SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. por dez anos foi Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico, Dramaturgo, Ator e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artísticos e de pesquisa sobre musicalidades e teatralidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diáspora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI. Elenco de Gota D'Água Preta 2019, Criador de Agosto na cidade murada.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quem lê enxerga mais longe?


Lê quem enxerga mais longe.
 
"Quem lê enxerga melhor".  Povo lindo, povo inteligente. Refrão de auto estima periférica.  Encontros literários mensais comandados pelo poeta Sergio Vaz da Cooperifa, na Fábrica de Cultura do Jardim São Luis, Jardim São Luis, Zona Sul de São Paulo Capital.
Dia 17 de Julho, convidado escritor Sacolinha Ademiro,
“A escrita me salvou”. Chama a atenção esse miolo de um argumento recorrente de alguns escritores periféricos. Ouvi isso ontem algumas vezes da boca do escritor Sacolinha. A literatura que salva, já havia me chamado a atenção antes, mas agora fez ascender uma luzinha colorida em minha cabeça. 
Sediados em São Paulo,  ele, ao lado de Sergio Vaz (http://colecionadordepedras2.blogspot.com.br/), organizador do evento, Ferrez e Allan da Rosa fazem parte do núcleo masculino de maior visibilidade da produção literária emergente no Brasil. Ambos têm presença marcante no fenômeno cultural dos Saraus, que agora começam a pipocar em todo país. São altamente produtivos e com grande capacidade comunicativa, são muito mais que escritores tradicionais. São performadores (performers). Por duas horas vimos,  ouvimos e nos deliciamos com as historias e lutas de Sacolinha para  sobreviver as agruras de um moleque preto e pobre.  Para nem só sobreviver, mas para fazer-se escritor. Evento descontraído e um público feito principalmente de alunos e professores da rede pública da região do cemitério do Jardim São Luis. Essa é uma vitória nossa, semear poema ao lado de milhares de corpos de jovens mortos pela ROTA, pelos pés de pato e pela violência me geral.


 
Aí está o trunfo do projeto, da própria Cooperifa e talvez dos Saraus. Formar um público leitor onde, até bem pouco tempo, reinava a baixa escolarização e em suma a exclusão educacional. Vaz conduz a conversa e a entremeia com poemas seus e estímulos a participação da plateia. Os dois já são velhos parceiros seus caminhos se cruzaram nos ventos literários que se foram abrindo da beira para centro. Até que chegassem as casas publicadoras de grande circulação.    
Esse evento vai se configurando como um novo marco e vem representado em um formato diferente dos saraus, onde predomina uma atividade mais horizontal e coletiva ou talvez de verticalidade diluída.  Aqui tem algo de talk show televisivo e pelo visto funciona muito bem. Um pequeno palco, luzes, som, picape e DJ completam o cenário ao fundo , para no primeiro plano figurar Sergio Vaz e seu convidado. Imita e inventa, reinventa e subverte, tv ao vivo. 
Ao invés de consumo de valores, ideias e artes, produção e criação do lado de cá da ponte.  Ambos cumprem a mesma função de divulgação e legitimação da cultura literária produzida por pessoas de origem popular e periférica  e que encontram ou forjam na escrita e leitura uma nova sensibilidade urbana. Essa nova sensibilidade dos excluídos da cultura escolar não tem tradução fácil e nem pode ser catalogada com o simples termo “periférica”, porque olhada de perto tem muita complexidade, tonalidades, cores, rituais e símbolos que escapam as etiquetas do mercado literário convencional e das análises acadêmicas mais afoitas.

Minha perspectiva é daquele que está dentro e ligado. Isso pela minha origem africana e condição social rebaixada pela dominação racial. Embora escolarizado, sigo mantido e me mantenho à margem do mundo acadêmico branco e tradicional. Vou travando ao lado dos meus companheiros e companheiras de sonhos uma guerrilha cotidiana de assalto ao castelo universitário e Cultural. Mas como outros tantos Sacolinhas sou negromestiço criado sob o fio da navalha e correndo de pipoco em ziguezague.
O fato de ter completado a formação escolar, indo do ensino fundamental ao superior, por vezes causa estranhamento no meu meio social, por vezes sou visto como um alienígena e, tratado ou com desdém tolo e outras vezes com a reverência com a qual se trata os políticos profissionais.   
 


