Sacolinha sou levado a crer que A literatura escrita salva. Posto que o mundo cultural da oralidade significa um universo caótico e pecaminoso? Nessa caso a literatura é uma espécie de revelação e somente ao acessá-la eu subo ao andar dos escolhidos? O discurso religioso e especialmente neopentencostal está muito perto de nós, entra no nosso repertório através dos parentes  e amigos recém conversos. Ele vem pelo radio , TV, e cinema e entra pelos poros. ( Haja vista gama à cada dia aumentada de filmes católicos e kardecistas, veiculados nas redes de Tvs e cinema comercial, muitos dos quais obtiveram ótimas bilheterias).
Nosso imaginário esta repleto de alusão a salvação e revelação de escrituras. A catolicismo é de certa forma aqui religião de estado e a bancada evangélica tem grande peso e força no congresso nacional. O proselitismo cristão, com a sua miríade de orientação atravessa toda cultura e de forma naturalizada é assimilado em todas as instituições públicas e privadas. Conquanto a constituição de 1988, formalmente garanta a condição laica do estado.

A inspiração advinda das representações cristãs se entoa na narrativa autobiográfica de Sacolinha por conta disso, ou sua pretensa Assumpção é de natureza outra? Social ou intelectual por exemplo? Sacolinha através da leitura e da projeção advinda da escrita literária  passa a compor um grupo de eleitos periféricos, que emergiram dos caos da cultura oral para compreensão da cultura escrita? Qual o lugar das gírias e das dinâmicas da língua viva, marcadamente afroindígena falada nas ruas, mocambos e quebradas, nessa forma de expressão artística impressa, chamada Literatura Periférica?
Um certo paternalismo cultural e político nasceu com a idéia de “dar voz aos excluídos”, uma espécie de síndrome de ventríloquo. Outro paternalismo adveio naconcepção de resgate. Historicamente pode ter se desdobrado da visão folclorista de “preservação” ou de “recuperação” de identidades ou culturas em extinção ou perigo. 

Mas quando nós falamos de nós para nós e também para os outros, o que vamos dizer?
Vamos agradecer por poder frequentar com aventais e uniformes enlameados os salões da nobreza literária ou vamos aproveitar para sabotar as colunas da dominação cultural? Vamos olhar para o chão e pedir desculpas pelos africanismos e palavrões, gírias e impropérios, grunhidos e corrupções das palavras sãs, ou vamos vociferar orações mal coordenadas tentando agradar os senhores das palavras e letras impressas?
A mim soa bastante estranho o desconhecimento ou aparente ausência de reconhecimento dos literatos marginais e periféricos dos tratamentos dados a oralidade, sobretudo de matriz africana em obras de Luis Gama e depois um Solano Trindade, ou ainda da cultura oral sertaneja na obra de Guimarães Rosa. Não quero sugerir com isso que haja limite para essa nova sensibilidade e criatividade em expansão, ou que seja realizada uma simples transposição de formas orais para a escrita.



Uma questão que poderia ser formulada é: A literatura que se auto proclama periférica é continuidade ou ruptura com a literatura acadêmica brasileira, que consta nos manuais de Historia da Literatura?
Outra pergunta que se pode colocar é: Se entre as classes populares a alfabetização é efetivamente aquisição recente, em uma literatura feita por escritores vindos sobretudo das camadas mais baixas  da classe trabalhadora, qual o lugar da oralidade?  
Não penso que nós, criadores e intelectuais periféricos não estejamos capacitados para ler absorver a literatura elitista produzida e recolhida entre setores médios e burgueses privilegiada de brancos. Essa literatura nacional brasileira, selecionada pelo mercado cultural e disseminada pela maquina de ideologia estatal, que chamamos sistema escolar.
A que nós viemos afinal?
Viva Sacolinha, salve Allan da Rosa, leiamos todos eles e acrescentemos Esmeralda Ribeiro e Luis Gama. Parabens Sacolinha , Sergio Vaz, Cooperifa e Fábrica São Luis.


Dados extraídos da página do autor.



PUBLICAÇÕES

Obras individuais
- Graduado em Marginalidade (romance)
- 85 Letras e um Disparo (contos)
- Peripécias de Minha Infância (romance infanto-juvenil) - Prelo
- Estação Terminal (romance) – Prelo
- O Homem que não mexia com a natureza (romance ecológico) - Prelo

Antologias
- Cadernos Negros vol. 28, 29, 30, 31 (Poemas e contos)
- Cadernos Negros – Três décadas (especial 30 anos)
- “ARTEZ” vol. V - Meireles editorial.
- “No limite da palavra”; editora Scortecci.
- “O Rastilho da Pólvora” do Projeto Cooperifa, (Cooperativa Cultural da Periferia).
- Novos Talentos da Literatura Brasileira
- Literatura no Brasil
- Amor Lúbrico – Textos para serem lidos na cama
- Racismo: São Paulo Fala

Revistas
- Caros amigos "especial" ato III.
- Revista “Trajetória Literária” nº 1, 2, 3 e 4
- Revista Palmares – Cultura Afro-Brasileira nº 2
- Revista GRAP – Grafite e poesia
- Revista Catarse – Publicação do grupo de teatro “Neura"
- Revista Não Funciona nº 18

Teatro
- Pacífico Homem Bomba
- Toque de recolher

Vídeo
- Vídeo-documentário do Projeto Cultural Literatura no Brasil.
- Vídeo-documentário Literatura no Brasil II.

PRÊMIOS

- III Mostra de Talentos – Escola Oswaldo de Artes
- Universidade Mogi das Cruzes – Melhor interpretação e Melhor poesia
- Prêmio Cooperifa 1, 2, 3 e 4
- Prêmio Davi Capistrano – Cidade de Bauru

ENTREVISTAS

Rádio
- CBN – Programa Revista CBN
- Band News
- Rádio Globo
- Rádio ABC
- Rádio Metropolitana
- Rádio DS FM

TV
- TV Diário (junho – 2007)
- Metrópolis – TV Cultura (agosto – 2007)
- Programa do Jô - Rede Globo de Televisão (outubro – 2007)
- Programa Manos & Minas – TV Cultura (agosto – 2008)
- Programa Provocações - TV Cultura (janeiro - 2009)

Revista
- Época
- Vida Simples

Jornais
- Diário de Suzano
- Diário de Mogi
- Mogi News
- Diário do Alto Tietê
- Folha de São Paulo
- Jornal da Tarde
- Estado de São Paulo
- Diário de São Paulo

LUGARES DE VIDA E VIAGEM

- São Paulo
- Suzano
- Rio de Janeiro
- Minas Gerais
- Rio Grande do Sul

Contato: (11) 8325-2368
Fone: (11) 4749-7556
Fax: 4759-2304
E-mail:
sacolagraduado@gmail.com
Blog: www.sacolagraduado.blogspot.com