SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. por dez anos foi Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico, Dramaturgo, Ator e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artísticos e de pesquisa sobre musicalidades e teatralidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diáspora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI. Elenco de Gota D'Água Preta 2019, Criador de Agosto na cidade murada.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Diáspora Reversa

Musicalidades afro-atlânticas. Festa da Burrinha Brasil-Benin
Lançamento de livro em São Paulo




RESUMO:
A música pode ser concebida como: A arte de combinar sons de forma intencional. Os mais variados grupos humanos encontram diferentes formas de fazer isso e no tempo longo de humanização, o resultado foi uma grande diversidade de culturas musicais. Os africanos e seus descendentes influenciaram de forma decisiva a cultura musical mundializada no século XX. O objetivo do autor é apresentar os resultados parciais pesquisar da história cultural dos brasileiros (Agudás), descendentes de africanos remetidos ou retornados por vontade própria para o Golfo da Guiné, oeste da África no século XIX.  Recortando as musicalidades negras contemporâneas nos trânsitos África-Brasil-África toma como tema central a Festa da Burrinha em Ouidah no Benin e no estado da Bahia, no Brasil. O olhar incide sobre as culturas musicais, em função de uma perspectiva fundamentada no reconhecimento da centralidade dos saberes musicais nas sociedades  de tradição oral, especialmente entre as sociedades africanas e por extensão, os seus descendentes no “novo mundo”. Chama atenção para formação musical não eurocêntrica, como possibilidade de uma nova abordagem humanista da educação da juventude contemporânea brasileira.




As culturas musicais dos retornados, ou brasileiros da Costa atlântica africana. 
Salomão Jovino da Silva
Tempo: pulsação básica subjacente a musica, é unidade fundamental do compasso, representado em regência por movimento de mão ou batuta.                                                                                                                                                                                                                                                                          Dicionário Grove de Música
Continuidade, adaptações, cesuras: é na combinação destes processos que reside o movimento da História.                                                                                                                                     Elikia M’Bokolo  
É provável que hoje, no alvorecer do século XXI, uma escrita sonora da História da África e dos africanos na diáspora, já não tenha mais que primar pela desconstrução do etnocentrismo ocidental. Probabilidade nem sempre confirmada. Vamos pensar que de fato avançamos para uma nova mentalidade onde haja menos significância para a clássica oposição África–Europa, Europa-mundo. Pra aqueles que apostam na cisão radical, qualquer reconciliação parece ainda mais longe diante da configuração de novos imperialismos. A noção de História, agora ou irá para o lixo da civilização ou poderá ser vista como campo de conhecimentos múltiplos e descentrados. Nosso caso é feito da busca por um prisma ampliado, que resulte alargamento da concepção de humanismo, de forma que seja capaz de abarcar aqueles povos tidos, até recentemente, como os “Sem história”, entre os quais constavam as sociedades africanas e por extensão suas diásporas.
Paul Zumthor, um crítico brilhante do eurocentrismo em sua própria casa, atentou para relação entre musicalidade, oralidade e identidade, nas sociedades africanas, como já o fizera Hampatê Ba.[1] Zumthor foi primoroso ao apontar :
“É uma das características originais das civilizações ao sul do Saara a importância da percussão em seu funcionamento social e seu comportamento lingüístico. Mas os dundun, cyondo, mudimba, lunkuwu, nsambi, e outros tambores, com ou sem membrana, de todas as formas e talhes, anunciam a palavra verdadeira, exalam o sopro dos ancestrais. Uma tribo privada dos seus tambores perde a confiança em si mesma e desmorona.”[2]
Os tambores, conforme distingui Zumthor, têm sido suportes importantes nas elaborações musicais africanas, que não se restringem as estes instrumentos, porém a redução das culturas musicais africanas à materialidade dos tambores tem sido fruto uma visão limitada e, as vezes, até de boa vontade, mas equivocada e corriqueira.
O Brasil recebeu pessoas comercializadas pelos europeus de diversas etnias e sociedades estatais da África do oeste. Cada uma delas aqui trouxe suas concepções de mundo e seu labor intelectual e espiritual, tecnológico e prático. As culturas musicais africanas, embora em situação adversa, constituíram nas Américas um terreno fértil e prenhe de combinações estético-musicais, que não seria possível no continente, por razões de distâncias geográficas ou mesmo políticos.
Especialmente sapientes musicais da África do Oeste, vieram com tambores Ewes, Ioruba, Fon, Haussa, Fulani, Ashanti etc.  Música de culto e de festa, canções próprias do repertorio dos mestres Doma e dos cantores populares que os franceses chamaram griot de origem malinke, certamente circularam pelo norte e nordeste e foram ouvidas possivelmente nas Minas Gerais do século XVIII. Parece certo que um cordofone malinke esteve entre os materiais recolhidos no norte da colônia, entre Maranhão e Rio grande do norte, pela equipe de Alexandre Ferreira, mestre em História Natural da Universidade de Coimbra.
Folcloristas lusotropicais atribuíram créditos aos portugueses por melismas das melodias de vaqueiros negros, caraterística fixada nas canções rurais, mas transposta para o canto urbano ainda no século XIX.  Um repertório ainda pouco explorado de cantandores de feiras e ex-escravizados que circulavam por mercados regionais entre o norte da Bahia e o Ceará, fixados na memória popular e na literatura de cordel.  Agora já quase livre das hierarquias culturais construída pela submissão ao projeto cultural do ocidente, podemos traçar filiações com música litúrgica africana de influência árabe-islâmica trazidas da África do oeste. Mas aqui não temos esse objetivo. A ideias é contabilizar alguns argumentos ainda meio soltos sobre rotas musicais atlânticas do Brasil para o Benin desde o século XIX.                
Max Weber (1995) atribuiu significativa atenção a música da etnia Ewe, gravada por Erich Moritz von Hornnbostel, pioneiro nas fonogravações etnomusicológicas na Europa, quando diretor do famoso Berlin Phonogramm- Archiv. Em “Fundamentos racionais da música” escrita por volta de 1895, procura sistematizar uma reflexão sobre uma teoria geral, para aquilo que viria ser denominada Sociologia da música. Entendendo o fenômeno da fonogravação, tecnologia disseminada naqueles anos, foi um dos primeiros intelectuais a se interessar por formular uma base teórica para a abordagem da música como fato sonoro, cultural e social. A etnomusicologia ainda hoje busca um lugar de respeito no universo dos conhecimentos acadêmicos. Quem for a Weber sem prévio aviso corre o risco de ver lá os africanos como músicos fosseis, inferiores culturais da grande música racional e civilizada do ocidente branco.
Imagem 1 festa do VODUN  em PORTO Novo. By Chakirou Adechian  2016. Músicos jovens de sexo masculino tocam para um grupo feminino performar. Etnia Fon.
No Brasil nesse mesmo período Manuel Querino atribuía a música um papel relevante nos estudos sobre os “colonos africanos”. Coligia, registrava e analisava canções e habilidades instrumentais entre comunidades africano-brasileiras da Bahia. Quase simultaneamente as canções Gospels, Works Songs e Spirituals também mobilizavam ouvidos e sensibilidades de Edward Dubois nos Estados Unidos da América. Brasil, Alemanha e Estados Unidos da América, o que haverá por detrás dessas sugestivas  sincronias, embora antagônicas e dispersas em espacialidades e contexto culturais e políticos tão dispares? Creio que liga seja feita das relações entre música e identidade. Ou ainda Musicalidades e Etnicidade.             
Deixando Weber um pouco de lado, explico. Aos africanos escravizados tornou-se cada vez mais difícil no transcurso do tempo e do espaço, ao longo empresa escravista, manter suas culturas musicais originárias. Viviam sob o silêncio imposto aos seus cantos, tambores, cordas, xilofones e também aos seus idiomas falados. Em alguns casos a música vocal tornou-se um repositório de conhecimentos musicais seculares, em outros a substituição de tambores foi inevitável e seguido de outras estratégias. As musicalidades negras no Brasil e no EUA ocupam lugares antitéticos nesse sentido. Lá os tambores praticamente desapareceram, ou foram transmutados na bateria (conjunto de tambores e pratos de metal) do gênero Ragtime e do Jazz. Cá contra todas a expectativas eles prosperam em meio a repressão não menos intensa, pois eram também presos e confiscados, proscritos ou queimados.
Julio Braga[3] que, também nos informou sobre os “brasileiros” do antigo Daomé, tratou de historicizar a perseguição aos sacerdotes e cultos afro-brasileiros na Bahia e denunciou o sistemático recolhimento dos objetos de culto, sobretudo os tambores, pelos chefes de polícia soteropolitana. É sabido sobre diferentes procedimentos de coerção, intimidação e controle social, além das prisões, outros atos violentos eram regularmente perpetrados pelas autoridades policiais contra os sacerdotes e casas de cultos. Não obstante os acervos museológicos atuais trazem coleções excelentemente preservadas de tambores do tipo Ngomas, Batas e Tamas recolhidos pelos policiais às casas de culto afro- brasileiros em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo até a primeira metade do século XX.  
A música, fato sonoro-acústico, acabava transbordando do espaço ritual das matas e terreiros, das senzalas e mocambos e alcançava a Casa Grande. Os sons mais altos do tambores ressoavam longe e atingiam a cidade, penetrava dissonante na civilidade pretendida e incomodava e acionava os ouvidos das várias intolerâncias. Tudo que emitia um som mais alto tornava-se cacofonia ou prenuncio de insurreição. A atitude adotada pelas autoridades nem sempre tenderia a repressão, conforme a interpretação já famosa de João José Reis, que mostra também que as negociações de musicalidades negras tinham seu lugar no jogo de tensões e relaxamento do controle social nas urbes escravista da costa. As permissões negociadas, o batuques de afronta e retaliações seguiram par-e-passo.
Os conteúdos intrínsecos e extrínsecos de tais musicalidades podem ser perseguidos em diferentes suportes, como estratégia de visualizar seus criadores, portadores, disseminadores, quais sejam, sujeitos tão humanos e históricos quanto nós. O pensamento musical é uma fato histórico e humano, não cria e recria, não se propaga música no tempo-espaço, sem que sons sejam concebidos como pensamento e ação. Musicalidade é cultivo de silêncio e sons.
Em nossas pesquisas culturas musicais e identidades étnicas de matrizes africanas se entrecruzam e são enfocadas no campo da História, sem perder de vista as possibilidades dialógicas com trabalhos em Etnomusicologia, Linguística, Musicologia, Antropologia Sonora, Semiologia e outras áreas das ciências humanas que incidiram direta e indiretamente sobre estes temas.  
Sobretudo os estudos etnomusicológicos posteriores aos anos 1980, configuram canais de diálogo profícuos com a reflexão histórica, criando recortes sincrônicos e diacrônicos, recaindo sobre a historicidade dos sujeitos e sociabilidades, visões de mundo e processos de hibridação e menos sobre os materiais que eles constituem, tal como indica Bruno Nettl:
   “Si la investigación etnomusicológica de la década de los años ochenta es distinta dela anterior, lo es fundamentalte por el incremento del interés en el estudio delos aspectos procesuales, y de la música como processo en lugar de como un simple producto. Quizás se podría decir que ahora existe más interés en saber cómo suceden las cosas que en saber cómo son. Una revisión de algunos de estos procesos( y sus agrupaciones) implica en parte una analogía inevitable respecto de los puntos tocados en el epígrafe anterior ( musica e culturas ), puesto que aquéllos son el resultado de procesos.(...) La etnomusicologia todavía está bastante alejada del tipo de estudios característicos de la musiología histórica , mucho más interesada en sucesos y procesos de cambio específicos que en generalizaciones y patrones.los etnomusicólogos en realidad están interessados en ver cómo cambia la música en general: por medio de qué mecanismos y con qué regularidad.”[4] 
A linha de reflexão que ansiamos difere das pesquisas que tomam música por si mesma, como um produto artístico extra-social , encerrando seus limites na compreensão estética e valorizando estilos, formas, estruturas, gêneros e gênios, enfim os elementos intrínsecos do fato musical e menos as relações que os sujeitos constroem entre si e com os “outros” por meio da música. A música como labor estético e também mediadora das relações humanas, surge aqui como forma privilegiada de comunicação em sociedades complexas, tal como são as sociedades africanas e brasileira.
A hipótese de partida é que a cultura musical foi um dos suportes fundamentais de manutenção e transmissão de uma dada memória e reelaboração da identidade brasileira na costa oeste da África. Sabemos da presenta desses que foram definidos por si mesmo como brasileiros em Lago, e Abeokutá na Nigéria e Porto Novo, Uidá e em Abomé, capital do atual do Benin, antigo reino do Daomé. As canções singularmente entoadas em um português remoto, as performances coreográficas, os instrumentos musicais e as formas de tocá-los, nos parecem ter sido uma forma bem acabada de publicização contrastante da identidade “brasileira” dessas comunidades, verificadas nos espaços públicos por ocasião dos eventos e efemérides do seu calendário próprio. No atual Benin a Festa do Bonfim e o desfile da Burrinha, assim com o Samba do retornados, vai pouco a pouco assumindo o caráter de evento turístico e atraindo viajantes europeus e brasileiros.
No Beninn os emigrados do Brasil recebem o nome de Agudás, mas pesquisadores tendem a chama-los retornados. São identificados com certo estigma de serem os descendentes dos escravos. Por vezes projetam um imaginário de exclusividade na relação com os antigos colonizadores europeus, portugueses, ingleses e franceses e incorporam certo lusotropicalismo discursivo de miscigenação, tão comuns nos circuitos lusófonos.   Oeste da África compreende a região entre os rios Senegal e Níger. Diversidade de povos e sociedades desde tempos imemoriais povos estatais e semiestatais, sociedades centralizadas e descentralizadas e uma grande experiência na exploração dos metais, seja o ouro, seja o ferro. A instalação do comércio atlântico e as transformações dele decorrentes aproximou e apartou grupos étnicos e povos do delta do Níger lá e cá.
Aqueles cujos ancestres haviam sido tangidos soba força das armas, grilhões e chibatas para as Américas, e que puderam escolher, tinham na memória rarefeita referências que incidiram sobre os fortes de São Jorge de Almina e São João da Ajuda.  No século XIX Gana e Daomé, misto de proto-nações e domínios coloniais. Para lá foram degredados alguns, para lá preferiram “voltar” alguns outros. Rotas de produtos e pessoas, rotas de sonhos e delírios. Rotas de instrumentos fônicos e saberes musicais, cultivo de almas, oferendas para os espíritos, cantigas para arrefecer o tormento e dar algum sentido ao mundo caos.
Considerando a origem brasileiras dos Agudá, quais teriam sido os processos de transmissão desses saberes musicais no interior de uma comunidade em relativo processo de insulamento cultural? Que grupo social é esse que constrói uma identidade própria de cunho nacionalista e ao mesmo tempo que se integra a sociedade englobante local? Do ponto de vista estético musical o que compõem tais musicalidades, em termos de conceitos e saber fazer instrumental e saber tocar, cantar, dançar. Musicalidade é música-dança.
A bibliografia disponível mostra que a formação dessas comunidades de “brasileiros” no Golfo do Benin, não foi algo linear nem sem conflitos e sua presença, ainda hoje, deve provavelmente despertar tensão. Embora as comunidades brasileiras tenham sido notadas em outras áreas da costa Atlântica até meados do século XIX, o caso do Agudá, tem sido exemplar dado a sua persistência e longevidade.
Imagem 2- Festa do Bonfim, 2017 Modeste Sabino – Porto Novo. Mascarados performam ante as bandeiras do Brasil e do Benin.