Tido e havido como impuro e híbrido, não sou santo  e nem casto, não sou gênio e nem tolo.  Estamos juntos, mas nem por isso misturados, a cidade é cindida, seus mandantes são cínicos, a sociedade bem bipartida e nem as ruas são compartilhadas. Quando ando nos arredores dos Jardins e vejo um grupo de policiais em cada esquina, sei que não estão ali pra me proteger, mas para proteger a cidade contra mim.  tal como Sacolinha, por mais que escreve, jamais consigo traduzir fielmente este sentimento.
Sobre a literatura dita periférica minha adesão é total, mas é também totalmente crítica, é fraterna e soma, mas não coaduna com paternalismo vigente e nem com complacência estética. Voltemos ao Sacolinha e tensão entre escrita e oralidade.
Também me chamou a atenção uma aparente preocupação de Sacolinha em apresentar suas referencias literárias, nesse caso suas ênfases recaíram em Jose Saramago e Graciliano Ramos. Mas também fez breve comentários sobre sua questão de ler os “clássicos”. Nesse sentido preocupa-me certa displicência localizável em algumas narrativas autobiográficas que fazem uma distinção hierárquica um tanto ingênua e radical entre escrita e oralidade, jogando a segunda praticamente no lixo ou tentando apagar as marcas de oralidade em suas escrituras. Com qual objetivo?
Não pretendo fazer a crítica do trabalho do Sacolinha Graduado, porque não tenho em mim a leitura de toda sua obra e que deve ter sua produção respeitada, consumida, comungada. Mas também como obra pública pode ser lida, discutida e interpretada como uma quebra da hegemonia cultural das elites sobre essa tecnologia, tão cara a modernidade. A sua criação, no bojo do movimento literário “periférico”, já merece nosso apoio, cuidados e zelos, pelo simples fato de nascer e se ramificar fora dos circuitos livreiros de elite. Mas isso basta? Creio que não.
Pela narrativa de Sacolinha sou levado a crer que A literatura escrita salva. Posto que o mundo cultural da oralidade significa um universo caótico e pecaminoso? Nessa caso a literatura é uma espécie de revelação e somente ao acessá-la eu subo ao andar dos escolhidos? O discurso religioso e especialmente neopentencostal está muito perto de nós, entra no nosso repertório através dos parentes  e amigos recém conversos. Ele vem pelo radio , TV, e cinema e entra pelos poros. ( Haja vista gama à cada dia aumentada de filmes católicos e kardecistas, veiculados nas redes de Tvs e cinema comercial, muitos dos quais obtiveram ótimas bilheterias).
Nosso imaginário esta repleto de alusão a salvação e revelação de escrituras. A catolicismo é de certa forma aqui religião de estado e a bancada evangélica tem grande peso e força no congresso nacional. O proselitismo cristão, com a sua miríade de orientação atravessa toda cultura e de forma naturalizada é assimilado em todas as instituições públicas e privadas. Conquanto a constituição de 1988, formalmente garanta a condição laica do estado.

A inspiração advinda das representações cristãs se entoa na narrativa autobiográfica de Sacolinha por conta disso, ou sua pretensa Assumpção é de natureza outra? Social ou intelectual por exemplo? Sacolinha através da leitura e da projeção advinda da escrita literária  passa a compor um grupo de eleitos periféricos, que emergiram dos caos da cultura oral para compreensão da cultura escrita? Qual o lugar das gírias e das dinâmicas da língua viva, marcadamente afroindígena falada nas ruas, mocambos e quebradas, nessa forma de expressão artística impressa, chamada Literatura Periférica?
Um certo paternalismo cultural e político nasceu com a idéia de “dar voz aos excluídos”, uma espécie de síndrome de ventríloquo. Outro paternalismo adveio naconcepção de resgate. Historicamente pode ter se desdobrado da visão folclorista de “preservação” ou de “recuperação” de identidades ou culturas em extinção ou perigo. 

Mas quando nós falamos de nós para nós e também para os outros, o que vamos dizer?
Vamos agradecer por poder frequentar com aventais e uniformes enlameados os salões da nobreza literária ou vamos aproveitar para sabotar as colunas da dominação cultural? Vamos olhar para o chão e pedir desculpas pelos africanismos e palavrões, gírias e impropérios, grunhidos e corrupções das palavras sãs, ou vamos vociferar orações mal coordenadas tentando agradar os senhores das palavras e letras impressas?
A mim soa bastante estranho o desconhecimento ou aparente ausência de reconhecimento dos literatos marginais e periféricos dos tratamentos dados a oralidade, sobretudo de matriz africana em obras de Luis Gama e depois um Solano Trindade, ou ainda da cultura oral sertaneja na obra de Guimarães Rosa. Não quero sugerir com isso que haja limite para essa nova sensibilidade e criatividade em expansão, ou que seja realizada uma simples transposição de formas orais para a escrita.