O comercio de pessoas se tornou um dos alicerces do capitalismo mercantil e sua longa duração são uma prova de sua eficiência, sua aceitação moral e legitimidade, como um mudança cultural importantíssima na formação da sociedade contemporânea. Sua largura geográfica podem atestam a capacidade racionalizante de financistas, traficantes, marinheiros, comerciantes em geral. Suas mudanças entre os séculos XV e XIX, indicam a capacidade de readequação do sistema-mundi de produção, compra, venda e utilização de pessoas em larguíssima escala. Onze milhões, vinte milhões de seres humanos, a “querela dos números” já não importa mais, mas o mergulho nas especificidades e nos desdobramentos psíquicos, sociais, culturais, econômicos, que impactam nossa realidade concreta e nossa subjetividade contemporânea.
O Benin tem atualmente uma população de 10 milhões de habitantes, um  mosaico étnico onde os grupos majoritários são os Ioruba,  Adjá, Fon, Baribá. Uma verdadeira exceção no contexto africano em crescente processo de cristianização e islamização, quase metade da população está ligada às religiões tradicionais, ainda hoje chamadas de animistas. Os cultos aos voduns estão presentes no âmbito familiar e doméstico, como também agrega  populações vindas de todo país para um festa anual, que conta com apoio do poder público, do qual participam representantes de comunidades religiosas de todas as partes do território.
 Imagem 3- Dignitários fazem sua refeição durante festa anual dos Voduns. Chakirou Adechian.
     
Embora não seja este o tema da pesquisa, quando se estuda os “brasileiros” da costa ocidental africana devemos ter em conta uma questão aparentemente problemática, qual seja, das redes comerciais e do tráfico negreiro que envolveram as relações entre a colônia portuguesa nas Américas, o Brasil e o sistema operado a partir Lisboa, mas com crescente influência de agentes localizados no Rio de Janeiro e Salvador. A extensão geográfica e longa duração dessa atividade empresarial moldou a face do mundo contemporâneo e contou com a participação ativa de africanos e afro-descendentes nas agências da produção de cativos e comércio de produtos-coisas e produtos-pessoas, nas rotas traçadas na expansão do ocidente. É preciso atentar para o jogo historiográfico e ideológico recente onde dois times de pesquisadores eurocêntricos e afrocêntricos  imputam um ao outro, culpas e escusas pelo tráfico, muitas vezes mais atentas as problemáticas contemporâneas do que efetivamente a questões do passado.
Segundo a filmografia e bibliografia disponível, resumidamente, se pode dizer que os brasileiros do Gana, Togo, Nigéria e sobretudo Benin, antigo Daomé, são primeiramente descendentes de brasileiros escravistas fixados naquela região ao final do século XVIII, como também frutos da união de autóctones com ex-escravizados degredados por volta da década de 1830 e por fim daqueles que retornaram “espontaneamente” nos anos finais do século XIX.
Manuela Carneiro da Cunha (1985) já havia dado ênfase à singular condição dos “brasileiros” da Nigéria perscrutando os processos de construção da identidade dos retornados de Lagos. Os Agudá generalizando, são aqueles cujas menções no Brasil couberam também a Pierre Verger e Gilberto Freyre e nos últimos tempos do século XX, sob diferentes prismas foram reportados por reflexões, preocupações e enfoques, também por pesquisadores africanos e brasileiros entre os quais Elisée Soumoni[5] e Alberto da Costa e Silva.
As iconografias disponíveis indicam que os “brasileiros” do Benin ao realizar os desfiles e eventos criam com sua performance pública um contraste, que torna sua presença um dado de impressionante relevância e visibilidade naquela paisagem social. A pesquisa de Dissertação de Mestrado Angela Fileno da Silva ”Que eu vou na terra dos negros: circularidades atlânticas e a comunidade brasileira na África” apresenta novos elementos que nos permitem penetrar mais fundo nos processos de construção e ressignificação identitária atlântica dos Agudá,  especificando os elementos simbólicos que configuram a Festa do Bonfim e o “folguedo” da Burinha (Burian).
Embora o Benin, denominado nas fontes portuguesas como “Costa dos Escravos”, seja o país mais citado quando o tema é os “retornados”, há também registro de comunidade de “brasileiros” também em Gana, precisamente na capital Acra e também no Togo. Ainda nos anos 1960, estes brasileiros de Gana também eram igualmente importantes do ponto de vista da sociedade local e identificados como os “Tá Bom”, conforme atestam as memórias do diplomata afro-brasileiro Raimundo Souza Dantas, publicadas no Brasil em 1965.
Imagem 3- Mulheres Agudá, enfileiradas atrás da coluna masculina cantam e tocam padeiros e matracas, na festa do Bonfim. 2017. Porto Novo. Benin. Modeste Sabino.
Durante o governo do presidente Janio Quadros no Brasil, Souza Dantas foi nomeado embaixador do Brasil em Gana. Produziu uma memoria reflexiva sobre sua condição singular de primeiro diplomata negro e sua desconfortável situação entre preconceituosos intelectuais brancos brasileiros que faziam pesquisas de campo naqueles anos iniciais da década de 1960 na Nigéria, em Gana e no Benin. Sua narrativa revela um duplo movimento de identificação-estranhamento cultural frente a África, aos africanos e aos “brasileiros” do Gana, Benin e Lagos.
Naquela região, onde se encontravam as cidades mais importantes no contexto da luta anti-colonial da África sub-saariana, era Acra sede do governo de Kwame Nkruma, mas era também fonte de atração e inspiração para as lideranças africanas e pan-africanistas. Edward Dubois que se debruçava sobre a escrita da inacabada “enciclopédia africana” havia imigrado para lá naqueles anos, em um gesto político de renuncia a cidadania estadunidense.
Dantas foi laureado extraoficialmente como um “parente brasileiro”, um “representante negro de um país de brancos”. Em um trecho de sua narrativa sugere que a língua portuguesa ainda era fluentemente falada entre os brasileiros de Acra, ao alvorecer da década de 1960 foi gentilmente recebido e reverenciados por lideranças dessa comunidade:
“Tudo correu assim: um ganense falando excelente português, cujo nome me escapa, no momento , procurou-me certa manha na chancelaria , para informar do desejo da comunidade brasileira em Acra. Combinamos , para o dia seguinte , encontro com  um personagem devidamente credenciado do chamado povo “Tá Bom”, o reverendo G. K. Nelson , capelão do Exercito de Gana, que me ofereceu breve informe sobre a fundação e desenvolvimento da nossa comunidade. Acertamos para dias depois visita a minha Casa em Azuman, registrando-se assim o meu primeiro contato oficial com os chefes dos grupos descendentes de brasileiros”.[6]
Em se tratando de uma experiência em solo africano, talvez seja este um dos mais importantes relatos de um intelectual e político negro brasileiro, da segunda metade do século XX sobre a África. Seus trabalhos, tais como os de Edison Carneiro e Guerreiro Ramos, seus parceiros e contemporâneos, são partes constitutivas de uma história intelectual diaspórica sistematicamente negligenciada, como também o são enquanto contribuição ao pensamento social brasileiro. O texto de Souza Dantas, a mim se revela, como um relato perspicaz, fruto de refinada compreensão do momento histórico africano e da situação social dos negros no Brasil. Posso mesmo afirmar uma aguçada percepção do movimento na História da África e da diáspora, que estamos a perseguir.
Dantas situa as distâncias e proximidades entre um Brasil negro, titubeante e   atomizado na busca de integração social, os impedimentos reais e anseios timidamente apresentados como mobilização política e tentativa de pautar um estatuto de cidadania.  De outro lado apresenta-nos uma África do oeste como ponta de lança de um continente inteiro que recentemente se levantara contra os colonizadores, mas tinha que enfrentar o desafio da integração social e de desenvolvimento econômico nacional. Acra simbolizava e era, àquela altura, um centro de reflexão e difusão intelectual e política, emergida como uma nova urbanidade africana, situada entre o passado e o futuro.
Antes de Dantas, Gilberto Freyre escreveu sobre os “brasileiros” do Benin, como tendo sido os que implementaram os valores culturais do ocidente naquela região. Por sua vez as imagens fotográficas capturada por Pierre Verger, tendiam a enfatizar as técnicas ibéricas de construções em alvenaria, reveladas por uma estética definida como “estilo colonial português”, habilidades apreendidas por construtores negros livres expatriados ou voluntariamente fixados na antiga Costa dos Escravos. 
Ao olhar de Verger, que é reiterado por Freyre, as “influências” culturais brasileiras podiam ser observadas com proeminência, sobretudo na arquitetura. Esta linha interpretativa corroborada pelo trabalho de Milton Guran (2000) ainda permanece como parte do enfoque desenvolvido no documentário de Barbieri (1997), algo perceptível na narrativa fílmica quando parte dos depoimentos selecionados na montagem  enfatizam em primeiro plano as construções dos artesãos “brasileiros”, quais sejam:  a Igreja Católica, a Mesquita e parte dos prédios relativamente arruinados de Porto Novo.
Segundo Milton Guran[7] estes “brasileiros” são, em primeira instância, descendentes dos antigos traficantes de escravos fixados na região desde século XVIII. Francisco Felix de Souza tem sido o mais fortemente noticiado, cuja memória e documentação é a mais difundida. Em segunda instância surgem as famílias que igualmente ostentam nomes e sobrenomes portugueses, outro sinal distintivo, supõem serem também descendentes de escravizados e forros africanos ou nascidos no Brasil, punidos com pena de degredo por participação nas revoltas de escravos e sobretudo nas rebeliões regências ocorridas no norte-nordeste brasileiro, durante a primeira metade do século XIX.
Embora de uma forma um tanto breve, Milton Guran aponta a musicalidade como um dado central, entre os diversos aspectos da história social dos Agudás, sua exploração do tema deixa margem para o levantamento de informações especificamente musicais na identidade daquele grupo social.  Aqui a existência de tais musicalidades é tomada como um dado emblemático. A heterogeneidade dos grupos étnicos da sociedade beninense atual pode escapar aos olhos menos avisados. A música surge em vários momentos, de diferentes formatos e com diversos suportes. Cânticos coletivos à capela entoados por vozes femininas, aparentemente de natureza religiosa contrastam com sons de banda musical de sopros, encabeçando um cortejo. Sessões de música vocal coletiva entoados por um homem que sola e enquanto o coro composto por mulheres produzem um sonoridade que nos remete ao formato canto responsorial, cuja origem seria a musical vocal advinda da África Central, Angola sobretudo.
Podemos dizer que as culturas musicais africanas foram profundamente afetadas no século XX pelo surgimento das tecnologias de gravação e da mundialização do espetáculo musical. Artistas africanos de diferentes colônias encontraram nas atividades musicais comerciais oportunidades de ascensão econômica e prestígio social não disponíveis em outras atividades tidas como modernas. Alguns se introduziram em mercados de consumo de música como instrumentistas, cantores, produtores e técnicos ainda em finais dos anos 1950. A gravadora estadunidense DECCA, em finais da década de 1960 instalou um estúdio em Lagos na Nigéria, para onde iam todos aqueles que tinham projetos de gravar discos e circular em espetáculos. Mercados de consumo regional musica industrial, disco, rádio e espetáculo se formou nas regiões francófona e outro no eixo anglófono, mas sobretudo, artistas como Fela Kuti da Nigéria e Miriam Makeba da África do Sul, abriram caminhos, hoje explorado, por exemplo pela multinstrumentista e cantora malinke Rokia Traore, entre pouco mais de dezena de outros, mundialmente reconhecidos.
Imagem 4- Os gigantes, ou as gigantas, da festa do Bonfim em Ouidah. Bonecos performáticos que representam o senhor e senhora de engenho, Ioio e Iaiá. Na festa pública dos Agudá. 2016. Modeste Sabino.