Uma questão que poderia ser formulada é: A literatura que se auto proclama periférica é continuidade ou ruptura com a literatura acadêmica brasileira, que consta nos manuais de Historia da Literatura?
Outra pergunta que se pode colocar é: Se entre as classes populares a alfabetização é efetivamente aquisição recente, em uma literatura feita por escritores vindos sobretudo das camadas mais baixas  da classe trabalhadora, qual o lugar da oralidade?  
Não penso que nós, criadores e intelectuais periféricos não estejamos capacitados para ler absorver a literatura elitista produzida e recolhida entre setores médios e burgueses privilegiada de brancos. Essa literatura nacional brasileira, selecionada pelo mercado cultural e disseminada pela maquina de ideologia estatal, que chamamos sistema escolar.
A que nós viemos afinal?
Viva Sacolinha, salve Allan da Rosa, leiamos todos eles e acrescentemos Esmeralda Ribeiro e Luis Gama. Parabens Sacolinha , Sergio Vaz, Cooperifa e Fábrica São Luis.


Dados extraídos da página do autor.



PUBLICAÇÕES

Obras individuais
- Graduado em Marginalidade (romance)
- 85 Letras e um Disparo (contos)
- Peripécias de Minha Infância (romance infanto-juvenil) - Prelo
- Estação Terminal (romance) – Prelo
- O Homem que não mexia com a natureza (romance ecológico) - Prelo

Antologias
- Cadernos Negros vol. 28, 29, 30, 31 (Poemas e contos)
- Cadernos Negros – Três décadas (especial 30 anos)
- “ARTEZ” vol. V - Meireles editorial.
- “No limite da palavra”; editora Scortecci.
- “O Rastilho da Pólvora” do Projeto Cooperifa, (Cooperativa Cultural da Periferia).
- Novos Talentos da Literatura Brasileira
- Literatura no Brasil
- Amor Lúbrico – Textos para serem lidos na cama
- Racismo: São Paulo Fala

Revistas
- Caros amigos "especial" ato III.
- Revista “Trajetória Literária” nº 1, 2, 3 e 4
- Revista Palmares – Cultura Afro-Brasileira nº 2
- Revista GRAP – Grafite e poesia
- Revista Catarse – Publicação do grupo de teatro “Neura"
- Revista Não Funciona nº 18

Teatro
- Pacífico Homem Bomba
- Toque de recolher

Vídeo
- Vídeo-documentário do Projeto Cultural Literatura no Brasil.
- Vídeo-documentário Literatura no Brasil II.

PRÊMIOS

- III Mostra de Talentos – Escola Oswaldo de Artes
- Universidade Mogi das Cruzes – Melhor interpretação e Melhor poesia
- Prêmio Cooperifa 1, 2, 3 e 4
- Prêmio Davi Capistrano – Cidade de Bauru

ENTREVISTAS

Rádio
- CBN – Programa Revista CBN
- Band News
- Rádio Globo
- Rádio ABC
- Rádio Metropolitana
- Rádio DS FM

TV
- TV Diário (junho – 2007)
- Metrópolis – TV Cultura (agosto – 2007)
- Programa do Jô - Rede Globo de Televisão (outubro – 2007)
- Programa Manos & Minas – TV Cultura (agosto – 2008)
- Programa Provocações - TV Cultura (janeiro - 2009)

Revista
- Época
- Vida Simples

Jornais
- Diário de Suzano
- Diário de Mogi
- Mogi News
- Diário do Alto Tietê
- Folha de São Paulo
- Jornal da Tarde
- Estado de São Paulo
- Diário de São Paulo

LUGARES DE VIDA E VIAGEM

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segunda-feira, 2 de junho de 2014

As infâncias que Sheila Signatário mira e aquilo que nos faz ver.

As infâncias que Sheila Signatário mira e aquilo que nos faz ver.



Que crianças a cidade cria? Depende do quadrante geográfico, depende da lente utilizada, depende do viés ideológico, depende dos interesses em disputa. Por vezes os psicólogos educacionais trabalham com uma imagem de criança universal, que nega veemente a nossa concreta existência e de outros que tenham a mesma origem social e étnica que nós.  Talvez o único local onde as imagens das crianças possam corresponder a alguma realidade concreta é na produção visual marginal. Quero dizer talvez seja possível encontrar infâncias não estereotipadas nos discursos visuais periféricos sobre a cidade.



Sheila Signatário inverte a lente costumeiramente utilizada para produzir estranhamento e estigma e volta de dentro para fora. Não se trata de mostrar crianças negras-mestiças, periféricas ou pobres com um prato na mão, esperando a ação salvadora governamental ou das Ongs. Signatário então propõem um olhar quase casual sobre a preferia da cidade de São Paulo. Estamos bem espertos sobre a ideia de que a imagem reproduz o real em sua totalidade e de forma objetiva, sem macula subjetiva, interpretativa ou pessoal. Já sabemos que todo recorte imagético é marcado também pela escolha subjetiva da autoria. Por outro lado somos obrigados a reconhecer nessas escolhas o aspecto inventivo, estético e politicamente insubmisso das artes.




Esse olhar de dentro não parece querer se passar por uma visão da própria infância, mas antes de uma delicadeza da vida de seres humanos em um estágio dela em que quase tudo é promessa, potencia e vir a ser. Não que infância seja sempre um ponto inicial de uma longa trajetória, ( sabemos muito da mortalidade epidêmica dos jovens pretos  e pobres), mas a vida é vida em qualquer ponto do trajeto existencial. Algo difícil de ser percebido pela medicina privada ou pública, por exemplo. A infância em retrato traz para e cena, o valor da vida em si mesma, mas recorta um ponto da biotrajetória.


Signatário inventa com outros fotógrafos um discurso visual novo e inovador, que entra em rota de colisão com as perspectivas visualmente hegemônicas sobre as margens da cidade. A apreensão e uso da tecnologia digital, barateia e torna relativamente acessível o registro ao jovens periféricos. Essa abordagem que extrapola a condição inicial da maquina digital, utilizada para casamentos e outros eventos cotidianos, talvez tenha ver com uma luta cultural, ainda mal estudada e compreendida, mas que se manifesta em vários campos das linguagens artísticas, da criação, produção e circulação de bens culturais na cidade .


Luz e sombra diurnas, movimentos multicores tendo ao fundo paisagens humanas devastadas pelas desigualdades e pela violência cotidiana, contrastam com risos, jogos, brincadeiras e olhares por futuro.  Quem olha é Signatário, mas ela enxerga por uma fresta no tempo da existência, pela qual nos todos passamos, sobrevivemos e ainda construímos utopias.

Quando olhamos as imagens de Sheila, por alguns segundos, podemos nos projetar nelas e nas (im)possibilidades que foram sendo colocadas em nossos caminho ao longo da existência e as quais tivemos que superar para ter direito a contar nossa própria versão sobre essa cidade e esse mundo. 



     

Salloma Sallomão.      

              

terça-feira, 29 de abril de 2014

Arcaico Engenho de bananas e balas.

"Entre as bananas e balas, digo chacinas patrocinadas pelo estado, para que tenhamos mais bananas, mais chicanas e menos cidadania. Neymar posa com bananas e a maldição de cã, criança salva, cria lava. alva e vera. Só se volta para o espelho quando apaga a luz dos estádios. E quando se apaga a luz da consciência negra?. A luz dos estádios ofusca os olhos, não ilumina sequer os mais retintos, nem Pelé, alcança o gesto, só sinceramente chorou quando seu menino foi encarcerado. Pobre garoto negro rico de paternidade tola. De resto ele Pelé é péssimo ator, nem diante de Dondinho quando não havia o circo do futebol. Negros eram negros e os meninos negros eram pelés, eu tambem era, eu sabia ser negro e meu ídolo e de milhões não. Ele fez Pedro Mico, eu não, não pago para ser mico leão de ninguém, nem dos brancos que eu mais amo. Só vejo nórdicos de verdade pelo cinema, conheço bem os brancos feirantes. Nem Pelle, nem memória da Noruega insana. Esqueça os corpos dos meninos negromestiços na viela mesmo, os abutres virão buscá-los amanhã. Esqueça-os em uma canto da tela, num canto da cela, num canto da vala, da grande vala que chamamos país. Mas por favor ascendam todas as luzes do estádio, do grande estádio-nação, que o espeto humano, espetáculo mais desumano já faz tempo que começou e pelo visto, tão cedo não acabará. Só Legbara para nos salvar." Salloma Jovino Salomão Palavras belas de uma triste realidade.
http://revolution-news.com/cops-on-killing-spree-in-copacabana/