Como enfoque de Guran não incidiu prioritariamente sobre este aspecto, a cultura musical, continua sendo este um espaço aberto, cuja penetração pode trazer novos elementos para vislumbrar de forma mais abrangente as dinâmicas históricas dos africanos em diáspora nos dois sentidos das viagens sobre o Atlântico. Algo, que as pesquisas recentes, a cada dia demonstram como processos muito mais complexos, que inicialmente se pensava.
É possível que para alguns desses “brasileiros” idos ou mandados de volta, a palavra África em um primeiro momento não fosse mais que figura geográfica vaga, misteriosa e disforme, talvez com conotações espaciais construídas pelos “outros”, ou, no máximo, representasse uma difusa teia de imagens oriundas de narrativas fixadas na memória oral como País dos Cabinda, dos Angola, dos Gege, dos Nagô ou dos Congo. No século XX, Daomé foi refeito e convertido em sobrenome, Dagoméia.
No Brasil nos final do século XIX o rei da Etiópia Meneleki II, era fragmentos de manchete jornalística, ressignificado em figura carnavalesca e nome de clube étnico.  As mensagens vindas da Europa eram resumidas e replicadas por pouquíssimos letrados e semiescolarizados e notícias de segunda-mão compradas a marinheiros e pequenos comerciantes marginalmente inseridos no comércio transatlântico. A África vinha assim, mas era assim que vinha.
A despeito do que aparece em interpretações carregadas de tinta lusotropicalista[8] sobre a história dos Retornados, consideramos que nem tudo pode ser tratado como uma simples re-inserção de ex-escravizados negros em uma sociedade africana. Tais episódios podem ser interpretados como uma segunda expatriação para os nascidos na África e um primeiro, mas não menos violento desterramento para os descendentes de africanos livres ou alforriados, quando de ventres escravizados, nascidos no Brasil. Talvez um sentimento de longa queda ou de dupla perda, possa ser simbolizado na figura da Diáspora Reversa. Seus percursos podem ser parcialmente vislumbrados nas formas musicais remanescentes.
A diáspora reversa observada a partir de em um Brasil “bem brasileiro” atual, cuja noção de nacionalidade estava ainda mal se construindo no século XIX. Sabemos pelas abordagens críticas da identidade nacional, que ao olhar de setores das elites a presença de africanos e brasileiros negros representava questão problemática, um empecilho à civilização e a modernização e não uma grande contribuição cultural, tal como se delineou no século seguinte.
Descontando tom francamente ufanista de certas literaturas sobre esse tema, é bem possível que aqueles “crioulos”, somente tenham se tornado “brasileiros”, mediante a urgência e necessidade de, como fizeram seus ancestrais, sobreviver a nova dispersão, como já sugeriu Manuela Carneiro da Cunha em Antropologia do Brasil, sobre  a impossibilidade de se manter a ideia de uma tradição cultural que se adapta  a novos meios ambientes e se perpetua sem fim ante todo e qualquer obstáculo, vamos perseguindo os Águda para entender essa invenção de um nacionalismo brasileiro, cunhado por excluídos.
Consideramos que a identidade brasileira dessa diáspora reversa, deve ser escrutinizada em perspectivas histórica, sociológica, filosófica, etnomusicológica, antropológica, enfim interdisciplinar, que leve em consideração o acúmulo das teorias afro-diaspóricas formuladas e refeitas na construção dos pensamentos Pan- Africanista e Antirracista ao longo do século XX. Habilidades e conhecimentos sincronicamente elaborados com enredos próprios e em diferentes dinâmicas, temporalidades e quadrantes geográficos por Muniz Sodré, Stuart Hall, Nei Lopes, Kwame Apiah entre outros. Nos anima algo que Paul Gilroy (2001) em  “Atlântico  Negro” definiu como: “O dinâmico trabalho de memória que é estabe­lecido e moralizado na edificação da intercultura da diáspora construiu a coletividade e legou tanto uma política como uma hermenêutica aos seus membros contemporâneos.”
 Ao mesmo tempo tais novas interpretações e reavaliações processuais devem se manter saudavelmente abertas para uma perspectiva dialógica, crítica e autocrítica o bastante para rever seus limites e paradoxos e em última instância contribuir para redefinir o humanismo em bases não etnocêntricas. Algumas formulações podem parecer pouco convencionais e certas perguntas podem mesmo ser consideradas impertinentes sobre as fontes autoritárias e incongruências das identidades nacionais e a instabilidade das identidades étnicas nas sociedades contemporâneas. Principalmente quando tais questões são feitas em uma sociedade racialmente herarquizada e profundamente apartada se si mesma, buscando um lugar no rapidamente mutável concerto global. Mas, precisamos fazê-las.
Partimos das imagens fílmicas e sonoridades fonografadas para levantar outras analogias com os desfiles musicais performáticos realizados no Benin atual, em função de algumas aparentes permanências. Os métodos e procedimentos adotados na pesquisa de doutoramento são recuperados aqui, na medida em que fontes iconográfica oitocentistas se fizerem necessárias para recompor a paisagem musical afro-brasileira ou africana anteriores ao século XX.
No século XIX diferentes viajantes artistas europeus pintaram negras e negros livres e escravizados em situações urbanas, além do trabalho foram também nos poucos espaços de sociabilidade e atividade religiosa. Algumas dessas imagens os mostram portando instrumentos musicais africanos. Coligindo outras fontes iconográficas e por meio de registros etnomusicológicos pudemos identificar seus congêneres em uso na África. Tais imagens constituem narrativas visuais de musicalidades negras que se transformaram, desaparecem ou foram reconfiguradas ao longo do século XX. Tratamos de interpretá-las para penetrar nos descaminhos da História Sociocultural dos africanos e seus descendentes na construção do Brasil.
Na grandeza da lavoura escrava, melhor se em pleno domínio do tráfico, os batuques não se limitavam aos engenhos e as plantações. Invadiam as cidades e na Bahia como no Maranhão, etc., nem sempre se circunscreviam aos arrabaldes. 
Nosso objetivo tem sido pesquisar e registrar parte da História cultural dos brasileiros descendentes de africanos remetidos ou retornados por vontade própria para o Golfo da Guiné, oeste da África no século XIX, os Agudá. Nosso olhar incide especificamente sobre as culturas musicais em função de uma perspectiva fundamentada no reconhecimento da centralidade da música e dos saberes musicais nas culturas de tradição oral, especialmente entre as sociedades africanas e por extensão aos e seus descendentes no “novo mundo”.
Esse enfoque é também fruto do anseio por aprofundamento de uma reflexão que vem se avolumando pelo pesquisador desde inicio da pesquisa de doutorado, que ao entender a natureza geográfica, linguística e cultural limitada ao mundo anglofônico na obra inspiradora de Paul Gilroy, tem buscado constituir hipóteses sobre a existência de um lugar na “contracultura da modernidade” para sonoridades, musicalidades e outros constructos culturais desenvolvidos por afro-brasileiros. Uma pergunta nos impulsiona: Será possível inserir nos trânsitos do Atlântico negro um quadrante cultural afro-luso-brasileiro? Que implicações tem isso para as ciências humanas no Brasil e mundo contemporâneo?
Os trabalhos recentes de Angela Fileno da Silva (2010) e Monica Lima e Souza (2008) nos confirmam e documentam que os fluxos de retorno dos africanos ou “crioulos” a antiga Costa dos Escravos no século XIX, estiveram amplamente conectados as outras correntes migratórias para África, originadas no Caribe e também nos Estados Unidos da América. Este trabalho não tem por objetivo os estudos desse refluxo, mas os trânsitos de culturas musicais operadas nesses trechos e circuitos, com seus agentes, suas agendas e agências.
Há de se atentar paras as especificidades internas das culturas musicais dos Agudá, já que é um grupo social, lingüística e religiosamente plural. Esta pesquisa poderá se somar aos estudos que tem tentado aproximar as musicalidades afro-brasileiras e suas matrizes africanas, tratando-se este de um dos raros fluxos de via de mão dupla sobre o Atlântico. Guran mostra que a cultura musical singular se apresenta como os dos mais importantes signos da brasilidade dos Agudá:
“Em janeiro, exatamente como na Bahia, celebra-se o Nosso Senhor do Bonfim. Em Porto Novo, uma das cidades onde é mais forte a presença dos “brasileiros”, a festa começa na véspera da missa, com um verdadeiro desfile de carnaval, todo mundo fantasiado e duas grandes bandeiras brasileiras no abre-alas. Canta-se em um português aproximativo, mas também em ioruba, fom e gum, sempre cantigas que reafirmam a origem brasileira da festa.   Para completar a celebração do Bonfim , tem apresentação da bourian, um espetáculo bastante popular que nada mais é do que uma versão africana da burrinha, folguedo semelhante ao bumba-meu-boi que foi absorvido por este e finalmente desapareceu no Brasil.   A antiga Costa dos escravos, sobretudo o Benim, parece constituir o único exemplo no mundo de implantação de uma cultura de origem realmente brasileira que conseguiu levar vida própria e independente.”[9]
Embora seja evidente o conhecimento que o pesquisador tem da bibliografia antropológica que lida com as dinâmicas culturais na construção das identidades, algumas questões que escaparam à sua reflexão, talvez tenham sido obscurecidas pelo tom francamente ufanista de seu texto.
Algumas perguntas ainda podem ser feitas: Qual o significado de pertencimento nacional para homens mulheres negros escravizados no Brasil e remetidos a África no século XIX, quando a própria concepção de nação brasileira ainda era um tanto incipiente? Que processos históricos e sociais condicionaram a construção e manutenção das identidades brasileiras entre os retornados? Qual tem sido o papel exercido pelas musicalidades nesses processos identitários de construção, ressignificação, manutenção e difusão de valores tidos como brasileiros?
Se considerarmos os aspectos lingüísticos, hoje podemos falar em unidade e diversidade cultural na África sem cairmos na homogeneidade esvaziante, nem da diversidade abstrata. O musicólogo Gilbert Rouget[10] fez uma das mais importantes e aprofundadas pesquisas sobre cultura musical do Benin, cuja captura e análise de dados etnomusicológicos se estendeu por quarenta anos. Este trabalho é demonstrativo da complexidade e longevidade da cultura musical dos povos do antigo Daomé e regiões vizinhas.