Arcaico engenho Moderno ( 1980)
" Se descem do morro favelas
É da casa grande a senzala
Que povos mendigos, Portelas
Se a porta se fecha, se cala
E sangue escorre terra afora
No páteo balança bandeira da opressão
No ontem , amanhã e agora.
Os cães e capitães do mato, de dia vigiam os lotes,
De noite saqueiam os pobres
E os grandes recolhem os cobres.
Traçando sinas e sortes
Quem deve descer ou que sobe
A quem cabe a vida ou morte
Tratados , heranças e dotes."
AM- 0013- 02.934.981/0001-70

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CIRCONOVESSSÊNCIA


CIRCONOVESSSÊNCIA

Mitologia pessoal e arqueologia dos afetos plantados na metrópole. Ou O Presente do passado.

Por Salloma Salomão
Na primeira metade dos anos 1980, ainda em clima de abertura política e várias incertezas sobre o futuro do país, jovens da zona sul de São Paulo encontravam nas atividades culturais desenvolvidas nas escolas públicas, bares e igrejas, os únicos abrigos e canais de veiculação das suas artes e também de suas ansiedades e sonhos. Os festivais música, poesia e teatro eram organizados por grupos informais, centros cívicos e grêmios estudantis e realizados nas escolas privadas como Colégios Objetivo, Radial e Santa Inês como públicas Alberto Conte em Santo Amaro Osvaldo Aranha e Enio Vos no Brooklin e na região da Capela do Socorro nos colégios estaduais Dom Duarte, Vieira de Moraes e Salote.

As paróquias católicas mais ativas política culturalmente eram coordenadas por Padres orientados pela teologia da libertação como Pegoraro, Luis e Lourival Gatão na região de Capela do Socorro e Grajaú e outros ainda nas regiões de Campo Limpo, Vila Santa Catarina e Jardim Ângela e Vila Remo. Essas igrejas e mais tarde as praças públicas (sobretudo Largo do Campo Limpo, Praça da vila São José e Praça Floriano Peixoto serviam para encontros, ensaios, pesquisas e apresentações cênicas, musicais e artísticas em geral.

Foi justamente nesse ambiente que surgiu a banda denominada Circo Novessência, inicialmente formada por Salloma, Luiz Rosa, Ney Capenga, Marco Boca, Marlene Miranda, Edu Schultz e Satranga de Lima. Com esse formato participaram dos festivais de Americana-SP, Itapecerica-SP e nas escolas da região e conceberam uma estética que pretendia romper as barreiras existentes entre teatro, literatura, música e a dança. 

De alguma forma todos partilham um mesmo sentimento onde o medo da repressão e o sonho da liberdade lançado no horizonte se misturavam. Rashinish (Osho) espalhava seus monges vermelhos pelas capitais, enquanto a Liberdade e Luta captava os meninos para suas hostes. individualismo e democracia possível se misturavam com a Rota nas vielas e os pés de pato (matadores de aluguel) agiam livremente nas quebradas. Havia também um largo consumo de cigarros e outras substancias, principalmente as canabis vinda do nordeste e ou das latas achadas na praia. Todo esse clima figurava ao lado do início da teceirização e automação, da inflação e custo de vida altíssimo e uma terrível falta de emprego.

Os temas das canções variavam da política à filosofia, da cultura negra e ao espiritualismo, enquanto as melodias e harmonias deixavam escapar influências de Milton
Nascimento e dos arranjadores do Clube da Esquina. Os arranjos flertavam com o jazz-rock do Jetro Tull e astros da chamada MPB, sobretudo Ney Matogrosso e o extinto Secos e Molhados. Tambores, violas, contrabaixos, guitarras e flautas timbravam para os desenhos vocais que ansiavam recriar contrapontos dos grupos vocais em ascensão, a exemplo do Boca Livre.

Mais tarde vieram as contribuições de Antonio Braga, Maga Lieri, Jones Cabral, Matias, Geni Isidoro e Akira S.. Com este time percorreram a grande São Paulo realizando apresentações em bibliotecas, escolas, igrejas, associações de bairros e centros culturais. A vida seguiu seu indecifrável curso, uns migraram para longe do país, outros para outros estados, uns mergulhados nas lutas cotidianas, outros subsumidos em combates com seus medos e fantasmas próprios, mas todos percorrendo os misteriosos caminhos da existência artística no mundo.
Passadas três décadas, desse período efervescente restaram muito mais que algumas fotografias esmaecidas pelo tempo, sobretudo os vínculos de afetos que as contradições humanas e nem o tempo não foram capazes de esgarçar ou romper. Há também umas duas dezenas de canções que marcaram profundamente as vidas daqueles jovens e do público que teve e oportunidade de assistir suas performances memoráveis.

As tecnologias de comunicação e produção contemporâneas emergem como espaço de confluência e encontro, assim possibilitando a conexão e objetivação entre os desejos que ainda pulsam. Este projeto visa recuperar parte do repertório poético-musical do Circo Novessência, com a participação física ou virtual de pessoas que estavam presentes na cena da primeira e da sua segunda formação, assim como dos descendentes daqueles e outros colaboradores. Essa arqueologia musical nada tem de saudosismo, melancolia, ou ainda de apego a um passado irretocável. Antes, vem da certeza de que toda produção cultural e criatividade contemporânea somente é possível em virtude desse passado recente e da experiência cultural acumulada, ainda que perifericamente, pelos agentes e protagonistas de várias tribos, inclusive do Circonevessência.

A realização dependerá do apoio de dezenas de pessoas, a concepção e produção do Cd é de Salloma Salomão, os arranjos de Luiz Rosa e a seleção musical e documentação de Daniel Fagundes. Trata-se de uma ação cultural independente, seu resultado será fruto da vontade coletiva, mas poderá contar apoio institucional, na medida da disponibilidade, mas não como pré-requisito. Aliás, o pré-requisito essencial, tal como no passado, ainda é a vontade humana. Salienta-se que uma eventual captação de recursos via editais, poderá viabilizar reuniões dos parceiros, apresentações de lançamentos e produção de um livro e documentário em DVD sobre o processo.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Cristianismo africano na antiguidade e influências coptas no rastafarianismo.

Cristianismo africano na antiguidade e influências coptas no rastafarianismo.
Professor “Salloma” Salomao Jovino da Silva (FSA) SP, Brasil.

Plano de estudo, para elaborar uma visão de contexto da África do Nordeste na Antiguidade, como sendo o território do cristianismo africano:
 1-Construir uma introdução com base na experiência cultural e musicalidades negras urbanas contemporânea e do reggae como mensageiro de Axum; 2- Reler Escritos de M’Bokolo, Ki-Zerbo, História Geral da África Negra, Sheik Anta Diop; Rever- Velho e Novo Testamentos e Escritos de Allain Corbain  e outros historiadores do cristianismo; 3-Rever e fichar textos e biografias dos criadores do pensamento Pan-africanista.