Imagem6- Instrumentista da Festa do Bonfim utiliza pandeiro industrial, provavelmente fabricado no Brasil. Modeste Sabino 2017, Benin.
Trata-se de um repertório canônico de cânticos, louvações, poemas épicos e execuções instrumentais ritualísticas realizadas por uma conjunto musical feminino, seu surgimento esteve ligado à emergência dos Akan, grupo étnico autóctone que deu origem às primeiras formações estatais na região. Como interagiram os brasileiros do Benin diante de culturas musicais seculares dos grupos Akan, Igbois, Ewe, Ioruba e Fon?
O português era a língua franca entre os brasileiros e o catolicismo parece ter sido sua marca distintiva. Atualmente a língua portuguesa se apresenta apenas em canções sem entendimento já sugere ser claro, os falantes da língua desapareceram. Apesar das performances continuarem sendo denominadas “sambas”, temos canto-dança-música na qual papeis masculinos e femininos bem definidos  tem correspondência com musicalidades negras brasileira onde os instrumentos musicais eram interditados as mulheres. Tal como no Brasil elas são portadoras da música vocal, na qual um solista interage com o coro, onde não há separação entre público e praticantes.
Quais relações guardam tais práticas com suas congêneres brasileiras? Que alterações sofreram ao longo do século XX?  Qual foi o impacto da radiofonia e da fonogravação nesse processo? Quais são as características especificamente estético-musicais dessas práticas? São estas as questões chaves que nortearão a investigação, que partirá do material fílmico, bibliográfico, iconográfico disponível, mas se enriquecerá enormemente com uma pesquisa de campo. 
As hipóteses levantadas levam também em conta os sistemas e conceitos musicais (gêneros) introduzidos, modificados e ou desenvolvidos, assim como sobre as habilidades individuais dos músicos (estilos) no interior de suas comunidades e dessa no contexto africano desde o século XIX. Conhecimentos práticos e teóricos do historiador-músico proponente devem ser compatibilizados para desvelar dinâmicas culturais da diáspora reversa, não para forjar hermetismos acadêmicos nem construir identidades musicais, mas para situar o papel da música nas tramas identitárias diaspóricas. Assim sendo a eventual transformação desses conteúdos em livro e Vídeo-documentário, em repertório musical a ser comunicado em espetáculo e cd de áudio, são ações complementares da pesquisa a ser realizada.
Em 1977 foi realizado em Lagos o segundo FESTAC, Festival de artes e culturas negras, do qual participaram oficialmente artistas brasileiros como Caetano Veloso, Paulo Moura e Gilberto Gil e suas respectivas bandas. O documentário realizado por Hermano Penna como registro desse evento jamais circulou comercialmente. Do lado brasileiro o festival foi contestado por Abdias do Nascimento e no lado nigeriano pelo músico ioruba Fela Kuti. Suas memórias publicadas em textos no Brasil por Carlos Moore nos informam, que muitos músicos estrangeiros acomodados me Lagos frequentaram, noite após noite, sua boate nos arredores da cidade.
Também nos anos 1970 o músico e percussionista nigeriano Babatunde Alatunji tornou-se figura habitual em espetáculos e produções de trilhas musicais  na indústria do cinema nos Estados unidos e constantemente viajava a Nigéria e ao Gana com seus espetáculos. King Sunny Ade que residência em Lagos, transitava pelo mundo com suas sonoridades que fundia instrumentos e ritmos tradicionais e elementos do Jazz, Soul e Rock. Em que medida estas musicalidades alimentavam ou não as culturas musicais locais, entre as quais aquelas dos Agudá das Nigéria? 
              
Imagem 7-Estúdio da Gravadora DECCA, em Lagos, Nigéria, década de 1970. Autor desconhecido.

Provavelmente uma novas culturas musicais negras assumiram contorno de síntese em diferentes regiões do Brasil entre fins do século XVIII e  início do século XIX. As gravuras dispersas em acervos europeus e brasileiros no dão notícia disso, não é possível saber exatamente o conteúdo daquelas canções, mas é possível inferir seus contornos por meio de registros feitos por memorialistas, estudiosos do folclore do final do século XIX, quando letras de canções, ocasionalmente foram grafadas e melodias de batuques, maxixes e lundus foram transcritas para piano ou “aproveitadas” por músicos negros letrados musicalmente.
As informações disponíveis na historiografia renovada nos dão conta das imposições senhoriais e sobre as proibições, nem sempre obedecidas que impediam parcialmente as festas negras. Mas também sabemos das licenças ruidosas onde dança, música e folia corriam quase soltas. Sabemos pelos memorialistas que as músicas de Barbeiros não podiam ser tocadas depois das 9 da noite, “sob de dez mil reis de multa imposta ao diretor da festa” e na sua falta aos tocadores. Também na época eram coibidos pelas posturas os “batuques, vozerios e alaridos” que perturbassem o sossego do público respeitoso em hora de silêncio.
A cultura musical negra inundou a civilidade desumana das plantation e encontraram acolhida nas cidades. Não entrou nos salões  pseudo aristocráticos, mas medrou pelas beiradas, pelos arrabaldes de Salvador, Rio de Janeiro, Caracas, Havana, Saint Louis, Nova Iorque e Montevidéu. A repressão coabitou com as resistências e tenacidade cultural de origem africana. Até que a cultura musical do ocidente estivesse quase ferida pelo esgotamento e autoreprodução elitista, enquanto as formas culturais negras evoluíram em mundos colocados a parte pela expansão cultural europeia. A marimba foi o primeiro instrumento musical africano a ser “aceito” ou incorporado no modelo musical industrial de salão burguês. A orquestra hiper-racionalizada, dividida em sessões, profissionalizada, tal qual um indústria, onde os instrumentista reproduziam com precisão os movimentos dos objetos e mecânicos, agora tinham que suportar a presença de um instrumento musical de culturas desdenhadas.
Os primeiros equipamentos de captura musical foram introduzidos no Cairo no começo da década de 1910. Os povos islamizados da África do norte haviam herdado dos persas uma tradição de erudição musical, mas uma forte cultura musical especificamente afro-egípcia, sudanesa e etiópica nos dá conta de cordas, tambores, dança, canto populares e música de corte, é sistemas gráficos autóctones.
Um corredor musical se estabeleceu bem cedo conectando povos nilóticos e populações negras abaixo do sahel. O Ubangui é um tipo especifico de instrumento de cordas dedilhadas presente na República Centro Africana, Camarões e, na área dos grandes lagos. Pelo cruzamento de registro atuais e as gravuras de remotas arpas egípcias, parece provável uma longa tradição de influências musicais reciprocas entre povos de língua e cultura banta e os populações nilóticas.
Kazadi Wa Mukuna nos forneceu uma vasta bibliografia sobre gêneros e estilos musicais do século XX, produzidos nas grandes cidades da costa atlântica. Soul Makossa do Zaire, Hilife e Afrobeat da Nigéria, são termos que podem sugerir tanto uma adequação as determinações de uma mercado mundial de comércio de música, quanto a capacidade de reinvenção musical das sociedades africanas e sua inserção no mundo industrial musical contemporâneo, ainda que forma desigual.             
O vídeo-documentário “Kokombe-The Nigerian pop music”, produzido por Jeremy Marre (1980), mostra uma vigorosa e diversificada indústria fonográfica africana que passou a disseminar equipamentos de audição e disco de vinil, nos quais os astros eram artistas locais como Fela Anikulapo-Kuti, King Sunny Ade, Sonny Okosun, Lijadu Sisters entre outros. O que estas musicalidades têm a nos informar sobre mudanças e permanências nos âmbito das culturas musicais africanas e afro-brasileiras na costa Oeste?
Gravura 8- Estúdio da Gravadora DECCA, em Lagos, Nigéria, década de 1970. Autor desconhecido.
Nosso outro desafio consiste em colocar tais eventos e culturas musicais frentes a inovações tecnológicas introduzidas pela mundialização da indústria fonográfica, representadas pela gravadora DECCA, que sediada em Lagos, passou a gravar, prensar, replicar e distribuir discos e em um largo espectro geográfico que se estendia do Senegal ao Gabão desde os anos 1960.
O pesquisador Marcos Branda Lacerda, em meados dos anos 1980, capturou em gravações fonográficas, variadas canções de culto no Benin e também àquelas praticadas pelas comunidades Agudá. Talvez tenha sido o único registro fonográfico desse universo musical no Brasil e parte do acervo foi transformado em CD pela FUNARTE. Conquanto o CD  traga um resumido texto reflexivo no encarte, ainda sentimos falta de materiais analítico sobre o tema. Lacerda, acertadamente, faz a crítica dos largos desvãos existentes nas pesquisas interligando Brasil e África que, apesar dos avanços recentes, continua sendo válida, qual seja: “O presente Cd compõe-se de peças escolhidas dentre este material sonoro. Apesar da aparente heterogeneidade, foi possível organiza-lo de acordo como fenômeno relativamente imprevisível, estudado pela historiografia, mas ainda de pouca relevância no domínio da arte: a questão das relações musicais entre Brasil e o Benim.”[11] 
O ponto de partida da pesquisa, além da bibliografia das pesquisas que tematizaram os Agudá, foi o documentários em vídeo: Na rota dos Orixás, que busca mostrar, de um lado elementos africanos nas práticas artísticas e religiosidades afro-brasileiras, do outro as identidades brasileiras criadas pelos descendentes de escravos que habitam o Benin. O vídeo integra a um projeto que incialmente pretendia constituir uma série de quatro documentários, dirigidos pelo videomaker Renato Barbieri e pelo historiador Victor Leonardi.
Outros trabalhos que lidaram indiretamente com o tema, em fonogramas, partituras e documentários devem se inscrever nesse projeto como documentação básica, entre os quais “Pierre Verger um mensageiro entre dois mundos” de Lula Buarque de Hollanda (1999) que reconstrói a trajetória biográfica e de pesquisas do etnólogo francês, radicado na Bahia até sua morte em 1996. A intenção é ter acesso aos materiais não editados e cadernos de campo das equipes de filmagens, de maneira a apreender um quadro mais completo possível do contexto e das sonoridades.
Estamos explorando constantemente  os materiais iconográficos, discográficos, fonográficos e filmográficos imediatamente disponíveis e também recorremos aos acervos postados em outras plataformas em bases digitais, museus convencionais ou virtuais.
As transcrições e tradução das letras, melodias e acompanhamentos instrumental das canções e a sua confrontação com repertórios musicais brasileiros e autóctones da África do oeste tem sido um dos recursos metodológicos utilizados na pesquisa. A abordagem bibliografia sobre a História Social da Cultura das sociedades africanas nas quais os “brasileiros” estão inseridos deve ser acompanhada da análise dos conteúdos propriamente musicais, que se dará em função da melhor compreensão da cultura musical na qual esta se origina (Brasil) e manifesta (Agudá).
Nosso objetivo maior tem sido forjar o reconhecimento da música de matriz africana como conteúdo fundamental para formação mos cultura contemporânea. Assim contribuímos para o acúmulo de estudos sobre as dinâmicas afrodiaspórica. Somamos força crítica a bibliografia sobre os Retornados, inclusive àqueles advindos do trabalho mais recente sobre o tema, realizado por Milton Guran (2000), em “Agudás: brasileiros do Benin”. Embora voltado para cultura musical pretendemos não negligenciar quaisquer das fontes não exploradas, hoje muito mais acessíveis, assim como aquelas já citadas nos estudos realizados pelos pesquisadores que exploraram o tema, entre os quais a já citada, Yeda Pessoa de Castro e Pierre Verger[12], registrado como “Influence du Brésil au golfe du Benin’ de 1953 e “Fluxo e Refluxo: tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de todos os Santos dos séculos XVII a XIX.
Uma bibliografia que consigna documentação excepcional sobre cultura musical negra nos Brasil em fins do século XIX e início do XX, é aquela que vem recebendo alguma atenção dos pesquisadores desde aa década de 2000. Marta Abreu[13], pode ser citada como historiadora que abriu um belo caminho a se explorado por pesquisadores de diferentes campos.
Retornar a exploração de materiais já sistematizados por outros pesquisadores, tem se revelado uma tarefa bastante frutífera. Além de Melo Morais bastante utilizado por abreu, podemos acrescentar escritos de memorialistas com preocupação folcloristas como o professor Souza Carneiro, pai do jornalista e etnólogo Edson Carneiro, que também nos legou produção interessantíssima, entre as quais “Os mitos Africanos no Brasil” e “Furundungo”.  Onde nos surpreende suam visão critica sobre a construção mítica do samba carioca em autores da primeira metade do século XX, bem antes de Roberto Moura e todos os que o assimilaram de forma acrítica.
Manuel Querino[14], por sua vez foi certamente pioneiro ao inventariar e estudar práticas sócio-culturais e religiosas de africanos e afro-brasileiros já na segunda metade do século XIX e primeiros anos do XX. Descreveu detalhadamente existência de um “Carnaval africano” na Bahia e menciona a exibição dos “Pândegos da África”, como tipo de cortejo festivo, com raízes em rituais de coração de monarcas, “embaixadas africanas” realizadas na cidade de Salvador. A novidade é que lendo mais atentamente esta documentação surge o fato de que aos olhos de Querino, tais cortejos eram similares aos eventos realizados pelos brasileiros em Lagos, Nigéria. Por quais meios Querino detinha essa informação e porque fez tal analogia?
Diferentes culturas musicais, nos últimos dois séculos circularam de forma bastante desigual por todos os cantos do mundo em função do aparecimento e difusão também desigual dos suportes elétrico-eletrônicos de capturar e reproduzir sons. Mútuas assimilações musicais conviveram com intolerâncias, equívocos e imposições grandiosas. As imposições ainda não cessaram, assim como desigualdade a circulação de bens culturais. Em verdade estejamos agora mais frágeis tecnológica e economicamente, por outro lado, estamos munidos de novos recursos filosóficos críticos, e assim tentamos minimizar as perdas e danos materiais e simbólicos. Stuart Hall chamava esses recursos de capacidade de deslocar os dispositivos de poder.
Segundo a filmografia e bibliografia disponível, os brasileiros de Gana, Nigéria, Togo e sobretudo Benin, antigo Daomé, não foram os únicos nem os primeiros descendentes os brasileiros coloniais brancos, produtores e exportadores de cativos fixados naquela região ao final do século XVIII. Um dado de preconceito e discriminação social quer fixar os Agudá contemporâneos, apenas como frutos da união de autóctones com ex-escravizados degredados. Eles são isso também, mas muito mais. Por volta da década de 1830, sua história já estava bem configurada na memória local.  Mas ainda assim assimilaram outros tantos que retornaram “espontaneamente”, e o fizeram até os anos finais do século XIX.
Imagem 9- senhor Karim Da Silva, Presidente da Comunidade Agudá do Benin.
A equipe do projeto contou inicialmente com diretor audiovisual Marcelo Maccaferri e a produtora Fernanda Lomba. O consultor beninense Mohamed Nassir Didunun Bello, câmeras Douglas Arruda e Ana Raquel Rodrigues.
O designer Gráfico foi Rodrigo Kenan, as estagiárias, Flavia Silva e Luiza Jovino.  Colaboradores no  Benin Modeste Sabino Houessou e Chakirou Adechian. Contamos com sessão de materiais fílmicos e fotográficos por Renata Amaral e Milton Guran.  O editor de vídeo foi Marco Crepaldi. O financiamento adveio do prêmio PROAC de Artes Negras da Secretaria Estadual de Cultural de São Paulo 2015.


Filmografia

AMARAL, Renata. Pedra da Memória. Marcá: São Paulo, 2011.

BARBIERI, Reanto e LEONARDI, Victor. Na rota dos orixás. 54 minutos, Brasil, 1997.

GERBER, Raquel e NASCIMENTO, Beatriz. Orí. 91minutos, Brasil, 1989.

HOLLANDA, Lula Buarque de. Pierre Verger, mensageiro entre dois mundos. 83 minutos, Brasil: Conspiração, 1999.

MARRE, Jeremy. Kokombe-The Nigerian pop music. 60 minutos, EUA: Shanachie, 1988.

COUTINHO, Eduardo. O fio da memoria (1 e 2). FUNARJ: Television Española S.A.: Rio de Janeiro, 1991.   

Discografia

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CANDOMBLÉ, JOÃOZINHO DA GOMÉIA. Inter-records: Rio de Janeiro, Sd.
CANTICOS DOS ORIXAS DE CANDOMBLÉ, CARLINHOs D’OXUM. Natasha Records: Rio de Janeiro, Sd.
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GRUPO DE SAMBA CHULA DE SÃO BRAZ. Quando dou minha risada. Rio de Janeiro: Plataforma de lançamento: Funarte, 2011.
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SILVA, S. S. J. A polifonia do protesto negro, dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2000.
____________.Memórias Sonoras da Noite: musicalidades africanas no Brasil Oitocentista. Tese de doutorado,Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. Rio de Janeiro: Muad, 1998.
SOUZA, M M. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de Rei Congo, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
SOUMONNI, Elisée – Daomé e o mundo atlântico, Rio de Janeiro, UCAM (Universidade Cândido Mendes), CEAA (Centro de Estudos Afro-Asiáticos) e Amsterdam, SEPHIS (South-South Exchange Programme for Research on the History of Development), 2001.
TINHORÃO, J R. Os sons dos negros no Brasil: cantos, danças, folguedos, origens, São Paulo: Art Editora, 1988.
THORNTON, John – A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400-1800, Tradução Marisa Rocha Motta. Rio de Janeiro, Editora Campus: Elsevier, 2004.
VERGER, P. Fluxo e refluxo. Do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os santos. Dos séculos XVII a XIX.4ª edição, Salvador: Currupio, 2002.
ZUMTHOR, P.. Introdução a Poesia oral. São Paulo: Hucitec: EDUC, 1997.





[1] Bâ. Amadou Hampaté. A tradição viva. In: História Gral da África. I: Metodologia e Pré-História da África. Coordenado por J. Kizerbo, São Paulo: Ática/Unesco, 1982.  p 181, 218. 
[2] Zumthor, Paul. Introdução a Poesia oral. São Paulo: Hucitec-EDUC,1997. p 176, 177. 
[3] BRAGA. Julio Santana.  Na Gamela do feitiço: Repressão e resistência nos candomblés da Bahia. Salvador: EDUFBA,1995.
[4]Nettl, Bruno. Últimas tendências em etnomusicologia. In: Cruces, Francisco y otros. Las culturas musicales: lecturas de etnomusicología. Madri: Editorial Trota, 2001. p 124,125.  
[5] Soumonni, Elisée. Daomé e o mundo atlântico. Amsterdan: SEPHIS, Rio de Janeiro: CEAA, 2001.
[6] Dantas, Raimundo Souza. África Difícil. Rio de Janeiro: Editora Literatura, 1965, p 16 .
[7]Guran, Milton. Agudas: Os brasileiros do Benim.Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2005.
[8] Versão acadêmica triunfalista neo-freyriana verificada nos eventos do “Descobrimento” e que alcança até os dias atuais. Interpretação apropriada pelo mercado cultural, atualizando uma visão síntese de Gilberto Freyre sobre superioridade da cultura portuguesa, sobre as dos povos sob domínio cristão-luso. Idealização romântico lusitana projetada numa geografia mundial, desde tempos do império almorávida.
[9]Op cit, p 1,2. 
[10] Rouget, Gilbert. Um Roi african et sa Musique de Cour: chant et dansas du palais à Porto-Novo sous le règne de Gbèfa. (1948-1976.) Paris: CNRS editions, 1996.
[11]Lacerda, Marcos Branda. Drama e fetiche: Vodum, Bumba meu Boi e Samba no Benim. DSFB-48, Rio de Janeiro: Centro  Nacional de Folclore e Cultura Popular- Funarte.Sd.
[12] VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo. Do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os santos. Dos séculos XVII a XIX.4ª edição, Salvador: Currupio, 2002.
[13] ABREU, M. "Nos requebros do Divino": Lundus e festa populares no Rio de Janeiro do século XIX. IN: Cunha, Maria Clementina Pereira (org.) Carnaval e outras f(r)estas: Ensaio de História Social da Cultura. Coleção Várias Histórias, Campinas, SP: Editora Unicamp, Cecult, 2002.
__________. O império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1890. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo Fapesp, 1999.

[14] Querino, Manuel. A raça africana e seus costumes. Coleção de Estudos Brasileiros.Série Cruzeiro, Volume 8, Salvador: Livraria Progresso, 1955.  