Um vídeo circula que na internet mostra sacerdotes coptas dirigindo o ritual do funeral de Bob Marley (www.youtube.com/watch?v=1rJr3IlTYBg). Alunos meus ligados em música Reggae, por vezes me abordam com perguntas complexas sobre Marcus Garvey,  ligações entre os Maroons e a cultura Rastafari, também sobre a viagem de Sellassie a Jamaica. Vez por outra também me indagam  sobre as caraterísticas da  Igreja Copta, a história da arca no Lago Tana, a História dos falachas e muito mais. Questões que tenho demonstrado grandes dificuldades de responder a contento. 
Convivi e convivo com “Rastas” paulistas, baianos e cariocas que adotaram preceitos da cultura popular jamaicana sob o estímulo musical do Reggae. Mas, nem sempre, a imagem “rasta” se traduz imediatamente em adesão a ganja, ao vegetarianismo, a vida frugal, ao anticonsumismo e os tantos princípios filosóficos e contraculturais que caracterizam o rastafarianismo como uma das religiosidades negras da diáspora negra.
Desde anos 1980 observo que em São Paulo e em todo país de 2000 para cá, talvez e, ocasionalmente jovens não negros adotam visual “rasta”, sem com isso demonstrarem ter necessariamente qualquer ligação direta com o reggae ou com a cultura Rastafari. Alguns, por motivos que desconheço, mas aceito sugestões de Kubik (2012) e Bauman (2000) sobre identidades voláteis, evoluem para uma identificação transracial, policultural e neohumanista bem interessante com culturas negras.  Particularmente tendo considerar que, ao menos nível da superfície, esse fenômeno é um desdobramento da mundialização da moda. Uma vez esgotando o repertório visual do ocidente a indústria de vestimenta juvenil vai buscar inspiração em “culturas exóticas”. Isso não é bom nem mal em si mesmo,  é a onda e nada mais. Mas, se a moda diz muito da sociedade contemporânea porque não olhá-la também com olhos de intensa curiosidade?
O gênero musical reggae foi  mundializado, sobretudo, pela performance estética e musical dos Wailers, sob a regência principal de Peter Tosh e Bob Marley, mas é muito mais que canções para embalar surfistas profissionais arianos queimados de sol. Não se pode desconsiderar que tal gênero foi inserido na indústria do disco e do entretenimento globais, desde finais dos anos 1970. Entretanto reduzi-lo apenas a isto é desconsiderar por completo a dinâmica daquilo que tem sido chamado, grosso modo, de contracultura negra , ou de cultura negrodiaspórica contemporânea .
Quando apresento em aula as imagens de grandes pesquisadores negros jamaicanos como Stuart Hall e Paul Gilroy e, brasileiros como o antropólogo paulista Carlos Rodrigues (Carlão do Maranhão) e da socióloga Gevanilda Santos, meus alunos demonstram surpresa por sua aparência com dread-locks. As tranças (“típicas” jamaicanas) masculinas e femininas além de fazerem parte de um visual negro utilizado como forma de afirmação identitária, dos anos 1970 em diante se constituíram uma referência simbólica, nem sempre direta e obvia à contracultura e ao que Gilroy chamaria da Modernidade dissidente, ou modernidade negra.
Ao buscar informações especificas sobre o cristianismo africano do Egito, Etiópia e Sudão na antiguidade e sobre a liturgia copta na atualidade, tenho me decepcionado com a quase total ausência de materiais bibliográficos, não somente em língua portuguesa. A constatação obvia é que o mercado editorial brasileiro e mundial continua sendo marcado por um eurocentrismo doentio. Se devido a pressão  atual exercida por um setor da classe média negra escolarizada, passou a se editar no Brasil, temas sobre a África genérica, contudo, estes temas a inda não incidem sobre a região nordeste, ou seja  a costa leste africana banhada pelo Mar Vermelho. (Segundo informação do pesquisador Rafael Galante, exceto os materiais didáticos do Ensino fundamental do Estado do Paraná, encontra-se alguma ênfase ao império de Axum).
Diante disso há não outra maneira, senão recorrer às fontes bibliográficas, nem sempre confiáveis, disponíveis na rede web: sites oficiais de embaixadas, blog de turismo étnico e blogs de estudiosos não acadêmicos. Restam ainda os bancos de teses de universidades europeias e estadunidenses, agora disponíveis, mas onde este tema também é parco, além de tudo sou capiau e periférico com pouco acesso, ou malversado na língua de outros colonizadores, que não os portugueses. Diante disso também lancei mãos as publicações em língua portuguesa sobre História global da África na antiguidade, em especial a Coleção da Unesco recentemente republicada no Brasil, História  Geral da África e autores como Joseph Kizerbo, John Reader, Jonh Illife, Cheik Anta Diop e Elikia M’Bokolo,etc. Por fim recorri também a literatura teológica e de História das religiões em especial história do Cristianismo e da expansão do Islamismo, para deduzir dai informações sobre as barreiras a penetração do islã e conflitos religiosos decorrentes disso, nas margens oeste do Mar Vermelho a altura do século IX.