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Para Augusto Cerqueira.
Outono nos arredores da cidade murada. Não é dramaturgia. É prece e liturgia. Oh Santo Antônio dos revoltosos. Kimpa Vita Aleluia.
Final de semana feriado. Minha filha bate no quarto e são umas 8 da manhã. Pai! tem um homem ai te procurando no portão. Hã!?. Sexta da paixão essa hora, deve ser algo ruim. Sonolência prostração, um homem negro com um fiat vermelho. Papeis na mão, austeridade, frase irônica . Tava dormindo? Olhando a baba seca no canto da minha boca. Emenda: Oficial de justiça. Resumo: A PUC SP me cobra 14 paus e tanto. Tô tentando manter o emprego, tô andando cabisbaixo e medindo as palavras, controlando os pensamentos. Tenho muita insegurança, tenho medo de tudo. Ele entra na minha alma, captura meus temores. Vocifera: Se o senhor não providenciar o dinheiro em três dias é penhora. Pergunto: O senhor ganha para fazer isso? Penso comigo: Ganha quanto pra meter pânico em gente preta e pobre como o senhor? Não, quase nada, apenas setenta e poucos reais, tá escrito aqui. Ah... tá bom. Onde tenho que assinar? Assina aqui. Ok. Vai subir voando abutre. Eu tô cantando, internamente eu tô cantando. Ontem fui visitar meu cumpadre Vitor. To cantando uma cantiga de Solano em nome de um dia e melhor. Tô cantando.
Segunda fria, garoa. Vou ao Forum de Itapecerica. Um prédio dos anos 1970, perto da mata, todo úmido e feio, justiça para pobre é em prédio decadente, para rico mármore branco. A justiça é bem injusta, penso.
Insisto em vão que um funcionário me dê a senha, para acessar o processo. Não!! Antes do meio dia, só advogado ou estagiário. Público em e geral só abre as 12.30. Eram dez da manhã, lá se vai meio dia de trabalho. Em plena segunda. Vou andar no bosque, consumir minha revolta, espairecer, absorver o baque. Volto as 12.20. Garoa é mais intensa a fila no lado de fora. Cada rosto marrom claro ou tez escura naquela fila sou eu. Gordo ou magra, velha ou jovem, corpos arcados ou não naquela fila maldita e desdobrada de mim. A garoa batendo fria em nossa cara. Chinelos de dedo, sapatos cambetas, jaquetas rotas de couro sintético. Como podemos suportar sem ficar doidos? Sem sair por ai numa manhã fria dessas procurando os Odebrecht, os Malafaia, os Camargo Correia, os Temer, os Setubal que produzem isso? Todo dia, todo dia, todo dia? Riem de nós, todo dia. Durante a sua vida riem todos os santos dias.
Como ele pode sorrir de nós daquele jeito? Sabendo-se impunes riem. Rindo gostosamente pro juiz, pros advogados, para câmera da globo. Rindo no centro daquela cidade branca, europeia, planejada. Com todos os dentes da boca na boca de homem velho e milhardário. Ele e a globo que tanto riem de nós. Quem orquestra tanta riso? O Schroder, o Ali Kamel, o Alexandre Gracinha, o Demétrio?
A gente na fila do forum pagando uma dívida ancestral com a Fundação São Paulo. Nossa dívida milenar com a cúria, com a diocese, com a arquidiocese, com o banco do vaticano, a santa sé, com padre Alberto, com Marcelo Rossi. Nossa fé pequena e morta naquelas igrejas setecentas cravejadas de diamante e placas de ouro? A pontifícia universidade católica vai tirar de nós o escalpo durante quantas gerações mais? Ainda somos negros. Mas já não temos mais pele. Eles não acreditam. Tamô na carne viva.
A dor só gera dor? E nada mais que dor? Gilroy acha que dor negra vira arte. Em que parte da lógica cristã dele eu me perdi?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Augusto Cerqueira: Poetas das encruzilhadas nordesfinas


Agustus Legbanus Pirapóricus
Desde o século XVI, os sem-escrita povos de cor, insistem em se comunicar por meios de textos, tidos e havidos como exclusivos dos teutônicos, dos gregos e dos latinos. Aprendemos na escola que gente bárbara, gente preta, gente índia são gentes, mas não tão plenamente. A escrita é uma forma de elevação da alma, só para iluminados.

Segundo nossos bem intencionados professores (as) a Música nasceu na Grécia, a Literatura também nasceu lá, mas chegou a maturidade em Roma e a filosofia verdadeira conheceu seu apogeu na Alemanha. Essas verdades sem relativização se erguem como muros de concreto contra nós, negromestiços, silvícolas, caipiras e maletrados. Uma inversão, que coloca a escrita como tendo sido anterior ao pensamento, nos ensina a ter profundo desprezo ou vergonha dos nossos ancestrais, apagando todas as experiências culturais que acumulamos ao longo dos últimos 5 séculos de massacre físico e simbólico.
Via de regra meus alunos repetem o mantra sobre a brasilidade, dizendo que, no Brasil todos somos mestiços e iguais. Quando pergunto quantos textos de escritores indígenas leram na escola desde a infância, ficam com cara de paisagem. Quando trago textos de Ailton Krenak, Marcos Terena, Kaka Werá, primeiramente se mostram céticos e confusos, depois vão compreendendo aos poucos como foram lesados na sua compreensão parcial e racista de mundo.  Por vezes as aulas se transformam em banquetes de signos, principalmente quando somos colocados diante de fragmentos de Allan da Rosa, Ferréz, Paulo Lins, Priscila Preta, Sergio Vaz, Fábio Mandingo, Jenyffer Nascimento e outras e outros que agora brotam como pragas anticanônicas nas beiras da escola, erodindo aquelas montanhas de saber recomendadas por Antônio Candido. Ervas daninhas nos jardins, que criam novas paisagens na aridez da brancura textual e nos permitem outras inscrições de imaginários.



Não se trata, como querem alguns, de uma luta excludente do escrito contra as oralidades, mas de uma estratégia de usar todas as possiblidades expressivas que podemos lançar mão, para comunicar formas diversas de estar no mundo e se senti-lo tal como como ele se apresenta: difuso, múltiplo, complexo e de difícil apreensão na sua totalidade.
O ocidente cristebranco quis transformar o humanismo em um ideal exclusivo seu, até que o racismo, a intolerância e o lucro, quase o feriram de morte. O humanismo não morreu, mas foi jogado no lixo bem doente por eles nesse novo início de mais um século cristão. Por isso podemos agora resgatá-lo e inscrever nele todas as negações a que fomos submetidos, mas também podemos redimensioná-lo e torná-lo uma bandeira carcomida, puída e furada, mas efetivamente universal e potente.
É nisso que estamos trabalhando nas beiras das metrópoles dos países economicamente periféricos, nas bordas das nações com alto poder econômico e grande concentração de poder, prestígio e mando. Nas margens de cidades encasteladas do antigo terceiro mundo, no limiar do terceiro milênio. Tramamos revoltas cotidianas, mesmo sabendo de antemão das derrotas e mortes seletivas.
Augusto Cerqueira, não é um poeta qualquer, é um visionário com delay de dois séculos passados. Chegou atrasado nesse mundo. Por isso seus óculos podem ter sido tanto de Lampião, como de John Lennon. Ele não foi ao funeral, mas ficou com esse pertence. Foi um presente calculado, mas não previsível. Seu desejo de sacrifício, de morrer pelas artes e feitiçarias, seu romantismo é maravilindamente anacrônico.



O que mantem de sotaque não é estilo, é persistência, cajuína da infância baiana. Quando o vejo em cena, penso num lugar que me leva, com sua voz aguda e áspera, voz de cantador oitocentista, um Fabião das queimadas, um Lucas de Feira.  Mais um blasfemo negro-mestiço ameaçando invadir a cidade com sua viola, sua pistola e sua ira.
Uma virilidade quase juvenil, eu diria. Mas não é fanfarronice e nem mascara neném. Veja o. Acredita nas suas próprias palavras bastante, a ponto de poder se deixar passar por ridículo, bebum, maltrapilho, hippie, rastafari.  Antes já via e ouvia muitos falando bem e mal de seres como eles. São pessoas-meteoros, aparições, encantamentos. São fachos de luz, coriscos em noites muito densas. Não entendemos seus desígnios por exercícios de empatia, nem estudo ou pesquisa.  São mistérios da existência humana. São vidas condensadas num eterno vir-a-ser.
Agora com o lançamento deste livro, podemos reter dele uma fotografia limpa e organizada. Isso em contraste com sua figura humana aparentemente desleixada, apaixonantemente estranha e rústica, imprecisa e fugidia.


Os textos periféricos estão em busca do oceano e também de identidades. Uns são acrônimos de autoestima, outros são haikais de territórios, outros xerocopias de antologias consagradas, há ainda cotoveladas em pistas de corrida, bulas de existência. Mas há também bilros pacientemente enredados, versinhos acumulados entre guardanapos de boteco, papéis de pão e folhas soltas de cadernos escolares. Vez em quando, distraído do show, flagro delicadezas modestas que repousam sem luz ou brilho, hieróglifos feitos com batom, ou a lápis de sobrancelha.            
O mais provável é que daqui alguns milênios, os textos-cantigas-poemas de Augustus, sejam recitados anualmente por celibatários desnudos em festas de Legbás. Folguedos realizados anualmente em torno dos monumentos fálicos gigantescos, que um dia foram erguidos com grande pompa em “pedras pisadas” longe do cais, na quebrada. Quando após o transbordo das represas, saberemos enfim por fragmentos de textos psicografados, desses festivais secretos de gozo e vida, nas ruínas submersas, da lendária cidade de Piraporinha, que fica do outro lado do rio, no sentido oposto a Pompéia.



Salloma Salomão é músico e professor negro-periférico.    

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Escritor Oswaldo Faustino


O Jornalista,  ator  e escritor paulistano Oswaldo Faustino, participa de uma experiência  em comunicação afro-contemporânea.

JENYFFER NASCIMENTO E SUA TERRA FÉRTIL.



Uma das escritoras mais inquietas da nova geração de literatas negras no Brasil. Nem bem absorveu a visibilidade que seu primeiro livro alcançou, circulando por meios alternativos e já está formulando os próximos passos, cheia de perguntas e divagações filosóficas. Sua obra faz parte de um panorama de escrituras criativas cujo ponto de partida é cultura Hip Hop. Esse movimento sócio-cultural trouxe à reflexão em torno da identidade negra para outro patamar, onde a juventude a principal agente. A música rap abriu caminho para novas escritas, outros temas, denuncias de outras injustiças e comunicação de angustias outras. Sua poesia alquebrada e muitas vezes direta, denota o exercício constante de auto-construção e subjetividade radical. Mas, também cala fundo sobre as expectativas de afeto, cuidado e realização de seu eu poético e de outras mulheres jovens e sensivelmente conscientes de suas condições e lugar social. De outro lado também nos chama atenção para um forma totalmente inovadora de tratar criativamente o texto escrito, submetendo-o a conteúdos considerados menores, como dramas pessoais e acontecimentos cotidianos.
A vida das mulheres periféricas desde a infância até a vida adulta. As relações de amor, descobertas e conexões de toda ordem acompanham um ativismo atravessado por perguntas altamente complexas sobre a felicidade, consumo, maternidade e prazer.
Uma das editoras da Revista Feminista Periférica Fala Guerreira.    
POR SALLOMA SALOMÃO. ARUANDA MUNDI 2016

Ativismo cultural nas bordas da Piratininga ( Neri Silvestre) ABC

Entrevista Neri Silvestre – realizada no dia  29 de julho de 2016.

Como nasceu a ideia de organizar o Sarau?

Na realidade, eu a Gláucia, a Carla, a Maria, O Helinho, a Rita mais a galera que tá aí, a gente se inscreveu no edital do ponto de cultura em 2009 dentro do programa Cultura Viva. A gente foi contemplado, mas tinha uma dívida dentro da Associação de Moradores que precisava pagar impostos e, por morar num bairro (Jardim santo André) e as pessoas não entenderem que, pelo menos, elas precisavam declarar que são isentos, sem fins lucrativos, tal… não tinha como pagar, aí decidimos fazer um sarau, fazer uma noite da pizza com sarau. E aí foi muito loco, porque a gente fez e várias donas de casa, vários moradores do bairro começaram a declamar suas poesias, começaram a falar etc. Daí nasce em 2011 o Sarau na Quebrada e era nossa intenção fazer no bairro e a gente fez por muito tempo dentro da Associação de Moradores. E dentro disso, a gente foi construindo... e ao mesmo tempo era um espaço de resistência, um espaço que a gente melhorou, que a gente conseguiu mudar a estética, mudar a relação da comunidade, porém, os casamentos acabam, nada é pra sempre.

A gente acabou rompendo e continuou a fazer o Sarau na Quebrada pelos botecos, e  a Rita por ter os equipamentos, emprestava pra gente. E um dia a gente descobriu que tava tendo o edital do PROAC em São Paulo, porém esse edital não atendia as nossas necessidades, do sarau. Ele não poderia ser feito em bar, tinha que ser profissionais, era voltado pra editoras. E por uma limitação nossa, como a gente estava num movimento de pontos de cultura, e está ainda num movimento de Pontos de Cultura latino-americano e brasileiro, a gente armou com a  Secretaria de Cultura do Estado para que construísse uma política pública dentro da Secretaria de Cultura e dentro do PROAC. Aí em conjunto com a Secretaria do estado de Cultura, o movimento de saraus de São Paulo construiu um edital e esse edital possibilitou que outros saraus pudessem ter acesso a esse dinheiro e  à política pública construída a várias mãos. Aí a gente conseguiu com que, tivéssemos equipamentos e a gente começou a rodar nos bares da periferia. A  além da cachaça, dos bêbados, que  é onde a gente ficava e onde continua ficando do mesmo jeito. Nos lugares mais precários a gente levava os livros os equipamentos de vídeo e equipamentos de som transformando num pequeno centro cultural uma vez por mês. Mas isso foi mudando e começamos a pensar que a gente precisava ficar num lugar fixo. E agente vem tentando nos últimos três anos ficar num lugar fixo. Já estamos com seis anos. Mas sempre acontece alguma coisa, ou o bar quebra ou não é o mote do dono do bar. Ele fatura, mas não é o que ele quer, porque a gente não pede nada pro bar. Aliás a gente pouco pede pras pessoas, porque a gente não tem políticas públicas, mas a partir de coisas colaborativas a gente quer fazer o sarau porque a gente gosta. Mas, no entanto, fazer o sarau, pra gente foi a possibilidade de construir coisas juntos com outras pessoas e também ter nosso espaço de fruição espiritual, que é nossa possibilidade de tá colocando nosso sentimento pra fora através da poesia, da música e das falas políticas.

E também tinha a questão de construir o debate. Então o sarau trouxe, muitos temas como DSTs, terceirização e precarização do trabalho, o extermínio da população negra, preta e periférica, sobre a mulher, sobre o indígena, sobre a diversidade cultural do Brasil. A gente fez do nosso jeito aqui na nossa quebrada. A gente, na realidade, tem a ideia de criar um espaço democrático, onde se consiga aglutinar forçar e, pelo menos, sobreviver de cabeça erguida diante do sistema que é essa precariedade, a ausência de políticas públicas que atendam o que a gente quer. Não há um entendimento da sociedade como um todo, artística e não artística, que a cultura é importante dentro do processo civilizatório da gente. Nós temos consciência de classe, porém as pessoas não tem… eu acho também que é uma arrogância minha dizer que elas não tem… mas a gente vê que não consegue unir outras pessoas pra lutar por políticas democráticas que sejam públicas, que sejam construídas por várias mãos, pra que essas políticas, dentro do município atendam nossas necessidades e que não vão só atender as necessidades da gente, mas que vão ser ampliadas e vão atender outras pessoas. A gente não apresenta projeto cultural pra prefeitura, pra secretaria de Cultura, nem dentro do Estado, nem municipal porque a gente acha que política de balcão ainda é coisa da época dos coronéis: a gente conhece pessoas e acaba apresentando projetos individuais, isso é muito centralizado, (como se  diz?) é muito umbigal e não é nisso que a gente acredita. (risos) acho que misturei um monte de coisas, mas é assim, vai batendo na cabeça e pra seguir uma linha, é muito loco, porque aconteceram várias coisas. A gente chegou aqui um dia e começou a  fazer sentados no meio da rua, tinha seis ou sete pessoas, depois oito, depois quinze, depois vinte, fez com o pessoal do Projeto Crack Zero e foi muito loco… aí a gente foi fazendo com vários grupos.

A gente tem também a possibilidade de: os equipamentos que a gente conseguiu com o PROAC emprestar pra outros grupos, outros artistas, outros coletivos. A gente tem usado a política pública não só em nosso benefício… como é equipamento público, porque foi a partir de uma política pública… a gente tem feito parcerias com outros coletivos. Temos fortalecido, feito do in antropológico, num sarau que é o Sarau da Resistência que fica lá em Rio Grande da Serra, que pouca gente vai pra lá. A gente leva nossos equipamentos, opera lá os equipamentos, mas são eles que protagonizam, eles que fazem o sarau. É o Sarau da Resistência, numa Associação, num lugar inóspito no sentido de políticas públicas, se aqui é ruim, lá é menos política pública ainda. Lá é um diretoriazinha de cultura e não tem incentivo nenhum, eles não acham que o que a gente faz é importante e a gente trabalha com essa coisa simbólica. Não simbólico no diminutivo e nem folclórico, mas o simbólico no sentido de que o que a gente faz é parte da cultura brasileira, parte da necessidade humana de se expressar,  é transformar o que a gente sente em poesia.

Ele acontece regularmente?

Então, ele estava acontecendo uma vez por mês, uma vez a cada dois meses, porém, eles tem lá as dificuldades de organização e a gente também, porque há uma certa precariedade. Quando a gente tem grana fica legal, a gente põe gasolina coloca os equipamentos no carro e vai pra lá. É muito lindo! Tem momentos de encantamento maravilhosos, uma relação afetuosa com Rio Grande da Serra. Tudo que  a gente pode fazer a gente faz, porém é uma dificuldade lá deles de organização. A gente queria que eles avançassem mais isso, mas eles têm feito uma discussão com a sociedade local pra que as pessoas entendam que a cultura é importante dentro do processo humano nato e isso pra gente também é importante: uma construção de coisas por aquilo que nos une.

Neri pergunta: Você faz Federal? Respondo: Sim, Instituto Federal de São Paulo. Neri: Ah, eu quase fiz Gestão em Turismo lá e quando eu ia entrar, falei: Não, vou pra Gastronomia. (risos)

Por que a escolha desse local pro sarau?

É porque aqui tá o nosso povo, aqui é o meu bairro. A renda per capita é de 850,00. Há uma dificuldade, a gente vem de luta por moradia, luta pelo asfalto, luta pela água, pelo emprego. Aqui  a gente fala de assunto que tem a ver com a população local. Também to inserido dentro dessa população local, então me conto como agente do processo, mas também protagonizando, podendo ter a oportunidade de fruir espiritualmente, de colocar meu sentimento pra fora. Acho que a nossa relação é afetuosa com nosso bairro. A gente é internacionalista, porém a gente tá no bairro. As coisas tem que vir de baixo pra cima, é de baixo a cima que a gente vai transformar a cidade, o estado, o País. A gente acredita muito nisso. Então a gente tem feito essa discussão, e traz a  temática do sarau, que a gente fala que é cultural… e ele é de muita importância porque é cultural e a cultura tem uma importância gigantesca dentro do nosso processo de vida.

Eu costumo dizer que a gestão cultural tá dentro de casa. É dentro de casa que tá inserida há muito tempo a gestão cultural, nos arranjos familiares onde há mediação através da cultura: eu gosto de uma comida e não faço porque minha mãe não come determinado ingrediente, então faço a comida respeitando o espaço dela. Por ex: não faço peixe, porque ela não gosta de peixe por causa do cheiro, etc. Porém e a gente tem lá a mediação na hora de assistir um Datena, por ex., um programa na cultura, comer, varrer o quintal, qualquer ação no formato que a gente tem de casa, nossas brigas, nossos conflitos também são mediados pela cultura. Então eu digo: que a gestão cultural está dentro da casa da gente. A gente tem que entender isso e quando a  gente entender isso vai entender outros processos culturais que rodeiam a nossa vida. Então, o sarau, a base dele é isso e é nesse sentido que a gente tenta se conectar com os moradores do nosso bairro.

Quais a dificuldades enfrentadas para a organização do sarau?

Uma coisa é criar horizontalidades, criar possibilidades para que outras pessoas se empoderem, tomem conta, façam no nosso lugar, dominem esses espaços, que se multiplique a ideia, que as pessoas possam, de fato, contribuir pra construção de um lugar melhor, de um país melhor. Sabe, acho que são utopias assim, a gente cria utopias a partir do nosso coletivo, mas são utopias criadas de forma diária, direta, é esse o processo nosso dentro do sarau.

E físicas?

Quando a gente sai de um lugar... vai pro outro. Mas a gente ta emancipado em equipamentos, a gente é emancipado, domina,  porque acabou fazendo curso de gestão cultural, curso técnico de som,  a gente tem um carro velho que a gente vai e faz. Acho que a maior dificuldade é não ter a política pública que viabilize, por exemplo, a nossa produção escrita, as nossas poesias. A gente tá na luta de classe, a gente tem que ter a consciência de classe que: a burguesia vai ser sustentada de alguma forma. É por isso que as políticas de balcão são nocivas ao que  a gente faz, porque elas  não ampliam a possibilidade da gente, mas daqueles que sempre estiveram inseridos dentro do poder e com a relação mais íntima com o poder. Acho que a maior dificuldade é não ter uma política pública que possa concretizar os nossos livros, os nossos discos, nossos filmes, as nossas artes plásticas… esse mundo da arte, né. Porque você faz e quer mostrar pros outros. Você quer compartilhar com os outros aquilo que tem de melhor, de mais bonito, de mais encantador. Então  a gente tem essa dificuldade, não ter uma política pública que atenda a nossos anseios. Que seria uma luta não nossa, seria uma luta de todas as classes.


Como eu vejo a cultura como dimensão humana, parte do humano, acredito que as pessoas deveriam se engajar na luta: a classe média, os professores, os educadores, os artistas, todos deveriam se engajar na luta pra que houvesse políticas públicas robustas e que essas políticas fossem fortalecidas e construídas a partir das outras pessoas que nos rodeiam. Isso é uma sociedade, é uma democracia, e democracia se faz pelo pressuposto que as pessoas colaborem umas com as outras, porque a gente carrega as coisas de forma comum, bens comuns, como comunista, pessoa comum, acredito nisso. Não sei estou certo. Mas essa é minha linha de raciocínio.

Nossa dificuldade poderia ser amenizada ou construída com outras classes sociais, porque são elas que detêm o capital cultural e o capital econômico. Nós detemos algum capital cultural que aliás eles desconhecem, porém acham que a formação de público tem que ser deles pra nós. Eles desconhecem o nosso samba, desconhecem os nossos arranjos culturais, nosso samba de boteco, nossas conversas de padaria de manhã tomando café, desconhecem tudo. Na realidade eles querem formação de público pra eles, pra música erudita, teatro, pras artes. De um lado tem fomento pra eles fazerem isso. Do outro lado pra nós não tem nada, só tem “de receber”. O processo de colonizador deles: vem, tamu aqui ó, vocês vão aprender música erudita. É como fez Pedro Alvares Cabral, o pessoal do Colombo, Anhanguera, como fizeram outros colonizadores etc. Vêm pra explorar a nossa precariedade e nossa possibilidade de fruir espiritualmente.

E você frequenta outros projetos, outros saraus?