Este texto tem natureza didática e esse é também seu principal objetivo, ou seja, um esforço em apresentar uma abordagem inicial sobre a formação e permanência de filosofias religiosas cristãs mantidas em comunidades do nordeste na África entre os séculos II e XVI e, no limite, tentar entender o lugar da religiosidade copta na formação do rastafarianismo. Portanto não tenho certeza se chegarei a aqui, a refletir sobre as influências etíopes na cultura jamaicana, nem sobre a difusão mundial do rastafarianismo, ou mesmo sobre a trajetória e concepções sobre emancipação negroafricana de Marcus Garvey.
Esta interpretação é demarcada por minha experiência frente a formação familiar onde um cristianismo protestante pouco ortodoxo, conviveu com religiosidade tradicionais da mátria africana, leituras esotéricas de bolso e uma série de textos da contracultura como Gurdjieff, Carlos Castañeda e Herman Hesse. Quero dizer, meu imaginário religioso, antes do contato com o anticlericalismo e o materialismo histórico foi bastante inundado por tais referências.
Meu interesse é político e intelectual, além de aprender e ensinar história de frente para ao Atlântico, também recai na intenção de diálogo crítico com as forças políticas, midiáticas e econômicas fundamentalistas cristãs, de orientação neopentecostal emergentes no Brasil. Ao evidenciar a constituição primeira de um cristianismo múltiplo e africano, antes daquele disseminado na expansão ocidental, espero lançar ácido corrosivo nos preconceitos tolos e convenções esgarçadas, mas duradouras, sobre pertinência das guerras santas e intolerâncias renovadas contra as religiosidade negras não cristã. 
Além desses fatos recentes mencionados, quais a relações tem tido os negros brasileiros com a África oriental norte, acima do chifre, ou as margem do Nilo e do Mar Vermelho? Essas relações são simbólicas e algumas poucas vezes diplomáticas, outras vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Um exemplo disso tem a ver com a memória com um evento cultural e político ocorrido do outro lado Atlântico, no ano de 1966, e que conto a seguir.
Entre as memórias da cantora Clementina consta que participava do Festival de Artes e Culturas Negras em Dacar, capital do Senegal, onde, a convite da diplomacia brasileira, deveria representar ao acento africano da nossa “música popular”. Em um almoço oficial, mas, descontraído, Clementina foi abordada em língua estrangeira, por um cidadão muito elegante, segundo ela mesma. Diante da dificuldade da comunicação linguística e como tocava uma boa música ao fundo, a grande dama da música negra brasileira, tirou o homem para uma dança. A comitiva brasileira toda se pôs de pé, avexada e provavelmente constrangida. Afinal seu par era nada menos que um dos homens mais influentes na política internacional do continente africano, ao menos aquela altura, chamava-se Haile Selassie, e era o rei da Etiópia.
Esse encontro selava uma reaproximação simbólica de uma nova África resultada da dispersão sistemática de africanos pelo mundo desde o século XV e uma África histórica e profunda, para a qual a Etiópia contemporânea podia muito bem  representar, uma espécie de elo perdido com a as primeiras formações estatais do continente.
Essas aproximações simbólicas atravessaram toda segunda metade do século XIX, quando cordões carnavalescos baianos e protoafoxés, levavam estandartes saudando o imperador Menelik II e suas façanhas militares contra invasores europeus. Foliões se autodenominavam súditos dos Negus, sinônimo de soberano, enquanto Menelik aparecia também em São Paulo como título de jornal da comunidade negra.
Esses simbolismos Africanos Cristinos poderiam ser levados a seu limite se, por exemplo, investigássemos a assimilação no Brasil do Culto de São Jorge, patrono da Etiópia Imperial. Ou se conhecêssemos os descaminhos percorridos pela mãe de Jorge Benjor, da Adis Abeba até o Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Não, não há registro, nem menção fiável de que africanos da parte norte da costa oriental tenham sido capturados pelos traficantes transatlânticos e remetidos aos portos brasileiros entre os séculos XVI e XIX. Mas, não seria de tudo estranho se surgisse algum indício de tal fato, no aprofundamento sobre as rotas ocidentais dos capturados nas costas índicas e nos portos do Mar Vermelho.
As conclusões mais imediatas é que, diferente do que querem fazer crer os intérpretes dogmáticos, em primeiro lugar, o cristianismo não constitui um bloco monolítico de crenças, filosofias, rituais e valores religiosos, que atravessa o tempo e espaço mantendo-se intacto, sendo sempre igual a si mesmo há 2.000 mil anos.
Em segundo lugar o cristianismo católico ibérico que foi enviado para costa ocidental da África e para o Brasil através de Portugal e para toda geografia da América Latina   via Espanha, quase nada tem a ver com o cristianismo africano da costa oriental, cujos preceitos fundamentais ainda podem ser observados em comunidades cristãs  de uma longa faixa de terras, banhadas pelo mar da Eritréia, onde hoje encontram-se países de maioria muçulmana, com exceção da Etiópia.
Que países hoje ocupam o espaço geográfico das antigas sociedades cristianizadas da África oriental e qual sua situação no contexto africano atual?
Estes países nominalmente são: Sudão e Sudão do Sul, Eritréia, Djbuti, Egito, Etiópia e Somalia.    Aguardem mais.                            


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