Eu não tenho feito mais tanto isso. Frequentava bastante o do Fórum, do Ademar. A gente tem o Cine Sapo que é uma espécie de sarau, é feito lá na favela do Sapo no Thelma, que é uma construção de muitos coletivos, gente de muito afeto, que a gente ama muito e que tem possibilitado o protagonismo de um lugar precário. São moradores locais que tem feito e desenvolvido ações culturais dentro dum lugar, onde se costuma ter aquela visão tosca ah, esse lugar não tem cultura! E pelo contrário, as pessoas vão e se divertem, se alegram. A gente consegue tirar cem, duzentas pessoas de frente a televisão. E o Faustão fica, pelo menos naquele momento,  sem aquele público e a gente consegue passar um domingo. Isso acontece a cada dois mês e é muito doido, você precisa conhecer.

E sobre o Ademar?

É um dos saraus que nos inspirou, porque a gente fazia de forma tímida e ali, uma poetisa da Zonal Sul do bairro Ademar em São Paulo, e ela dizia Neri olha, quando você fizer um sarau, escreve as suas poesias, escreve o que você quiser, fala o que você quiser, não liga, canta uma música, dança, faz qualquer coisa. Vai lá, faz, que é assim que a gente tem que fazer. A gente tá ligado que tá num bairro que é difícil mesmo. As pessoas não entendem que é difícil essa nossa relação com o bairro e que o bairro tem uma relação com a cidade. A gente é chamado aqui de cordão da miséria, porque o Jardim Santo André tem uma renda de 850 reais per capita, o Cata Preta tem mais 800 reais, o clube de Campo são 750, a represa 700 reais. Nossa mão de obra barata para toda cidade e o Bairro Jardim, no centro. São as lavadeiras, passadeiras, as babás, são as auxiliares de casa doméstica. Então a gente tem que de alguma forma dar visibilidade. E essa visibilidade, se diz no sentido de sair das páginas policiais e passar pras páginas da cultura dos jornais locais. A gente tem feito muito isso. Então ora sim, ora não, a gente tá lá com a nossa consciência, com o nosso falar sobre cultura. A gente tá disputando a cultura que já não é daquela forma ingênua. Não vamos lá falar eu tenho uma banda, eu sou o Neri. A intenção nossa é repartir, compartilhar, viver de utopias infinitas - que as pessoas precisam ter essas utopias - mas sabemos que as pessoas precisam também contribuir de alguma forma.

Você percebe a participação de pessoas ou coletivos de outras cidades aqui no sarau?

Ah sim!  Sempre tem gente diferente. Hoje tem a Márcia de Mauá, teve um Senhor do Jardim Santo André São Paulo, um pessoal de São Bernardo que está aqui, teve um pessoal do Ipiranga, o crack Zero, poetas da Zona Sul. Gente do Sarau de Mauá, teve gente de um monte de lugar. A gente não é fechado, o sarau é aberto e quer contribuir para a construção de uma possibilidade pra cultura. Falar da cultura é falar de processos horizontais, processos que não tem a ver com a personificação de alguma coisa que você faz, não personificamos nada aqui. Obviamente que  agente tá aí, mas a ideia de que viessem outras pessoas pra fazer junto com a gente ou por nós, sabe, eu to com quase cinquenta anos.. essa é uma luta nossa.

O que eu percebi, frequentando os saraus, eu vejo a circulação de pessoas comuns, o que você acha disso?

Obviamente tem aquela coisa de afins, né. A pessoas são afins. É aquilo que nos une, essa coisa da gente poder também intercambiar. Por que o nosso sarau é diferente do Sambado, do Fórum, a gente tem uma outra característica, a gente é mais bicho grilo, mais malucão no que faz, não tem muito uma certa ordem. Os do Fórum é os meninos  Mcs do Rap, o Sambado já é aquele a mistura de cultura popular e mais as poetisas e tal. Então a  gente tem uma mistura de feministas, de punks que colam, tem um intercambio e aí eles podem provar de outros formatos, de outros modelos, de juntar pessoas para celebrar a vida.

Você sabe de algum caso que, a partir do sarau, alguém tenha sentido-se motivada a montar outros projetos?

Não sei, eu tava querendo te dizer o seguinte: a nossa ideia é o que a gente chama de … foi o que o Gilberto Gil chamou de do-in antropológico. A ideia do Gil quando ele criou a Cultura viva e os pontos de cultura era valorizar aquelas atividades culturais do Brasil que já existiam, que ele reconheceu como pontos vitais da cultura e eles precisavam ser massageados para que pudessem expandir, para que eles pudessem virar o ponto de apoio dentro da comunidade onde estavam encetados, inseridos. E a gente tem essa ideia também. A gente foi valorizado e a gente quer valorizar outros grupos pra que eles possam valorizar outros grupos e ampliar aquilo que a gente chama de potência. A gente vê nas pessoas a possibilidade. Vê nas pessoas um mundo novo possível. A partir da construção do outro e da felicidade do outro, construir a nossa felicidade e nossa possibilidade de vida, dentro dessa coisa que a gente chama de mundo, dessa epopeia humana. E dentro disso a gente quer construir com coisas comuns para que outras pessoas sejam mais felizes. Não sei se a gente consegue, mas essa é nossa esperança: valorizar outros para que os outros possam valorizar a gente. O que o outro faz é importante e o outro tem que achar a mesma coisa.

Você frequenta outros projetos culturais?

Sim, eu sou uma pessoa da discussão da cultura.
Você estava falando do Rogério, o que você faz com ele?
O Rogério da Afro-escola é um projeto muito legal que tem.
Você tem alguma participação nesse projeto?
Não. O que  a gente tem feito é uma discussão, é uma conversa, um momento de fruição nossa também lá. Então a gente vai e ele pra fazer um projeto em parceria, ele tem feito coisas de forma coletiva.
Então tenho frequentado lá, mas tenho também feito a discussão sobre a lei Rouanet em São Paulo, tenho discutido a questão das políticas culturais dentro do PSOL, fora do PSOL. Não sou do PSOL, mas acho importante nesse momento de eleição a gente tá construindo o debate sobre políticas culturais e principalmente nós que viemos da periferia e que a intuição não valia nada e que hoje ela tem um certo valor e que a nossa capacidade de pensar a cultura já não é mais aquela coisa simplória como te falei. Então agente tem feito  inúmeras discussões e pra gente falta espaço pra fazer a discussão. Mas a gente vai cavando oportunidades, construindo. Nós fizemos aqueles diálogos no SESC, foi um negócio muito interessante porque é um espaço pra levar agentes da cultura e acabamos levando pessoas da cultura: pessoas do futebol de várzea, das escolas de samba, grupo de teatro da periferia, levamos mestres Griôs, teatro infantil, juvenil. A gente tem feito outras discussões.

Os diálogos no SESC era um projeto seu?

Curadoria minha e da Adriana Leandro e mediação nossa também. A gente teve a felicidade, o SESC abriu as portas pra gente pra fazer a discussão. A princípio eu tinha ficado arredio nessa questão de ser curadoria, porque eu acho que curadoria tem a ver com essa coisa elitista da arte como processo de deslumbre individual, de umbigo. Mas me convenceram do contrário: que eu poderia falar de uma outra maneira sobre curadoria e sobre mediação. Sei lá, acho que to pirando nesse negócio. A gente tem que construir um modelo de cultura politica que possa elevar o nosso processo civilizatório. A gente anda muito, com muita dificuldade, muita disputa e não sou de muita disputa. Não to aqui pra disputar nada com ninguém e sim compartilhar as coisas com as pessoas.

Sua construção no pensar cultura, fazer cultura, como você pensa isso pra região do ABC?
Bom, eu acredito na gestão cultural. Eu acredito na cultura como dimensão humana. Então a partir da gestão cultural e da dimensão humana da cultura eu acredito que a política cultural tem que atingir as pessoas, não mais atingir só os artistas.

O Brasil quando promulgou a Constituição de 88 colocou lá que a cultura é um direito. O ministério da Cultura reconhece a cultura como direito e fala das três dimensões que eu também acho legal:  a dimensão cidadã, a dimensão simbólica e a econômica. Então todos nós, qualquer coisa nossa, tudo que a gente faz é  pela cultura e para a cultura. Isso veio lá dos neandertais, até agora, sendo mudado, construído e evoluído diante de ações, a partir da cultura. Uma ferramenta, a comida, o jeito de falar, o jeito de se reunir, os modos de morar, tudo isso é cultural. Então a gente crê que falta ao Estado, e eu coloquei o Estado, porque é o Estado que vai disponibilizar recursos e políticas que façam com que a população além de se emancipar, reconheça no outro a possibilidade de vivência de forma igual. Não menos igual ou mais igual, mas igual. Eu acho que a cultura tem esse papel: a emancipação do homem e trazer a igualdade e, a partir disso, os processos de paz. A partir dos nós da cultura poder conviver com a diversidade, conviver com o outro, conviver com a natureza, respeitar o meio ambiente, entender que as pessoas fazem cultura, mesmo a partir de qualquer precariedade: sem saneamento básico, etc. Mas todo mundo precisa fazer cultura, fazer arte, porque é … o nosso sentimento e a gente quer botar nosso sentimento pra fora: a gente quer namorar, quer jogar futebol, quer ir pra igreja, quer ir  pro batuque, a gente quer fazer outras coisas.


Eu acho que pensar em cultura no ABC é pensar o povo do ABC. Pensar que o  ABC é parte da Grande São Paulo e é uma lindeza, uma riqueza, e tem uma diversidade cultural gigantesca. Além das artes, a gente tem outros processos. A gente tem o terreiro Tambor de Mina, que é uma vertente do candomblé lá em Diadema, o samba de terreiro, o Sapopemba(mestre da cultura), as crianças do ABC, minha mãe que tá com 89 anos, sua família, sei lá, a gente tem um monte de gente. A gente passou muito tempo acreditando nessa coisa que cultura quem faz é só artista, e não é. A população em geral tá fazendo cultura a todo tempo, o tempo inteiro. Porque faz parte do nosso processo humano. Penso que o Abc é uma coisa doida. Nossa, to separando o ABC … é o Brasil... o Brasil é essa dimensão gigantesca, é uma cultura maravilhosa. Se for pensar no Brasil fico empolgado, eu vi Coco, ciranda, gente me tratando com muito carinho, vi Griôs, os mais velhos tendo uma responsabilidade, vi crianças batucando, cantando, dançando. Tem do bom e do ruim. A grande parte da população brasileira faz cultura do bem, claro que do jeito dela, com a instrução que ela tem. Como a tem uma diferença muito grande educacional, há uma dificuldade da gente fazer de um jeito ou de outro. Mas acho que o ABC a o  Brasil, é uma possibilidade gigantesca, é um mundo novo. O Brasil, se for por essas relações, a gente vai embora.



Entrevista realizada por  Jô Barranova  Curso de  Licenciatura em Geografia do IFSP.

Neri Silvestre. É dono de um coração imenso e imerso nesse brasil de meu deus. Mas as vezes parece prolixo e difuso, sendo um poeta. Seu texto, no entanto, traz uma percepção bem aprumada sobre o papel da cultura e das artes no processo de emancipação social e política. Não é ingênuo, mas sua experiencia concreta num projeto feito em uma favela do ABC, mostrou o quanto de autonomia se pode obter construindo ações pequenas e obtendo parcerias no próprio bairro é muito mais importante, que elaborar sofisticas planos de captação de recurso. Sua fé numa reversão da tendência de consumismo e desumanização, o empurrou para contatos na América Latina e fortalecimento dos laços no seu território. Esteve profundamente ligado aos processos de formação dos pontos de cultura e agora , tal como nós, se pergunta sobre as alternativas que podemos construir diante de uma situação de total desmonte das poucas políticas culturais que existem no País.